Ah! Eu sou gaúcho!
Esta é a matéria sobre o segundo dia do Festival Upload, que contou com a presença de várias bandas gaúchas. Agradecimentos especiais a Alexandre Petillo, por autorizar a veiculação do texto no site Musicatri

Por Alexandre Petillo - publicado no e-zine Scream and Yell

Casa cheia, expectativa nas alturas. Sábado, grande dia, a maior atração do festival ia se apresentar: o tal (único) retorno da lendária Graforréia Xilarmônica. A banda que moldou todo o conceito do rock brasileiro do fim dos anos 90, iria voltar a tocar junta, especialmente para o Upload.

Não se falava muito mais além disso. E muita gente assistiu as primeiras bandas apenas para passar o tempo, esperando os gaúchos. Uma emissora de TV de Porto Alegre registrava o evento histórico, acompanhando-os desde o hotel. Graças a um churrasco na casa da Bidê Ou Balde e da tentação de assistir a um capítulo de "Casa Dos Artistas" (o melhor programa da história da TV brasileira), acabei perdendo a primeira banda (Brau, do Rio de Janeiro, escalada nas últimas horas) e só peguei o final do show dos camaradas do Blemish. Sempre competente, o quarteto de São José vem melhorando a cada show e pelas músicas novas, promete lançar um disco em tanto. Confesso que fiquei um pouco assustado com as declarações do guitarrista Daniel, que ficou na minha casa, poucas horas antes do show: "Tenho gostado bastante do Sigur Rós e O Cordel do Fogo Encantado é uma influência no nosso som" e "Acho que vamos tocar umas 4 músicas em 40 minutos...". Ojeriza adquirida no show dos supracitados islandeses no Free Jazz começou a me atacar, mas graças aos deuses da música, não se confirmou no Upload. E eles ainda tocaram o hit "Silverbox Song" que não estava no set list. Valeu.

Em seguida veio a Pelvs, ícone do rock indie brasileiro. Acabei me empolgando em uma conversa com amigos do lado de fora do teatro (ah, os dois últimos dias do festival foram no teatro do Sesc Pompéia. Horrível. Som péssimo e só dá para ver as bandas de lado) e perdi. Nunca fui fã da banda, e não me sinto mal por isso. Mas foi um show curtíssimo e passou quase batido. Em seguida veio um dos melhores shows do festival: os gaúchos do Wonkavision. Grata surpresa. Não que eu duvidasse do potencial da banda, sou fã dos caras e fiz questão de distribuir a ótima demo do grupo por aqui, mas estão cada vez mais maduros e competentes no palco. O vocalista e guitarrista Will, que segundo o meu irmão gaúcho, André "Cardoso" Czarnobai, é "o começo de uma cadeia evolutiva que termina no vocalista da Autoramas, Gabriel. O elo perdido entre os dois é o Alexandre Petillo (...)", mostrou-se um excelente frontman. Aproveitei para falar dessa história de elo perdido com o Gabriel e resolvemos montar uma banda, nós três, uma coisa meio Hanson. Aguardem.

Canções pop perfeitas como "A Garota Mais" e "O Plano Mudou" conquistaram a platéia. O Wonkavision já deveria estar tocando no rádio o tempo todo. Outro momento altíssimo da noite aconteceu quando a baixista, musa e miss simpatia Grazi deixou seu instrumento de lado e cantou uma versão bacaníssima da linda "Be My Baby", com um vestidinho vermelho fantástico. "Eu sabia que a Grazi cantando 'Be My Baby' tinha o seu apelo", disse Will depois do show. Canalha!

Grenade, de Londrina, em seguida. Com o ótimo "Out Of Body Experience", a banda desfilou belas canções na noite paulistana. O Grenade é outro que merece o já batidíssimo clichê: se tivessem nascido em Londres seriam uma das maiores bandas do mundo. Acho que não precisa dizer muito mais.

Com a responsa de abrir para um dos seus maiores conterrâneos, veio a Vídeo Hits. Estava com um ponta de ressentimento com o show da banda no Orbital. Como eu descobri que do alto do teatro, o vocal poderia ser ouvido, fiquei em um dos primeiros degraus. Show quase perfeito, com as backing cantando bem, com todos os integrantes tocando com tesão. O vocalista Diego Medina as vezes exagera demais no gritos, mas "Sentido Anti-Horário", "Cozinha Oriental", "O Basset Azul", e "Vo(c)" são excelentes canções pop. Divertem.

E, para encerrar, a Graforréia Xilarmônica. Formada em meados dos anos 80 por Marcelo Birck, Carlo Pianta, Alexandre Ograndi e Frank Jorge, a banda se dissolveu em 96 porque estava com o saco cheio de ser queridinha de poucos quando na verdade mereciam ser ídolos das multidões. A volta foi apenas para o Upload, dando oportunidade para o público paulista de ver ao vivo um dos maiores nomes do rock independente. Fizeram tudo que não prometeram: tocaram os hits, pularam no chão, se divertiram, botaram a casa abaixo. Clássicos atrás de clássicos: "Amigo Punk", "Eu", “Nunca Diga", "Hare", "Grito de Tarzã", "Eu Gostaria de Matar Os Dois", "A Empregada"... Pelo menos nas três fileiras em frente ao palco todos estavam ensandecidos, com os olhos vermelhos. Fotógrafos não sabiam se cantavam ou batiam fotos. Sem o consentimento da banda, a produção do Sesc desligou o som, porque já tinha passado do horário. Mas tinha faltado o clássico "Colégio Interno". Com os instrumentos desligados, a banda pediu silêncio total e mandou assim mesmo, quase que sussurrando. Final antológico. Pela primeira vez na minha vida, vi todos os presentes fazerem questão de organizar uma fila para abraçar os músicos. Existem relatos de pessoas que choraram compulsivamente.

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