Parte 3
Pergunta - E isso significa também uma valorização da figura do locutor. Até a identificação do público na tua época da Continental existia bastante a valorização da figura do locutor:
CLOVIS: Com certeza. A programação gravada perde. Perde imensamente. O rádio é muito mais rápido do que a televisão. A velocidade que o rádio tem, a televisão nunca vai Ter. Do tipo: Caiu um avião. Eu pego um celular e imediatamente entro no ar na rádio AM ou FM. A televisão não permite isso. A Televisão vai chegar, no mínimo, depois de 20 min. Ou mais. Até armar toda a infra de televisão, de cameras, etc e tal. Então, a televisão não tem essa velocidade do rádio. E se o rádio estiver ao vivo, sai todo mundo ganhando.
Pergunta - E tu que é um homem de rádio. Que já trabalhou em AM, que já trabalhou em FM. Que que tu acha dessa unificação da Bandeirantes, de programação.
CLÓVIS: A Bandeirantes AM em da FM? Olha, eu acho que houve um retrocesso. A rádio Bandeirantes FM transmitia uma programação independente, local e muito prestigiada. Acho até que vocês acompanhavam, ouviam e curtiam. O que aconteceu? A rádio Bandeirantes FM entrou em cadeia com a rádio AM. Um retrocesso por quer? Por que era exatamente o que acontecia nos anos 60. Como eu disse para vocês, a finalidade do FM era transmitir a programação do Estúdio para o transmissor. Era um purificador, um filtro de qualidade. A rádio Bandeirantes transmite a programação da rádio AM. Eu duvido que o público que ouvia a rádio Bandeirantes FM continue ouvindo. Eu duvido. Sinceramente não sei aonde a rádio saiu ganhando. Se foi em eliminar um quadro um broadcasting pra faturar mais ou gastar menos. Sei lá o que aconteceu.
Pergunta - Qual seria o perfil do teu programa na Rota do Sol?
CLÓVIS: Na Rota do Sol, eu tenho um programa Sábado a noite. Ele é informativo. Porque o rádio Sábado a noite é diferente do rádio de Segunda a Sexta. Assim como também é diferenciado do rádio de Domingo. Eu sempre me neguei a fazer programa Domingo. Até fazia na rádio Universal. Domingo é um dia que as pessoas saem. Dificilmente ouvem rádio. Se dispersam, não ficam atentas. A televisão engole o rádio no Domingo. Os programas mais vistos da televisão são veiculados aos domingos. Aos sábados há um outro fenômeno. Sábado a noite Dificilmente alguém vai parar, sentar, reunir amigos etc e tal pra ouvir um programa de rádio. É muito difícil isso acontecer. Por que? Por que de noite rola uma janta, rola uma festa, é o glamour da noite de Sábado. Então o meu programa, ele rapidamente vai ao ar das 9:30 a meia noite, na Rota do Sol. 103.9 Então eu informo o que está acontecendo, vai rolar um evento, saiu um disco. E a partir das 11, o som das pistas dançantes. Aí é um esquema mais festeiro. De segundas as sextas, é um programete. Cinco para o meio dia toca uma música, coloco uma informação no ar, algum evento, alguma coisa e era isso.
Pergunta - Defendendo sempre aquele perfil de programa que vai contra essa massificação do rádio, até que tu falou a pouco, uma coisa meio apocalíptica. Que os computadores são uma ameaça para a programação. Tu continua numa guerrilha contra, né?
CLÓVIS - Não é que eu esteja numa guerrilha contra os computadores, mas eu acho que no rádio, neste momento, os computadores, não posso dizer que prejudicam, mas danificam a qualidade do rádio. Nesses termos que eu coloquei pra vocês. Primeiro: Gerando desemprego. Segundo: Fazendo com que o rádio se transforme num freezer. É possível colocar a hora certa, é possível dar até a temperatura em gravação. Tudo é possível. Tudo que se possa imaginar é possível na programação gravada. Só não é possível colocar no ar o que está acontecendo no momento. O computador congela a programação da emissora e afasta a participação e a interatividade do público ouvinte.
Pergunta - E qual é o teu público agora na Rota do Sol. Teu público alvo? Que tipo de música tu toca?
CLÓVIS: O meu público tem a ver com o perfil da emissora. Pode se dizer um público na faixa A,B,C. Na faixa 25 - 50, por aí. Talvez um pouco menos. Na televisão, no programa que eu faço na Net, já é um outro segmento. É um outro público.
Pergunta - Tu acha que o computador chega a ser uma ameaça hoje? Com rádios tão fortes como a PopRock, que faz uma programação ao vivo e que é imbatível no segmento dela, tu acha que o computador chega a ser uma afronta?
CLÓVIS: Não sei. Não sei quais são os planos da PopRock. A PopRock é da Ulbra. E a Ulbra tem o maior interesse em manter essa chama acesa. Porque quanto mais programação ao vivo, mais possibilidade da rádio se interagir entre os próprios alunos da Ulbra. Antigamente era a rádio da Ulbra. A Ulbra eu acredito que jamais vá computadorizar a programação da PopRock. Eu acredito, mas tudo é possível, né?
Pergunta - E tu acha que tem alguma possibilidade de voltar ao rádio de Porto Alegre?
CLOVIS: Acho que não. Acho que é muito possível fazer uma coisa do tipo uma emissora ou duas mudarem a programação. Isso seria uma coisa alternativa. Até porque, as opções de hoje são muitas. E os canais também são muitos. Hoje você pode encontrar 40 emissoras de FM, 40 de AM, não gostou do FM nem do Am pode se refugiar no MP3 na Internet. Tem uma overdose de opções. Isso dificulta também a comercialização, porque o sucesso de um programa de rádio ou de televisão depende muito da comercialização, sem o que eles são inviáveis. A PopRock é a emissora de FM que mais fatura. Que tem a maior comercialização aqui no RS em FM. Por causa da programação, por causa da repercussão, por causa do sucesso.
Pergunta - O que q tá faltando no FM então?
CLOVIS: De repente seguir esse próprio exemplo da PopRock em outros segmentos. Porque a PopRock trabalha em cima de um público jovem, um público não só teenager, mas vamos colocar de 15-30. Parece ser o forte da PopRock. Por que outras emissoras não seguem essa programação? A Gaúcha FM faz alguma coisa. Mas a Gaúcha FM, eu não sei o que falta para a Gaúcha FM pra que ela chegue no grande público sem vulgarizar. Falta alguma coisa, não sei bem o que. Mas fora isso, eu não vejo outras programações de rádio que sejam no mínimo interessantes, nesse segmento que a gente está colocando.
Pergunta - Talvez a Gaúcha FM sofra de uma elitização de programação e público. Por que não é um grande público. É um público A, B, no máximo.
CLÓVIS: A elitização em rádio é até meio perigosa. Porque fica-se absolutamente limitado. A verdade é que o público A não vai ficar grudado o dia todo em FM, porque eles tem outros recursos, e como tem, né?
Pergunta - E o Top Music é muito interessante por que rola de tudo. Ele nunca me pareceu elitizado em nada. Ele toca Rio Negro e Solimões, que a gente escutou outro dia, com todo outro tipo de música.
CLÓVIS: Eu sempre me neguei a elitizar minhas programações. Numa vez a rádio Continental AM, Elinho Volfrieds queria porque queria que eu fizesse um programa "falando das socielites", dos movimentos da alta sociedade de Porto Alegre. Só que ele queria produzir e queria que eu apresentasse. Eu disse: Eu lamento, mas eu não faço isso. Não tem absolutamente nada, nada a ver comigo. Eu não gosto disso. Eu sempre fui um comunicador de massa. Massa não significa ser um comunicador que tem o público do Ratinho. Não é isso. Apesar do sobrenome dele ser "Massa". Eu sempre gostei de falar para pro grande público. Apesar de eu estar fazendo TV a cabo, fazer programa na Net, no canal 20, que é um público restrito, mas em termos, porque já são 110 mil assinantes. Eu sempre gostei do grande público. É agradável estar na frente de um microfone, de uma camera, e saber que muita gente está assistindo. E pra mim é muito desagradável saber que este mesmo programa está sendo visto por 6 ou 7 pessoas.
Pergunta - Então, dessa maneira, o teu programa na Net, apesar de ser a cabo, não elitiza o que rola de programação no teu programa.
CLÓVIS: Meu trabalho em rádio e televisão sempre visou muito o segmento da emissora. Por exemplo, a Rádio Continental tinha aquele segmento. Depois passou a Ter outro, Eu naturalmente acompanhei com algumas restrições. A rádio Universal foi a mesma coisa. Na TV Guaíba também não foi muito diferente. E agora na Net. A Net é uma proposta interessante. Eu fiz AM nos anos 60 e 70, fiz FM nos anos 80 e fiz Tv aberta nos anos 90 e eu achei que poderia experimentar a TV a cabo no início do novo século. Então na Net, qual é o perfil de apresentadores. É faixa A-B-C, idade predominante 25-50. Então na Net eu tenho a oportunidade de resgatar aquele público que me ouvia lá nos anos 60, lá nos anos 70, que hoje está numa faixa de 40 a 50 anos, são empresários, executivos, que me conheciam, que ouviam os meus programas, que até iam nos meus bailes. Um exemplo, Atilho Mazoli Jr, dono da Manlec, patrocinador do meu programa, é um cara que me acompanha a muito tempo. Um cara relativamente jovem. Na Net está tendo um resgate desse público, sem que seja um programa completamente elitizado. Do tipo: Rolou Expointer, eu fui lá e gravei. Rolou aqui no parque Harmonia a semana Farroupilha, fui lá e entrevistei o pessoal também. Mas posso gravar no Sgt. Peppers. Posso gravar uma entrevista com um médico, enfim, é uma revista eletrônica de fim-de-semana, com dicas, sugestões e por aí afora. Aos sábados das 6 as 7 da tarde, repetindo nos domingos do 12:00pm a 1:00pm e as terças das 7 as 8 da noite. Sintonia Fina.
Pergunta - E tu acha que na rádio não há espaço para tu resgatares esses teus ouvintes antigos da Continental?
CLÓVIS: Talvez não haja veículo. E também falta um pouco de tempo. Eu gosto de rádio, gostaria de voltar a fazer rádio em Porto Alegre. Mas eu perguntaria a vocês: Aonde? Qual o veículo? Não existe nenhum espaço, uma abertura... Talvez até haja, mas se eu fizer um programa na Gaúcha FM vou Ter que fazer um programa elitizado, não me serve. Na Continental FM, tem uma programação computadorizada, o mesmo na Antena 1. A PopRock, neste momento, não tem muito a ver com o trabalho que eu estou fazendo. Então não encontro um veículo para viabilizar essa idéia, esse projeto.
Pergunta - Esse fenômeno do grande público, principalmente na TV, contigo, foi muito interessante. Porque no canal 20 muitos programas diferentes são veiculados. Tem programa policial, tem programa de medicina, tem o Sintonia Fina, que é uma revista eletrônica, e o TeleRitmo tinha uma característica que era muito interessante. Que ele ficava num horário entre a Marlei Soares e um programa jornalístico que era o Flávio Alcaraz, e mesmo assim sem perder público. Lá tu fazendo o programa,sentia essa mudança de público de um minuto para outro?
CLÓVIS: Sentia. Por que? Como eu disse pra vocês, o sucesso de uma emissora de televisão depende da programação, da continuidade. Por exemplo: Se tirar o Jornal Nacional, derruba as duas novelas. A das 7 e a das 8 da rede Globo. Então tem que ser uma programação que quando tu queres desligar um rádio ou uma televisão, alguma coisa que está chegando não permite. Na TV Guaíba apresenta um programa para mulheres, o Palavra de Mulher. Das 4:25 as 6:25. Então a mulherada toda assiste a Marlei Soares. Mas quando chega as 6 horas, 6:25, os filhos desta mulherada toda estão chegando da escola, pessoal sai 5, 6 horas da escola e iam direto na Tv Guaíba, no Teleritmo. Sabiam o que estava acontecendo em termos de música, etc e tal. Ali já havia uma escada. Primeiro as mães, depois os filhos. Sete da noite, os pais estão chegando em casa, e então iam assistir o Flávio. Porque ele ia falar em economia, política. Essas alturas os jovens já estão saindo dessa continuidade da TV Guaíba. Talvez, porque queiram assistir a novela das 7 ou então tem outras coisas a fazer. Então essa escada a meu ver é hiperimportante numa programação de rádio ou de televisão.
Pergunta - Talvez isso falte no rádio. Um planejamento da escala da programação. E isso foi bem construído pela Guaíba. Hoje eu me dou conta disso. Na época eu estava mais preocupada vendo o TeleRitmo. Talvez no rádio falte um pouco disso
CLÓVIS: Tu pode ver que as emissoras que tem essa estrutura estão bem. É o caso da PopRock. Tem programas interessantes. Um programa ligado no outro. E a programação da Tv Guaíba na verdade não foi elaborada pela direção da emissora. A direção se limita a colocar ou não no ar um programa. Claro que é preciso que haja uma certa qualidade, um certo nível. Todos os programas da TV Guaíba são independentes. Tudo que se vê ali é produção independente. É tudo. Cenário, comercialização, produção, tudo por conta dos apresentadores. Então a Tv Guaíba, com a saída do Teleritmo, deixando a modéstia de lado, teve uma certa quebra. Por que se vem essa seqüência, o pessoal tá ligado, e as 6:30 tem um buraco. O que é esse buraco?É um filme, uma sessão pastelão, acaba dispersando o público, não tenha a menor dúvida. Ainda mais hoje, com a Tv a cabo disponível, acaba oportunizando ao público outras opções.
Pergunta - E será que tem alguma rádio que mantenha a característica da TV Guaíba de ser independente em Porto Alegre. A Ipanema se diz independente, mas...
CLÓVIS: Não. Não é independente. Ela se diz independente porque talvez ela não dependa da pressão das gravadoras e coloque no ar ...eu vejo este perfil da rádio Ipanema FM independente porque é feito aqui. É coisa nossa. E os caras parecem que tem uma certa liberdade para falar, se expressar, colocar no ar. Não sei, parece que tem.
Pergunta - Ela não seria a contraproposta da PopRock? Que vai bater de frente com a PopRock?
CLÓVIS: Eu acho que a Ipanema FM, com o advento da PopRock, perdeu muito. Uma parcela muito grande do público se transferiu para a PopRock. Não tenha a menor dúvida. Acho que não chega a bater de frente, não.
Pergunta - Porque o quadro de locutores da Ipanema era muito importante. Logo a gente vê a figura do dj, apresentador, comunicador. Que quando vai se dispersando, a rádio perde. Foi o caso da Kátia Suman, do Mauro Borba. Esse seria o papel do locutor, ser um chamariz do público?
CLÓVIS: O Rádio, televisão, jornal, revista...veículos de comunicação, e até o futebol, é feito de nomes. O público vai aonde estão os nomes. Hoje a Kátia Suman está na FM Cultura
Pergunta - E na PopRock também
CLÓVIS: A Cultura FM é uma rádio hiper-alternativa. Não tem expressão de audiência, de força. Não compete com outras emissoras nem é essa a proposta. Entretanto, a Kátia Suman tá lá,então o pessoal ouve, não tanto pela rádio mas pela Kátia Suman. Então ela pode agregar, transferir e pode trazer um grande público. O público vai aonde estão os nomes. Na PopRock o pessoal vai lá para ouvir o Mauro Borba. Isso é importantíssimo no nosso meio porque é possível nos tirarem do ar, por exemplo: Tiraram a Kátia Suman do ar. Demitiram a Kátia Suman. Mas ninguém vai tirar o nome dela. O maior patrimônio que um comunicador tem é o seu nome.
Pergunta - Não existe mais uma bandeira da rádio. Aquele pessoal que vestia a camiseta da rádio sim eles acompanham os apresentadores. É isso?
CLÓVIS: É verdade. O público acompanha . A Ipanema Fm, por exemplo, há um projeto, um tititi aí no meio, não sei se tá oficializado ou não, de que a Ipanema também poderá perder o espaço ao fazer outra cadeia de rádio. Não sei se nacional, ou coisa parecida. É uma perda. Acho que não é só o pessoal do meio, só os radialistas que perdem. É o público. No momento que se perde um veículo que se gosta, que se curte e que se acompanha, o público com certeza não gosta dessa proposta. Não vi ninguém dizer que gostou do que aconteceu com a Band FM.

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