NEI VAN SÓRIA NO ABBEY ROAD PUB - 14/08/2003
NOITE FELIZ

Por Eduardo da Camino
Sim, o homem estava feliz feito pinto no lixo. Nei Van Sória só não sorriu mais porque faltou dente durante o show de lançamento de "O Dia Mais Feliz da Minha Vida" (leia resenha em [link]), 4º disco solo do ex-TNT e Cascavelletes.

O Abbey Road diz que parece um certo estúdio, mas os três níveis de altura da platéia - boca do palco, área do balcão e mezanino - dão um clima de teatro ao boteco chique. A média de idade das (+ou-) 500 pessoas presentes era indeterminável. Algumas famílias com filhos adolescentes, gurizada, maiores de 50. Mas despontavam muitos na pequena faixa dos 30-35. Antigos fãs do TNT agora gordos e ricos? Bem, o rock no Brasil é fenômeno de classe média.

22 horas e 45 minutos. Britânicos 15 minutos de "atraso" e o cara aparece. "Vamo começar entregando o ouro pro bandido?", diz já rindo, e abre as portas viajandonas do "Jardim Inglês". E a Telecaster de Luciano Albo arrepia até surdo no solo. Que timbre! E "Susie" segue nesse embalo.

A guitarra de Nei põe texturas na estrofe de "Um Dia", mostrando cancha pra palhetar a harmonia e cantar. Como se não bastasse, Nei sola numa pegada absolutamente hard rock (no melhor sentido).

"Os anjos não pensam como nós", diz a letra de "Os Anjos". Mas bem que eles podiam tocar violão assim. Pena que faltou volume pra ouvir o Albo. Primeira música nota 11 do show. A bela harmonia do baixo poderia impor mais peso a todo o arranjo, mas a levada funciona horrores. As mãos direitas, de Nei e do baixista Juliano Pereira, comandam a melodia. Lá no meio da música, os backing vocals foram chamar a voz principal e não se ouviu nada. Faltou volume. Rateada da mesa de som, logo corrigida.

Finalmente, mais de 5 segundos pra respirar. Nei brinca: "Sabem que eu tô lançando disco novo hoje, né?". Com a inconfundível Les Paul prata brilhante, ele manda a faixa-título. E permanecer sentado se torna uma tarefa ingrata. Este é o primeiro refrão perfeito da noite. Porque são perfeitos? Pegam na hora. Nei faz "cama" com a melodia da voz, ou seja, coloca-a como se fose um tema de teclado ao fundo, alongando as notas abertas enquanto põe a guitarra embaixo. Será que compõe os vocais no piano?

E é pra lá que ele vai em seguida, de onde manda "Chove em POA" e "Bons Amigos". A primeira é uma levada simples, carregada pelo piano e pela bateria forte de Cristiano Bertolucci. Já na outra, em certo momento Nei suja a voz numa nota alta e, junto com a marcação do piano, faz lembrar Paul McCartney. No 3º refrão, ele corre pro violão, o que é uma pena, porque a harmonia do final pedia guitarra e violão dando os acordes cheios E o piano na base. Ia ficar muito (mais) legal.

Veio de novo a vontade de levantar (Ah, mesas e cadeiras em show de rock! Enfim...) com a levada da cozinha em "Foto de Buda". E "Você e Eu" é uma música absolutamente injustiçada por não ter tocado 10 vezes por dia nas FMs desta cidade. Outra coisa: ouça "O Tempo" de olhos fechados. Intensifica o prazer.
"Eu Vou Ficar" (mais uma com refrão perfeito) e "Isso Inclui Você" fecharam o set list. Bis? Só "Sob Um Céu De Blues". Tá certo o velho Nei: nostalgia só em doses homeopáticas, que o futuro às bancas de jornal pertence.

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