Pergunta
- Clóvis, quando e por que você
começou a trabalhar em rádio?
CLÓVIS - Comecei a trabalhar em rádio
aos 13 anos de idade, eram anos 60, e
eu trabalhei... foi uma coisa engraçada,
que eu tinha um emprego de office-boy
na Galeria do Rosário, e na Galeria do
Rosário, no 21º andar, estava o estúdio
da Rádio Princesa. Daí eu comecei a fazer
amizade com o pessoal e de repente fui
parar lá e comecei a trabalhar de operador,
aos 13 anos.
Pergunta
- Como era a tua função como operador,
tu fazia, produzia os sons dos efeitos
dos programas, diziam que tinha muitas
novelas no rádio e tal, o pessoal produzia
o som...
CLOVIS - Fazia, fazia... o operador ficava
literalmente, como é até hoje, com a rádio
nas mãos, só que hoje o esquema é mais
executivo, quer dizer, o próprio comunicador
tá operando a emissora. Mas ainda existem
algumas emissoras, como a Rádio Gaúcha
FM, como a Atlântida FM - a Atlântida
parece que não, a Gaúcha FM, sim - têm
operadores. Então, a minha função era
controlar o som, fazer sonoplastia para
programas específicos, como novelas -
sonoplastia são efeitos especiais. Era
essa a minha função já com 13 anos.
Pergunta
- Depois tu seguiu pra São Paulo, então
começou a engrenar a tua carreira...
CLOVIS - Eu fui pra São Paulo, onde trabalhei
na Rádio Eldorado, que era uma emissora,
e continua sendo uma emissora poderosa,
pertencente ao grupo O Estado de S. Paulo.
Na Eldorado, eu trabalhei na Eldorado
FM, que nos anos 60 foi a primeira emissora
a colocar a programação de FM individual,
separada do AM no ar. O FM, até então,
era só usado para transpor o som do estúdio
para o transmissor, assim purificar o
som. Não havia receptores de FM, na época
apenas a Telefunken fabricava um aparelho
chamado Fremo, e assim se sintonizava
a Eldorado de São Paulo.
Pergunta
- Fremo, de freqüência...
CLOVIS - ... modulada.
Pergunta
- E depois deixou São Paulo, voltou pra
Porto Alegre e seguiu com a tua carreira
de radialista.
CLOVIS - Voltei pra Porto Alegre, eram
anos 60, e eu queria ser apresentador.
Já tinha sido operador de áudio, trabalhei
numa central técnica muito forte, muito
poderosa em São Paulo, na Eldorado. Tinha
sido programador musical e me faltava
chegar na frente do microfone. Então eu
lancei na Rádio Porto Alegre um programa
chamado Discoteca de Brotos, que ia ao
ar à uma e meia da tarde. Era o auge da
Jovem Guarda, e a Discoteca de Brotos
tocava, naturalmente, músicas da Jovem
Guarda e tava chegando a beatlemania e
aí começava então a carreira como apresentador.
Pergunta
- O que te fez seguir adiante, deixar
a Rádio Porto Alegre e seguir para a Continental,
com uma outra proposta, de outro programa?
CLOVIS
- A Rádio Porto Alegre era uma emissora
de 1kW, que estava lá em 1370kHz. Uma
emissora escondidinha, mas de boa repercussão,
de boa audiência. A Continental, perto
da Rádio Porto Alegre, era uma emissora
poderosa, tinha 10kW e tinha um som muito
bonito, era muito ouvida. Eu tinha uma
proposta, tinha um plano de trabalhar
na Rádio Continental, até que surgiu uma
proposta em função do programa que eu
fazia na Rádio Porto Alegre, chamado Tributo
aos Beatles, que repercutiu muito, ia
ao ar nos domingos, às onze da manhã.
Começou a chamar a atenção da Rádio Continental,
e aí rolou então a proposta quando entrou
no ar o Ritmo 20, em 18 de setembro de
1969.
Pergunta
- E quando tu foste pra Continental, ela
tinha um perfil definido, só dela, ou
não? O que ela tocava? O que ela tinha?
CLOVIS
- A Continental, como todas as emissoras
de rádio da época, seguiam uma espécie
de um padrão conservador. Do tipo tangos,
boleros, Nelson Ned, Moacir Franco, Roberto
Carlos, e olhe lá... e eu cheguei com
uma proposta de vanguarda. Eu queria tocar
Donovan, Janis Joplin, Caetano, Maria
Bethania... e é claro que foi um rebuliço,
foi um impacto na programação da Rádio
Continental. Eu não consegui colocar o
meu programa à noite, tinha que colocá-lo
de manhã, entrou no ar das dez às onze
da manhã.
Pergunta
- E qual era o perfil das outras rádios?
Também seguiam mais ou menos essa linha
da Continental de Nelson Ned, Moacir Franco
e por isso o teu programa foi tão cheio
de impacto?
CLOVIS
- Foi... As outras rádios seguiam, era
um padrão, tinha que tocar isso porque
senão não dava Ibope, ou coisa parecida...
não havia na verdade nada de vanguarda.
Eu sempre me preocupei muito em informar,
meus programas sempre tiveram muita pesquisa,
muita informação. Então era essa tônica
que eu queria trazer pro rádio, mudar
um pouco o perfil do rádio. Era final
dos anos 60, uma série de coisas estava
acontecendo. Era o Festival de Woodstock,
que tinha acontecido em agosto... eu coloquei
no ar o festival, o pessoal ficou meio
preocupado, "que que é isso?"... os Beatles
estavam em final de carreira... eu tinha
muita matéria, muito assunto pra rolar
no Ritmo 20.
Pergunta
- E pautou mais ou menos o resto das rádios
até hoje, né? Porque é agora o padrão
da rádio FM, informar e tocar música,
pra jovens ou público em geral... esse
molde da Continental até hoje...
CLOVIS
- Até hoje permanece. A Continental, na
verdade, virou uma rádio-escola. A Continental,
nesta primeira fase, quando o Ritmo 20
chegou, em 1969, sofreu uma espécie de
uma mutação, porque era só o Ritmo 20
que tinha essa proposta. E o sucesso de
uma programação de rádio ou de televisão
nunca se credita a um programa, e sim
a uma programação. É preciso que haja
um contexto, que haja um todo. Quando
chegou o ano de 70, a Continental sofreu
uma mudança de direção. Assumiu a direção
um pessoal que tava vindo da Rádio Guaíba,
Marcos Aurélio Vezendon, Fernando Westphalen,
que era um publicitário da MPM, e também
Luís Eduardo Moreira, que assumiu a direção
comercial. A nova proposta era fazer uma
rádio moderna, jovem, nos moldes da Rádio
Mundial do Rio, porque a Continental era
da Rede Globo de Rádio. Foi feita uma
espécie de limpeza na programação, o Ritmo
20 permaneceu, daí eu pude passar o meu
programa pra noite... antes disso, ele
já tinha duas apresentações, uma pela
manhã e outra às cinco da tarde. Então
concentramos exatamente na proposta inicial.
O Ritmo 20 entrou às oito e meia da noite
e mudou toda a programação da Continental.
Aí começou a atrair um público mais jovem,
mais universitário. Entrou o Cascalho,
às seis da tarde... enfim, a partir daí,
mudou tudo. Foi uma programação tão forte,
tão vigorosa, que ela serve realmente
de espelho para algumas rádios até hoje.
A Continental foi, nos anos 70, deixando
a modéstia de lado, uma espécie de escola
Pergunta-
E foi nessa época que a Continental foi
denominada a "rádio da magrinhagem"? De
onde veio isso?
CLOVIS
- Era a rádio da magrinhagem porque era
a mais ouvida do público jovem, universitários
e por aí afora. E ser magrinho, nos anos
70, era uma bandeira. O Cascalho lançou
o Baile dos Magrinhos, o Fernando Sbroglio,
hoje dono da Fox Veículos, lançou o Baile
da Pesada... porque o Fernando Sbroglio
era um cara gordo, era o "gordo Sbroglio"...
(risos) O Baile da Pesada surgiu pra fazer
frente ao dos Magrinhos. No mesmo tempo,
eu fui muito pressionado pra fazer uma
festa também... "pô, todo mundo tá fazendo
festa, e tu não tá..." então entrou o
Top Jovem, que também era feito em clubes,
só que eu comecei a explorar o lado visual.
Comecei a botar telão, filmes, clipes...
enfim, a festa ficou muito visual, ficou
diferenciada das outras.
Pergunta
- Tu tinhas liberdade de fazer qualquer
coisa no programa? Porque, pelo visto,
não foi a Continental que mudou o Ritmo
20, e sim o Ritmo 20 que pautou a Continental,
que mudou a programação...
CLOVIS
- Tudo começou pelo Ritmo 20. Eu sempre
exigi liberdade. Ou me dão liberdade de
produção, de trabalho, ou então eu não
faço. Por exemplo, na Rádio Continental,
nessa nova fase, nos anos 70, algumas
música, alguns cantores eram proibitivos
(sic), do tipo Roberto Carlos. Roberto
Carlos não tocava na programação porque
não tinha nada a ver com o que eles tavam
querendo, só que eu continuei tocando
Roberto Carlos. Ele gravou vinheta pra
mim... o Ritmo 20 não era um programa
que conspirava contra a programação da
Continental, mas ele mantinha seu estilo,
sua personalidade.
Pergunta
- Vocês, no caso o teu programa, inovaram
a linguagem, usando gírias, vinhetas...
como era isso?
CLOVIS
- A linguagem jornalística foi usada na
programação mais direta da rádio. No meu
programa, muita coisa não foi alterada,
porque eu sempre tive um estilo de comunicação
meio conservador, eu nunca fui um cara
estereotipado. Nunca usei pseudônimo,
eu sempre fui eu. Nunca tive apelido,
até porque eu acho que isso não permanece.
Ao menos, a mim, não agrada, não faz meu
estilo. Porque os personagens são passageiros,
e os nomes próprios tendem a permanecer.
Na televisão norte-americana, por exemplo,
é o segmento mais conservador do mundo.
E quem faz telejornalismo nos EUA são
locutores tradicionais, com no mínimo
50 anos de idade. NA Grã-Bretanha e na
Europa é a mesma coisa. O Ritmo 20, por
exemplo, nasceu inspirado em um programa
levado ao ar na Rádio BBC de Londres,
o Ritmo 69, apresentado pelo Miguel Carlos,
que fazia um programa jovem, mas era uma
cara que tinha uns 40, 50 anos, e deu
muito certo. O Ritmo 20, assim como todos
os meus programas, teve um estilo não
conservador, mas discreto.
Pergunta
- E as vinhetas, foi tu que trouxe pro
Rio Grande do Sul?
CLOVIS
- Fui eu que trouxe. Eu entrevistava muitos
artistas... eles iam na rádio, nos meus
programas, e eu achei que poderia aproveitá-los.
Eram vinhetas que identificavam o programa
e que eu usava às vezes no meio da música,
às vezes durante o break comercial...
depois outras emissoras começaram a fazer
também.
Pergunta
- Hoje em dia é muito normal, a maioria
das FMS usa...
CLOVIS - Isso é uma coisa curiosa. As
vinhetas funcionam em rádio, mas não em
televisão, eu acho, pelo menos. O Serginho
Groisman, no Programa Livre, usava as
vinhetas. No meu entender, não funciona.
Não sei se por causa do visual, no rádio
parece que dámais impacto ouvir um ídolo
falando, parece que você fica imaginando,
e na Tv já tá ali, não há mais nada pra
ver.