Este é um texto enorme, cheio de informações supérfluas a respeito de um monte de coisas. Provavelmente, também é muito longo para a internet. E cheio de opiniões particulares e lembranças pessoais.

Por Angela Joenck Pinto

Prólogo
É uma volta filosófica muito complexa, porém espero que vocês me acompanhem. Eu, Angela, cresci no bairro Auxiliadora. Pra muita gente, a afirmação não quer dizer nada. Mas quem é das redondezas sabe que o morador do Auxiliadora é diferente dos seus vizinhos do Moinhos de Vento e do Mon’t Serrat. Somos, digamos assim, um primo pobre. Aquele “sou pobre, mas limpinho”, honesto, trabalhador...mas definitivamente mais pobre que os outros dois. Essa coisa de estar cercado por todos os lados, encravado em um mundo diferente do seu, gera uma crise de identidade. Ao mesmo tempo que tu transita em vários ambientes, parece que a qualquer momento teu pé vai “sair da lama” e as coisas vão se encaminhar pro Moinhos de Vento. Mas por algum motivo, isso nunca acontece. E o ponto alto do ano acaba sendo aquela cartinha do João Dib de “Feliz Natal”.
Rápida viagem no tempo para o fim dos anos 80. Por uma dessas coisas da vida, eu morava em um apartamento imediatamente acima do de uma moça chamada Marília. Ela era irmã do Frank Jorge (e ainda é!). Quando se está entrando na adolescência, músicos são uma parte importante da tua existência. Eles te dão identidade. Pra mim, os Cascaveletes eram expoentes do rock. E eu, perdida no bairro Auxiliadora, era a privilegiada de ver Frank Jorge, ídolo, volta e meia entrando ou saindo da casa da irmã. Do meu prédio! E ela tinha um pôster dos Cascaveletes na sala de casa, gigantesco, coisa que os meus pais jamais teriam (por mais compreensíveis e beatlemaníacos que fossem).
Essas e várias outras coisas criaram uma relação muito estreita entre o trabalho dele e a minha coleção de discos, fitas e CDs.
Essa coisa de ser jornalista da área musical me aproximou mais ainda das coisas que ele faz. Sempre fui muito grata por ele ter topado tocar na primeira festa do MusicaTri, onde tivemos um line-up fantástico. Sempre teve paciência para as entrevistas quilométricas do site e atende os profissionais com muita presteza. E isso não é muito fácil de encontrar. Pasme que aquele clichê do artista “cheio de si” ainda existe. E quando tu não tens que tratar com ele, é com o empresário, com a agência, com o produtor ou com a gravadora. O trabalho fica bem mais difícil e normalmente não sai tão bom.

Dito isso, fiquei feliz quando em agosto ele nos disse que o novo disco estaria nas lojas em setembro. O tempo passou, e durante uma dessas olhadas casuais nos lançamentos, me deparei com um CD que tinha uma mulher muito parecida com aquela minha vizinha. Tava lá: Frank Jorge – Vida de verdade. Levei pra casa.

Agora começa o review

Frank Jorge – Vida de Verdade – 12 faixas. Lançamento YB Music

Este é o segundo disco solo de Frank. Do mesmo nível de Carteira Nacional de Apaixonado, só que mais complexo e talvez não tão fácil de se gostar imediatamente. Leva uns dias pra absorver as informações de Vida de Verdade. Ele difere do primeiro disco também na ênfase dada para alguns instrumentos. Os teclados que antes eram destaque, agora dão

lugar para os instrumentos de sopro. A sonoridade evoluiu. Se Carteira N.. era quase um documento de época da Jovem Guarda, Vida de Verdade é o que poderíamos chamar de Pet Peppers. É como aquele disco do Splitsville, que se chama Pet Soul. A diferença é que eles fizeram de propósito, para soar como uma mistura de Beach Boys com os Beatles. Frank faz isso involuntariamente usando suas referências pessoais.
E referências pessoais não faltam neste CD. A começar pela capa, que mostra os pais dele (e da minha ex-vizinha, duh) dançando em um daqueles bailes bacanas de antigamente. A arte lembra um pouco as capas do grupo Belle and Sebastian, mas felizmente as semelhanças com os escoceses acabam aí.

As faixas:
1 – Você não é tão legal – A levada beatle na guitarra abre o disco. George Harrison está sorrindo em algum lugar. E vamos combinar que começar a primeira faixa do seu CD com a frase “Você não é tão legal quanto você pensa” é muito bom. Da primeira vez que ouvi, me lembrei imediatamente daquele pessoal que freqüenta a área da esquina da República com a João Alfredo.

2 – Vida de Verdade – Mais calma que a anterior. E ela poderia ter sido composta por Paul McCartney no início de 66. O arranjo de sopros tem um “quê” de Penny Lane. Participação de Pedro Veríssimo, da Tom Bloch.

3 – Já me Cansei – Um cara que quer uma namorada que não está lá. Wilson Picco usa com força as baquetas e o arranjo de sopros é do Frank.

4 – Concurso Literário – Vindo de Frank, um “escritor” formado em Letras, essa música vem carregada de humor. Dessa vez, os sopros tem uma levada que lembra Dexy’s Midnight Runners em Gino.

5 – Quando aconteceu – Balada com cordas e um violão bem escolhido, no lugar certo. A letra “se você me der a chance a gente pode ser feliz/ se encontrar naquela praça em frente ao chafariz”. A vida parece mesmo ser feita de coisas singelas...

6 – Feira na Infância – Olha as referências pessoais aí. Being For the Benefit of Mister Kite misturado com Penny Lane e lembranças da infância. Saudades do Inter do Elias Figueroa e do Falcão: o meu time era sempre campeão.

7 – Canção Antiga – música bem marcada, cordas bonitas, mas uma flauta que aparece mais do que deveria.

8 – Llamas - Até a entrada do teclado, lembra muito Metal contra as Nuvens, da Legião Urbana. Estranho. A faixa tem a participação de Fernanda Takai e John do Pato Fu, que retribuem nesta gravação o sucesso e o $$ arrecadado pelas regravações das músicas da Graforréia. O teclado faz voltar o

clima bailinho, que continua em....

9 – Novo dia – Com certeza uma das melhores do CD! Essa música tem gosto de Cuba Libre e Ponche, além de cara de baile na Reitoria da UFRGS. Pensando bem, na hora que a foto da capa foi tirada, uma música muito parecida devia estar tocando. Fernanda Takai faz um backing vocal correto. Deveria levar a experiência a cabo e permanecer nesta posição.

10 – Você vai gostar de novo de viver – A guitarra mais alta acaba com clima da música anterior. All You Need is Love e uma mensagem otimista. Balada mais séria, na medida do possível.

11 – Falando da Chuva - Tralálálás e Beach Boys: “talvez um dia você vai ficar sozinha/No meio da chuva com uma sombrinha”.

12 – Surf Rock – Instrumental. O título já se explica. Beach Boys, Troggs e Zombies. Daquelas músicas que dá vontade de ouvir no carro. Mas tão rápido como começa, já acaba. E aí é hora de dar play no disco

novamente.


Epílogo
Com uma produção tão boa, arranjos do Marcelo Camelo (Los Hermanos) em 3 faixas e (tomara) uma distribuição digna do CD, Frank Jorge vai sair do bairro Auxiliadora e pode se tornar um feliz morador do Moinhos de Vento em breve. Vai ser bom pra ele. Ele já conhece o Auxiliadora bem o bastante e tem referências suficientes pra não se perder, caso precise achar o caminho de casa um dia. E vai ser bom pra nós, porque alguém tem que nos representar lá pros lados do primo rico. De preferência vestindo abrigo na Padre Chagas.
O nome do músico está sendo cogitado para o Festival Upload, em São Paulo, onde a repercussão do disco novo no centro do país deverá começar. Confira mais lançamentos da YB no site http://www.yb.com.br.

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