Parte 2

Pergunta - Como era a relação da Continental com o governo, já que era uma época tão conturbada? Vocês chegaram a ter algum problema com músicas, censura...
CLOVIS - A Continental era uma emissora de vanguarda, e na verdade era muito controlada pelo governo. Era o auge da censura, da ditadura... Eu nunca me envolvi com esse tipo de problema porque eu nunca estive envolvido com política, não é muito a minha praia. A rádio tinha os noticiários, onde sempre dava uma cutucada, uma beliscada... até que um dia, no 1120 Notícia, um redator colocou no ar uma notícia dizendo que havia um cerimonial nos quartéis do Exército e que havia uma troca de comandante... então foi colocada mais ou menos essa expressão: "serão trocadas as latinhas". Isso bastou pra que a rádio fosse censurada, tirada do ar, punida... parece que ficou fora do ar um dia ou dois,o redator teve que prestar depoimento no Dops, um grande rolo...
Pergunta - O que por causa disso não tocava de jeito nenhum?
CLOVIS - Algumas músicas que não tocavam na Continental não tocavam em lugar nenhum, como Chico Buarque. A música "Apesar de Você" é claro que tinha um recado. Esta música era no mínimo evitada...
Pergunta- E a Continental trouxe músicas que nunca tinham sido tocadas no Estado... lançamentos nos EUA e na Europa, trazidos pelo Claudinho Pereira...
CLOVIS - O Claudinho Pereira nunca trabalhou na Continental. Ele era uma espécie de foca, jornalisticamente falando, ele tava sempre ali na boca... ele era o discotecário - o termo DJ não existia ainda, e denominada o comunicador. O Claudinho trabalhava no Encouraçado Butikin, importava muita música, trazia os discos e a gente colocava no ar na rádio. Tinha o agente 1120...
Pergunta- E era uma época difícil de se importar músicas... como a Continental conseguia esses furos?
CLOVIS - O Agente 1120 era na verdade um comandante da Varig, e isso tornava tudo mais fácil... (risos) A rádio ficou inclusive com o perfil de rádio lançadora de músicas.
Pergunta- A Continental valorizava a música de Porto Alegre?
CLOVIS - Esse enfoque na música daqui foi importante. Por exemplo, o Hermes Aquino se tornou conhecido na Rádio Continental com a música Nuvem Passageira, que depois virou tema de novela. Depois houve um movimento... o Júlio Furst lançou o Mr. Lee, que na realidade era um show de grupos e cantores gaúchos.Aí começaram a aparecer Almôndegas, depois Kleiton e Kledir...
Pergunta - E a direção da rádio percebeu que a música urbana de Porto Alegre deveria ser valorizada?
CLOVIS - Percebeu, e mais do que isso, começou a dar uma grande força, a gravar... Esses concertos que aconteciam no Teatro Presidente... e incluíam essas gravações na programação.
Pergunta - O que tu acha que aconteceu com a Continental a partir de 76, com a chegada das FMs?
CLOVIS - As FMs começaram a se definir. Antes só existia o Sistema Itaí de FM, que era uma espécie de Guaíba FM de hoje, com música mais ambiental. No fim dos anos 70, começaram a aparecer as emissoras FM com programação independente. A primeira delas, pelo menos a que causou maior impacto, foi a Cidade. E começou também a haver uma concorrência para a Continental. Aquele público jovem e universitário, AB, começou a ouvir a Cidade e começou a diminuir a audiência e a comercialização da Continental, que já não era mais a única. Aí começou um problema de infra-estrutura, em termos de Ibope, de faturamento... a Rede Globo não gostou da situação, veio a Porto Alegre e começou a interferir na programação, tipo "a partir de agora, vocês terão de tocar um listão com 20 músicas, que terão de tocar de dia, de tarde e de noite", mais ou menos como eles fazem hoje em dia. Eram músicas que não tinham nada a ver com a programação da rádio, e isso começou a interferir. Eu não aceitei essa proposta e saí da rádio, o Marcos Aurélio também saiu, e aí começou a acabar a Continental.
Pergunta - O jabá te desiludiu bastante?
CLOVIS - Era um jabá institucionalizado, o que era pior, e eu me nego a trabalhar nessas condições.
Pergunta - E tu foi pra uma rádio que fazia concorrência direta com a Continental...
CLOVIS - Era a Rádio Pampa AM. A Continental era 1120 e a Pampa, 1200, do lado. A Pampa tentou, durante os anos 70, dividir o público com a Continental. No final dos anos 70, com os problemas da Continental, a Pampa veio com tudo. Eu já havia sido insistentemente convidado para trabalhar com o Otávio Gadrée, o dono da Rede Pampa, nos anos 70. Com os problemas todos, o acordo aconteceu e o Ritmo 20 se transferiu para a Pampa AM.
Pergunta - E daí, o que tu continuou fazendo depois?
CLOVIS - Enquanto isso, o Top Jovem continuava fazendo um grande sucesso, levando um grande público. A essas altura, o Sbroglio parou de fazer os bailes e o Cascalho perdeu um pouco da força que tinha. Com isso, o Top Jovem explodia, tava praticamente sozinho. E agora, na Pampa AM, e com o reforço da TV Pampa nas chamadas, a coisa ficou mais forte ainda. Eu fiquei na Pampa até 1982, quando o Ritmo 20 passou a ser apresentado na Universal FM.
Pergunta - E o Top Jovem tinha uma característica importante, que era levar a festa a cidades da área metropolitana e do Interior, como Montenegro, Novo Hamburgo...
CLOVIS - O limite do Top Jovem era o limite da rádio. Ele só podia chegar onde eu era conhecido. Eu não podia fazer um Top Jovem, por exemplo, em Passo Fundo, Santa Maria... Mas nessa área de 150, 200 quilômetros, incluindo Serra, Hortênsias, Vale do Caí, fiz muitas festas.
Pergunta - E os clubes eram muito importantes...
CLOVIS - A festa era feita somente nos clubes. O Top Jovem tinha um equipamento próprio, uma infra muito grande. Quando chegava o Top Jovem em clubes do Interior, ou mesmo em Porto Alegre e na Grande POA, ninguém ousava fazer festa junto, porque ele monopolizava. Inclusive o Top Jovem fazia uma espécie de peregrinação, ou seja, fazia um baile em Montenegro e ia gente de Porto Alegre, São Leopoldo...
Pergunta - E como era experimentar toda essa idolatria?
CLOVIS - Eu não via como idolatria... era uma festa legal, um encontro do público que me ouvia na rádio e que, de repente, tinha um cara no palco que era o mesmo que tava na rádio. Mas eu nunca usei muito isso, eu apenas me comunicava com o pessoal e usava muito o audiovisual, mas o baile rolava sem maiores estrelismos.
Pergunta - As pessoas se identificavam contigo pela linguagem e tinham curiosidade em conhecer a pessoa que falava na rádio...
CLOVIS - Era uma coisa curiosa, porque o programa que eu fazia na rádio não tinha muito a ver com o Top Jovem. No rádio, eu fazia pesquisa, lançamento, informava... se eu fizesse isso na festa, ia todo mundo embora. (risos) Eu digo que, em festa, o DJ é conhecido pela pista. Quando a pista tá cheia, o DJ é bom. E no baile tem que tocar música que o povo gosta, que o pessoal conhece, que é massacrada. Se tocar lançamento, todo mundo vai embora, deixa pra escutar depois.
Pergunta - E a tua decisão de deixar o rádio pra seguir pra televisão?
CLOVIS - Foi uma cobrança... "todo mundo faz rádio e televisão, por que tu não faz?" Eu confesso que nunca morri de paixões pela TV, mas eu já fazia a Universal, apresentando o Ritmo 20 das 20h à meia-noite, de segundas a sábados. A TV Pampa tava ali, eu fazia as chamadas pro Top Jovem na TV... aliás, essas chamadas tiveram uma origem curiosa... eu comecei o programa na Universal em janeiro de 82 e em seguida ele explodiu, primeiro lugar no Ibope.... e o Pedrinho Sirotsky, que sempre teve um bom relacionamento comigo, e que na época dirigia a Atlântida FM, se interessou muito pelo esquema e queria de qualquer jeito levar o Ritmo 20 pra RBS. Ele conversou comigo, negociou, e a Rede Pampa cobriu todas as propostas, inclusive colocando à disposição 10 chamadas diárias pro Top Jovem na TV, incluindo as chamadas da Rádio Universal. Daí ficou imbatível. Se o Pedrinho tivesse colocado os mesmo termos, eu teria ido pra RBS, mas isso era impossível.
Pergunta - Bom, de alguma maneira, tu continua envolvido com rádio. Tu tem o teu programa na Rota do Sol...
CLOVIS - É, eu tenho um programa na Rota do Sol FM, com o Top Music, na 103.9, aos sábados, das nove e meia à meia noite, e durante a semana às 11h55 da manhã. O Top Music é uma continuação do Ritmo 20. Mas vocês tinham perguntado sobre como tinha surgido a televisão. Eu fiquei na Universal até o fim dos anos 80. Eu já não queria a continuidade do Ritmo 20 na Universal porque não gosto de coisas muito antigas. Em comunicação, pra mim elas defasam, envelhecem... eu queria colocar outro nome no programa, até mesmo o meu nome. Os meus programas sempre tiveram uma característica: eu sempre fui mais conhecido do que os próprios programas. Eu sou um produto, uma marca que sempre teve mais repercussão. Então, como eu queria mudar, acabei levando o Tele Ritmo para a TV Guaíba. Isso em 1990. O Tele Ritmo era o Ritmo 20 na televisão, agora com imagem, com linguagem televisiva.
Pergunta - Com isso tu passou a gostar mais de televisão?
CLOVIS - Eu continuei gostando mais de rádio. Eu sou um homem de rádio, eu tenho que assumir isso. Gosto da televisão, acho ela surpreendente, por exemplo, o que a TV Guaíba me deu pelo Tele Ritmo entre 1990 e 99 supera o que o rádio me retornou. O que a televisão te dá em uma semana, o rádio te dá em seis meses.
Pergunta - Até porque o teu programa tinha um alcance maior, pegava na praia durante o verão, o pessoal mandava carta, o público telefonava, pedia clipe...
CLOVIS - Quando eu fui pra TV Guaíba, houve um problema parecido com o Ritmo 20 na Continental. O Tele Ritmo ia ao ar à uma e meia da tarde, porque não havia outro horário. Naquele momento, a TV Guaíba negociava com a MTV, que tava pra entrar no ar. Havia a possibilidade da TV Guaíba retransmitir a MTV, o que seria muito ruim pra mim, eu não teria a menor chance. Essa negociação não aconteceu, o Tele Ritmo entrou no ar e ficou pouquíssimo tempo nesse horário. Depois, eu consegui o horário que eu queria, das 6h25 à sete da tarde. O que eu queria na verdade era lançar na televisão o que não havia até então. Um programa que falasse de música aqui no RS, sem que tivesse que ser obrigatoriamente com músicas do Rio Grande do Sul, mas também.
Então eu percebia que havia nesse segmento um vazio muito grande. Programas de rádio, programas daqui e dali, mas de televisão um programa que atendesse através de cartas e outros sistemas o que o público estava querendo. Que mostrasse clips, que entrevistasse artistas. E então rolou a idéia de se colocar no ar o Teleritmo, as 6:25 da tarde. Por que as 6:25 da tarde? Esse horário eu exigi na TV Guaíba. Eu fiz esse horário. Esse horário não havia. 6:25 da tarde é um horário de trânsito. Quem estuda a tarde tá chegando da escola. Quem estuda a noite não saiu ainda . Eu tô perdendo o público que trabalha de tarde, que trabalha de noite. Mas esse é um outro público. O público a que eu estou me referindo aqui são estudantes, que era o forte do meu programa. O público que estudava de manhã poderia me ver tranqüilamente, e não deu outra. Deu uma intensa repercussão o Teleritmo, a ponto de se tornar o programa mais visto da TV Guaíba. Não por estatística minha, mas do IBOPE. Era o programa de maior audiência da TV Guaíba.
Pergunta - É importante ressaltar que não tinha TV a cabo na época, só TV aberta. E até hoje eu acho que ficou pra nós uma idéia de que o TeleRitmo era o único programa a falar de música na TV aberta local. Até surgir a MTV, com o UHF, só o Teleritmo falava de música.
CLOVIS: Muito depois a TVE lançou o Radar. Mas o Radar entrou no ar inspirado no sucesso do TeleRitmo. Tanto é que o radar entrou no ar as 6:30, junto com o TeleRitmo, mas não deu certo porque àquela altura o Teleritmo já tinha um poder de fogo muito grande. Então ele acabou ofuscando o Radar.
Pergunta -É que o Radar também tinha notícias, tinha outras coisas e o TeleRitmo fincava na música.
CLOVIS: O Radar era um programa e continua sendo, mais underground. Mais alternativo. Eu nunca tive nada contra, mas também nada muito a favor. Nunca gostei de segmentar meus programas de rádio e televisão, do tipo: "Vou fazer um programa de Rock!" Com exceção de Beatles. A única exceção foi Beatles. Mas daí era um programa específico. "Vou fazer um programa de rock, ou de reggae, ou de rap, ou de samba". Vai tocar tudo isso, e de tudo um pouco. Nunca gostei de radicalizar nesses segmentos de comunicação, porque acho que isso limita o público. Tu vai acabar falando para meia dúzia.
Pergunta - Que que tu achas da FM de hoje, Clóvis?
CLOVIS: A FM de Hoje, pro meu gosto, está muito mal e muito perdida. Eu não encontro, em relação por exemplo com os anos 80, sem querer ser saudosista, eu não encontro uma programação agradável de FM. Por exemplo: A Rádio Cidade, era a rádio xodó dos anos 80. Todo mundo ouvia a rádio cidade. Se tinha um carinho especial pela rádio Cidade. De repente, mudou a programação. O Niederauer, que era o coordenador da rádio cidade saiu, não sei o que aconteceu.. A busca, a fúria, o desespero pelo primeiro lugar no Ibope faz com que muitas concessões sejam colocadas no ar e ela perdeu. Ela perdeu. A verdade é que a rádio cidade perdeu aquele brilho. No meu entender, o que está se fazendo de bom hoje, ao menos no segmento jovem, em FM, em Porto Alegre, é a PopRock. Esta realmente tem uma programação autêntica, de personalidade, de força e tá mandando.
Tanto isso é verdade que ela tá mandando. O resto ficou muito dependente da comercialização. Quer dizer: Tem que tocar música de gosto duvidoso porque é isso que o público quer, e não sei o que mais. Há um outro item importante. Algumas emissoras começaram a transmitir via satélite, o que eu acho uma coisa muito ruim. Por exemplo: A rádio Universal praticamente perdeu o seu nome e o seu canal para a Jovem Pan. Hoje a Jovem Pan atua em cima da freqüência da rádio Universal. A antena Um, que é uma rádio de bom gosto, ao menos no meu entender, também transmite em cadeia. É outro espaço que é usado via satélite.
A Transamérica tentou, mas a Transamérica é muito ruim. Mas é muito ruim mesmo, por isso não deu nada. Eu acho que o rádio hoje em dia, o FM em Porto Alegre, em relação aos anos 80, carece muito. De repente se espera, se imagina, que alguma coisa ainda possa acontecer.
Pergunta -Tu não acha que essas rádios Via Satélite massificam demais o público? Tu estás jogando um produto para um público muito grande que tu já não tens idéia qual é e tu não conheces mais. Joga um produto para o Brasil e vai ver a repercussão depois.
CLOVIS: Além disso elas geram desemprego. São geradoras de desemprego. Porque para o empresário é muito mais fácil conectar um plug e entrar em cadeia direto. Hoje em dia um computador faz a programação numa rádio. Um computador sozinho rege a programação de uma rádio. O que é o caso da Jovem Pan, da rádio Continental FM, que não tem nada a ver com a programação da rádio Continental AM dos anos 70. Essas rádios trabalham computadorizadas. A antena Um é a mesma coisa. Aliás, esta é infelizmente uma tendência. Daqui a pouco todas as rádios vão estar atuando no sistema computadorizado. Agora uma coisa curiosa. As emissoras que tem programação ao vivo são as mais ouvidas. A rádio Cidade, com altos e baixos, primeiro lugar no Ibope. "A rádio mais ouvida". A rádio Eldorado FM parece que é o segundo lugar no Ibope, ou coisa parecida. A rádio 104 FM, programação ao vivo. A Rádio Alegria, programação ao vivo. A PopRock, olha só, o segmento da PopRock é imbatível. No target a PopRock é a mais ouvida. Programação ao vivo. Significa que o público prefere muito mais a programação ao vivo por causa do calor, da emoção, do sabor de estar informando o que está acontecendo na hora. Até em termos regionais do que a programação via satélite. O mesmo acontece no AM. Qual é a rádio mais ouvida no segmento AM? É a Gaúcha. Programação ao vivo. Qual é a outra rádio mais ouvida? Rádio Farroupilha. No segmento AM, a Farroupilha tem mais audiência que a rádio Gaúcha, mas em outro segmento. No segmento jornalístico, a coisa é assim: Rádio Gaúcha AM, Rádio Guaíba AM. Todas com programação ao vivo. Em resumo: O público quer a programação ao vivo.

Site melhor visualizado com Internet Explorer 5 ou superior
Todos os direitos reservados © 2001-
MúsicaTri - Expediente