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A
MTV vira a CARAS
Por
Paulo Terron*
O
que há de errado com a MTV Brasil?!? Há
mais de 10 anos eu me lembro de ter visto uma
entrevista na qual o Mike Patton dizia o quanto
a filial brasileira da music television era legal.
Aqui, segundo ele, nós podíamos
ver coisas diferentes. Naqueles tempos a MTV americana
começava seu processo de "rap-ização"
(ou "hip-hop-ização"),
que dura até hoje. Por aqui, tudo era alegria:
além do diário "MTV No Ar",
o canal tinha ainda o "Semana Rock",
um resumão também apresentado pelo
Zeca Camargo. A cobertura jornalística
era imbatível. Em 1993, no auge do grunge,
podia-se ver material de deixar qualquer um de
queixo caído - L7, Nirvana, Alice in Chains...
E sem esquecer da efervescência local, que
começava a brilhar com o movimento mangue
beat, vindo de Recife. Ah, o paraíso!
Mas
aí chegamos a 2004. O jornalismo da MTV
é uma piada. Para começar, não
há um jornalista - no sentido real da palavra
- na cast da TV. Fábio Massari ficou um
bom tempo fazendo o papel de Kurt Loder, e ninguém
duvida que ele o fazia muito bem. Quando ele desistiu,
essa vaga deixou um buraco na programação.
O "Jornal da MTV" é uma piada.
Afinal de contas, quem quer brincar de mandar
e-mail respondendo "qual música você
gostaria de ver o White Stripes gravar" para
ser lido por um "garoto" que mal consegue
falar? Presume-se confiabilidade, credibilidade,
de um apresentador de telejornal. Mesmo na MTV.
O Rafa precisa de uns bons 10 anos para talvez
chegar lá. E o Edgard... Bom, o Edgard
tem pretensões artísticas, e isso
já não pega muito bem.
O
que me leva ao segundo ponto: por que a MTV Brasil
quer ser a "Caras"? O programa "Casa
da Praia" é isso, a versão
televisiva para a Ilha de Caras.
Um
bando de artistas fingindo estar de férias
e um bando de VJs fingindo estar recebendo visita.
Não sei quanto aos outros telespectadores,
mas eu não tenho interesse algum em ver
a Marina Person com cara de sono ou a Sarah comendo
mamão. O Verão daquela MTV de 1993
era diferente. "Top 50 Verão."
Você podia ver os 50 clipes mais tocados
na TV - sem jabá, acho - de uma tacada
só.
Hoje
é tudo sobre o VJ. O "Garagem do Edgard",
por exemplo. Tenho certeza que o VJ é um
cara legal, mas será que ele não
percebe que é um pouco demais você
interferir na música alheia? Como diz aquele
ditado, é querer "pegar o bonde andando
e sentar na janela" (e ainda dar tchauzinho).
Isso é interferência! O Edgard chegaria
para um médico, no meio de uma operação,
e pediria para dar os pontos?!? Acho que não.
Mas é isso o que ele faz com as bandas.
"Rafa
Tá Tá"... É até
difícil falar sobre esse programa. Uma
vez alguém me disse que o público
da MTV se identificava com o Rafa. Se isso for
verdade, aí o problema é grande
mesmo. Eu detesto ser o "portador das más
notícias", mas, Rafa, quando os jornalistas
dizem que gostam de você, eles estão
zoando. E não é porque você
leu uns dois livros da série "Baderna",
da Conrad, que você é subversivo.
Trocar a música de clipes não é
ser subversivo, é só ser chato.
O
"Família MTV" é outro
da série "queremos ser a 'Caras'".
É uma verdadeira lição: como
mostrar a Wanessa Camargo em casa, fazendo compras
e na balada sem parecer revista de celebridade?
Fazendo um programa e dizendo que é "baseado
no 'Osbournes'"! Tem algo de errado. As coisas
não deveriam se misturar, certo? A "Caras"
é a revista que sua mãe lê.
A MTV é a TV que você vê. Mundos
separados. A fusão começou quando
o Zeca Camargo, que era da TV que você vê,
foi apresentar o "Fantástico",
o programa que seus pais vêem. E aí
a MTV começou a virar a "Caras".
*Jornalista
do IG e colunista do site Urbanaque |
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