Pergunta
- E isso significa também uma valorização
da figura do locutor. Até a identificação
do público na tua época da Continental existia
bastante a valorização da figura do locutor:
CLOVIS:
Com certeza. A programação gravada perde.
Perde imensamente. O rádio é muito mais
rápido do que a televisão. A velocidade
que o rádio tem, a televisão nunca vai Ter.
Do tipo: Caiu um avião. Eu pego um celular
e imediatamente entro no ar na rádio AM
ou FM. A televisão não permite isso. A Televisão
vai chegar, no mínimo, depois de 20 min.
Ou mais. Até armar toda a infra de televisão,
de cameras, etc e tal. Então, a televisão
não tem essa velocidade do rádio. E se o
rádio estiver ao vivo, sai todo mundo ganhando.
Pergunta - E tu
que é um homem de rádio. Que já trabalhou
em AM, que já trabalhou em FM. Que que tu
acha dessa unificação da Bandeirantes, de
programação.
CLÓVIS: A Bandeirantes AM em
da FM? Olha, eu acho que houve um retrocesso.
A rádio Bandeirantes FM transmitia uma programação
independente, local e muito prestigiada.
Acho até que vocês acompanhavam, ouviam
e curtiam. O que aconteceu? A rádio Bandeirantes
FM entrou em cadeia com a rádio AM. Um retrocesso
por quer? Por que era exatamente o que acontecia
nos anos 60. Como eu disse para vocês, a
finalidade do FM era transmitir a programação
do Estúdio para o transmissor. Era um purificador,
um filtro de qualidade. A rádio Bandeirantes
transmite a programação da rádio AM. Eu
duvido que o público que ouvia a rádio Bandeirantes
FM continue ouvindo. Eu duvido. Sinceramente
não sei aonde a rádio saiu ganhando. Se
foi em eliminar um quadro um broadcasting
pra faturar mais ou gastar menos. Sei lá
o que aconteceu.
Pergunta - Qual
seria o perfil do teu programa na Rota do
Sol?
CLÓVIS: Na Rota do Sol, eu tenho
um programa Sábado a noite. Ele é informativo.
Porque o rádio Sábado a noite é diferente
do rádio de Segunda a Sexta. Assim como
também é diferenciado do rádio de Domingo.
Eu sempre me neguei a fazer programa Domingo.
Até fazia na rádio Universal. Domingo é
um dia que as pessoas saem. Dificilmente
ouvem rádio. Se dispersam, não ficam atentas.
A televisão engole o rádio no Domingo. Os
programas mais vistos da televisão são veiculados
aos domingos. Aos sábados há um outro fenômeno.
Sábado a noite Dificilmente alguém vai parar,
sentar, reunir amigos etc e tal pra ouvir
um programa de rádio. É muito difícil isso
acontecer. Por que? Por que de noite rola
uma janta, rola uma festa, é o glamour da
noite de Sábado. Então o meu programa, ele
rapidamente vai ao ar das 9:30 a meia noite,
na Rota do Sol. 103.9 Então eu informo o
que está acontecendo, vai rolar um evento,
saiu um disco. E a partir das 11, o som
das pistas dançantes. Aí é um esquema mais
festeiro. De segundas as sextas, é um programete.
Cinco para o meio dia toca uma música, coloco
uma informação no ar, algum evento, alguma
coisa e era isso.
Pergunta - Defendendo
sempre aquele perfil de programa que vai
contra essa massificação do rádio, até que
tu falou a pouco, uma coisa meio apocalíptica.
Que os computadores são uma ameaça para
a programação. Tu continua numa guerrilha
contra, né?
CLÓVIS - Não é que eu
esteja numa guerrilha contra os computadores,
mas eu acho que no rádio, neste momento,
os computadores, não posso dizer que prejudicam,
mas danificam a qualidade do rádio. Nesses
termos que eu coloquei pra vocês. Primeiro:
Gerando desemprego. Segundo: Fazendo com
que o rádio se transforme num freezer. É
possível colocar a hora certa, é possível
dar até a temperatura em gravação. Tudo
é possível. Tudo que se possa imaginar é
possível na programação gravada. Só não
é possível colocar no ar o que está acontecendo
no momento. O computador congela a programação
da emissora e afasta a participação e a
interatividade do público ouvinte.
Pergunta - E qual
é o teu público agora na Rota do Sol. Teu
público alvo? Que tipo de música tu toca?
CLÓVIS: O meu público tem a ver
com o perfil da emissora. Pode se dizer
um público na faixa A,B,C. Na faixa 25 -
50, por aí. Talvez um pouco menos. Na televisão,
no programa que eu faço na Net, já é um
outro segmento. É um outro público.
Pergunta - Tu acha
que o computador chega a ser uma ameaça
hoje? Com rádios tão fortes como a PopRock,
que faz uma programação ao vivo e que é
imbatível no segmento dela, tu acha que
o computador chega a ser uma afronta?
CLÓVIS: Não sei. Não sei quais
são os planos da PopRock. A PopRock é da
Ulbra. E a Ulbra tem o maior interesse em
manter essa chama acesa. Porque quanto mais
programação ao vivo, mais possibilidade
da rádio se interagir entre os próprios
alunos da Ulbra. Antigamente era a rádio
da Ulbra. A Ulbra eu acredito que jamais
vá computadorizar a programação da PopRock.
Eu acredito, mas tudo é possível, né?
Pergunta - E tu
acha que tem alguma possibilidade de voltar
ao rádio de Porto Alegre?
CLOVIS: Acho que não. Acho que é muito possível
fazer uma coisa do tipo uma emissora ou
duas mudarem a programação. Isso seria uma
coisa alternativa. Até porque, as opções
de hoje são muitas. E os canais também são
muitos. Hoje você pode encontrar 40 emissoras
de FM, 40 de AM, não gostou do FM nem do
Am pode se refugiar no MP3 na Internet.
Tem uma overdose de opções. Isso dificulta
também a comercialização, porque o sucesso
de um programa de rádio ou de televisão
depende muito da comercialização, sem o
que eles são inviáveis. A PopRock é a emissora
de FM que mais fatura. Que tem a maior comercialização
aqui no RS em FM. Por causa da programação,
por causa da repercussão, por causa do sucesso.
Pergunta - O que
q tá faltando no FM então?
CLOVIS: De repente seguir esse próprio exemplo
da PopRock em outros segmentos. Porque a
PopRock trabalha em cima de um público jovem,
um público não só teenager, mas vamos colocar
de 15-30. Parece ser o forte da PopRock.
Por que outras emissoras não seguem essa
programação? A Gaúcha FM faz alguma coisa.
Mas a Gaúcha FM, eu não sei o que falta
para a Gaúcha FM pra que ela chegue no grande
público sem vulgarizar. Falta alguma coisa,
não sei bem o que. Mas fora isso, eu não
vejo outras programações de rádio que sejam
no mínimo interessantes, nesse segmento
que a gente está colocando.
Pergunta - Talvez
a Gaúcha FM sofra de uma elitização de programação
e público. Por que não é um grande público.
É um público A, B, no máximo.
CLÓVIS: A elitização em rádio é até meio
perigosa. Porque fica-se absolutamente limitado.
A verdade é que o público A não vai ficar
grudado o dia todo em FM, porque eles tem
outros recursos, e como tem, né?
Pergunta - E o
Top Music é muito interessante por que rola
de tudo. Ele nunca me pareceu elitizado
em nada. Ele toca Rio Negro e Solimões,
que a gente escutou outro dia, com todo
outro tipo de música.
CLÓVIS: Eu sempre me neguei a
elitizar minhas programações. Numa vez a
rádio Continental AM, Elinho Volfrieds queria
porque queria que eu fizesse um programa
"falando das socielites", dos movimentos
da alta sociedade de Porto Alegre. Só que
ele queria produzir e queria que eu apresentasse.
Eu disse: Eu lamento, mas eu não faço isso.
Não tem absolutamente nada, nada a ver comigo.
Eu não gosto disso. Eu sempre fui um comunicador
de massa. Massa não significa ser um comunicador
que tem o público do Ratinho. Não é isso.
Apesar do sobrenome dele ser "Massa". Eu
sempre gostei de falar para pro grande público.
Apesar de eu estar fazendo TV a cabo, fazer
programa na Net, no canal 20, que é um público
restrito, mas em termos, porque já são 110
mil assinantes. Eu sempre gostei do grande
público. É agradável estar na frente de
um microfone, de uma camera, e saber que
muita gente está assistindo. E pra mim é
muito desagradável saber que este mesmo
programa está sendo visto por 6 ou 7 pessoas.
Pergunta - Então,
dessa maneira, o teu programa na Net, apesar
de ser a cabo, não elitiza o que rola de
programação no teu programa.
CLÓVIS: Meu trabalho em rádio
e televisão sempre visou muito o segmento
da emissora. Por exemplo, a Rádio Continental
tinha aquele segmento. Depois passou a Ter
outro, Eu naturalmente acompanhei com algumas
restrições. A rádio Universal foi a mesma
coisa. Na TV Guaíba também não foi muito
diferente. E agora na Net. A Net é uma proposta
interessante. Eu fiz AM nos anos 60 e 70,
fiz FM nos anos 80 e fiz Tv aberta nos anos
90 e eu achei que poderia experimentar a
TV a cabo no início do novo século. Então
na Net, qual é o perfil de apresentadores.
É faixa A-B-C, idade predominante 25-50.
Então na Net eu tenho a oportunidade de
resgatar aquele público que me ouvia lá
nos anos 60, lá nos anos 70, que hoje está
numa faixa de 40 a 50 anos, são empresários,
executivos, que me conheciam, que ouviam
os meus programas, que até iam nos meus
bailes. Um exemplo, Atilho Mazoli Jr, dono
da Manlec, patrocinador do meu programa,
é um cara que me acompanha a muito tempo.
Um cara relativamente jovem. Na Net está
tendo um resgate desse público, sem que
seja um programa completamente elitizado.
Do tipo: Rolou Expointer, eu fui lá e gravei.
Rolou aqui no parque Harmonia a semana Farroupilha,
fui lá e entrevistei o pessoal também. Mas
posso gravar no Sgt. Peppers. Posso gravar
uma entrevista com um médico, enfim, é uma
revista eletrônica de fim-de-semana, com
dicas, sugestões e por aí afora. Aos sábados
das 6 as 7 da tarde, repetindo nos domingos
do 12:00pm a 1:00pm e as terças das 7 as
8 da noite. Sintonia Fina.
Pergunta - E tu
acha que na rádio não há espaço para tu
resgatares esses teus ouvintes antigos da
Continental?
CLÓVIS: Talvez não haja veículo.
E também falta um pouco de tempo. Eu gosto
de rádio, gostaria de voltar a fazer rádio
em Porto Alegre. Mas eu perguntaria a vocês:
Aonde? Qual o veículo? Não existe nenhum
espaço, uma abertura... Talvez até haja,
mas se eu fizer um programa na Gaúcha FM
vou Ter que fazer um programa elitizado,
não me serve. Na Continental FM, tem uma
programação computadorizada, o mesmo na
Antena 1. A PopRock, neste momento, não
tem muito a ver com o trabalho que eu estou
fazendo. Então não encontro um veículo para
viabilizar essa idéia, esse projeto.
Pergunta - Esse
fenômeno do grande público, principalmente
na TV, contigo, foi muito interessante.
Porque no canal 20 muitos programas diferentes
são veiculados. Tem programa policial, tem
programa de medicina, tem o Sintonia Fina,
que é uma revista eletrônica, e o TeleRitmo
tinha uma característica que era muito interessante.
Que ele ficava num horário entre a Marlei
Soares e um programa jornalístico que era
o Flávio Alcaraz, e mesmo assim sem perder
público. Lá tu fazendo o programa,sentia
essa mudança de público de um minuto para
outro?
CLÓVIS: Sentia. Por que? Como
eu disse pra vocês, o sucesso de uma emissora
de televisão depende da programação, da
continuidade. Por exemplo: Se tirar o Jornal
Nacional, derruba as duas novelas. A das
7 e a das 8 da rede Globo. Então tem que
ser uma programação que quando tu queres
desligar um rádio ou uma televisão, alguma
coisa que está chegando não permite. Na
TV Guaíba apresenta um programa para mulheres,
o Palavra de Mulher. Das 4:25 as 6:25. Então
a mulherada toda assiste a Marlei Soares.
Mas quando chega as 6 horas, 6:25, os filhos
desta mulherada toda estão chegando da escola,
pessoal sai 5, 6 horas da escola e iam direto
na Tv Guaíba, no Teleritmo. Sabiam o que
estava acontecendo em termos de música,
etc e tal. Ali já havia uma escada. Primeiro
as mães, depois os filhos. Sete da noite,
os pais estão chegando em casa, e então
iam assistir o Flávio. Porque ele ia falar
em economia, política. Essas alturas os
jovens já estão saindo dessa continuidade
da TV Guaíba. Talvez, porque queiram assistir
a novela das 7 ou então tem outras coisas
a fazer. Então essa escada a meu ver é hiperimportante
numa programação de rádio ou de televisão.
Pergunta - Talvez
isso falte no rádio. Um planejamento da
escala da programação. E isso foi bem construído
pela Guaíba. Hoje eu me dou conta disso.
Na época eu estava mais preocupada vendo
o TeleRitmo. Talvez no rádio falte um pouco
disso
CLÓVIS: Tu pode ver que as emissoras
que tem essa estrutura estão bem. É o caso
da PopRock. Tem programas interessantes.
Um programa ligado no outro. E a programação
da Tv Guaíba na verdade não foi elaborada
pela direção da emissora. A direção se limita
a colocar ou não no ar um programa. Claro
que é preciso que haja uma certa qualidade,
um certo nível. Todos os programas da TV
Guaíba são independentes. Tudo que se vê
ali é produção independente. É tudo. Cenário,
comercialização, produção, tudo por conta
dos apresentadores. Então a Tv Guaíba, com
a saída do Teleritmo, deixando a modéstia
de lado, teve uma certa quebra. Por que
se vem essa seqüência, o pessoal tá ligado,
e as 6:30 tem um buraco. O que é esse buraco?É
um filme, uma sessão pastelão, acaba dispersando
o público, não tenha a menor dúvida. Ainda
mais hoje, com a Tv a cabo disponível, acaba
oportunizando ao público outras opções.
Pergunta
- E será que tem alguma rádio que mantenha
a característica da TV Guaíba de ser independente
em Porto Alegre. A Ipanema se diz independente,
mas...
CLÓVIS: Não. Não é independente.
Ela se diz independente porque talvez ela
não dependa da pressão das gravadoras e
coloque no ar ...eu vejo este perfil da
rádio Ipanema FM independente porque é feito
aqui. É coisa nossa. E os caras parecem
que tem uma certa liberdade para falar,
se expressar, colocar no ar. Não sei, parece
que tem.
Pergunta - Ela
não seria a contraproposta da PopRock? Que
vai bater de frente com a PopRock?
CLÓVIS: Eu acho que a Ipanema FM, com o
advento da PopRock, perdeu muito. Uma parcela
muito grande do público se transferiu para
a PopRock. Não tenha a menor dúvida. Acho
que não chega a bater de frente, não.
Pergunta - Porque
o quadro de locutores da Ipanema era muito
importante. Logo a gente vê a figura do
dj, apresentador, comunicador. Que quando
vai se dispersando, a rádio perde. Foi o
caso da Kátia Suman, do Mauro Borba. Esse
seria o papel do locutor, ser um chamariz
do público?
CLÓVIS: O Rádio, televisão, jornal,
revista...veículos de comunicação, e até
o futebol, é feito de nomes. O público vai
aonde estão os nomes. Hoje a Kátia Suman
está na FM Cultura
Pergunta - E na
PopRock também
CLÓVIS: A Cultura FM é uma rádio hiper-alternativa.
Não tem expressão de audiência, de força.
Não compete com outras emissoras nem é essa
a proposta. Entretanto, a Kátia Suman tá
lá,então o pessoal ouve, não tanto pela
rádio mas pela Kátia Suman. Então ela pode
agregar, transferir e pode trazer um grande
público. O público vai aonde estão os nomes.
Na PopRock o pessoal vai lá para ouvir o
Mauro Borba. Isso é importantíssimo no nosso
meio porque é possível nos tirarem do ar,
por exemplo: Tiraram a Kátia Suman do ar.
Demitiram a Kátia Suman. Mas ninguém vai
tirar o nome dela. O maior patrimônio que
um comunicador tem é o seu nome.
Pergunta - Não
existe mais uma bandeira da rádio. Aquele
pessoal que vestia a camiseta da rádio sim
eles acompanham os apresentadores. É isso?
CLÓVIS: É verdade. O público
acompanha . A Ipanema Fm, por exemplo, há
um projeto, um tititi aí no meio, não sei
se tá oficializado ou não, de que a Ipanema
também poderá perder o espaço ao fazer outra
cadeia de rádio. Não sei se nacional, ou
coisa parecida. É uma perda. Acho que não
é só o pessoal do meio, só os radialistas
que perdem. É o público. No momento que
se perde um veículo que se gosta, que se
curte e que se acompanha, o público com
certeza não gosta dessa proposta. Não vi
ninguém dizer que gostou do que aconteceu
com a Band FM.
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