"A volta dos que não foram", Replicantes

Márcia Dienstmann


Embora nunca tenham ido embora, Os Replicantes voltam com todo o gás no novo disco da banda, "A volta dos que não foram", gravado no estúdio Dreher, nos meses de junho e julho de 2001. O título do trabalho é uma resposta brincalhona para quem acreditava que alguns períodos, por assim colocar, de "recolhimento" dos caras significavam o fim da banda. Ledo engano, grande erro, imensa bobagem de quem pensou que eles tinham ido. Para o bem (ou para o mal) de todos, a banda punk criada em 1983 mostra em "A volta dos que não foram" a mesma vitalidade dos primeiros discos. O último disco de estúdio do grupo foi lançado há longínquos dez anos, intitulado "Andróides sonham com guitarras elétricas".

Carlos Gerbase (vocal), Cláudio Heinz (guitarra), Heron Heinz (baixo) e Cléber Andrade (bateria) mostram em "A volta dos que não foram" uma maturidade musical mesclada a uma saudável irreverência juvenil. Ao mesmo tempo em que buscam inspiração nas idéias literárias do teórico italiano Benedetto Crocce ("Beleza sob um véu") e em Nietzsche ("Precipício"), aparecem com letras extremamente bagaceiras e divertidas, como em "Churrasco". "Churrasco" diz coisas do tipo "eu levo o salsichão e tu a coca", "dá para vinte comer", "não vou dar em lugar nenhum", enfim, essas bobagens que aprendemos na 5ª série e que passam de geração para geração, insistindo em viver até hoje. Eles ainda poderiam usar as clássicas "que time é teu" e "diz aí o aumentativo de dacueba". Enfim, tire as crianças da sala eventualmente, mas as traga de volta de vez em quando para aprenderem com os tios punks.

O CD traz 14 faixas, quase todas elas inéditas. As músicas "Papel de mau", "Pra ver se eu conseguia" e "Precipício" são as únicas regravações, sendo a última integrante da trilha do filme "Tolerância", dirigido por Gerbase. Apenas uma canção não tem a participação de nenhum integrante dos Replicantes na composição, "Vamo pro crime", que tem letra de Marcelouco Cabral Rebelo e música de Paulo Mello. Todas as outras são de autoria dos próprios Replicantes, com eventuais parcerias. As participações especiais do CD ficam por conta de Cláudia Barbisan, que faz dueto interessante com Gerbase em "O futuro" e Júlio Cascaes solando com a guitarra e Zicco fazendo a segunda guitarra em "Não vá embora".

Destaque ainda para as músicas "Eu quero é mucra!", um pesado protesto cantado com toda a força do punk contra as criaturinhas do sexo feminino que resumem suas vidas em academias, xópins e conversas fúteis ao celular. Fora de série a guitarra de Cláudio, assim como o inconfundível baixo de Heron. "Não vá embora", "Quando eu te pegar" e "Baladas" (onde juram não serem traidores do movimento) também prometem. Muito em breve estarão nas bocas de velhos fãs dos Replicantes e de jovens punks que começam a escutar a barulheira dos caras. Sim, até mesmo a gurizadinha que nem sonhava em nascer quando Os Replicantes surgiram, azucrinando a vida dos idosos de cabeça, que não suportam ouvir bobagens. Ou verdades, dependendo do ponto de vista. O que importa é que Os Replicantes voltaram. E fica uma sugestão para o nome do próximo disco: "A volta dos que voltaram de onde sempre estiveram".

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