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JABÁ:
VOCÊ SABIA QUE EXISTIA, NÉ?!
Por
Tanara de Araújo
Na edição de 21 de maio de 2003,
o jornal Folha de São Paulo publicou um
daqueles tipos de entrevista que tinha tudo pra
sacudir o mundinho musical brasileiro ou, ao menos,
aquecer as conversas de bar do jornalismo cultural
(senão policial): “André Midani,
um dos mais populares bambambans da indústria
fonográfica, assegura que sim, existe jabá
no Brasil!”. Até onde pude acompanhar,
tanto a repercussão da coisa quanto as
conversas, nada de mais rolou. Nenhum comentário,
nenhuma crítica. E sabe por quê?
Porque admitir que existe jabá no Brasil
não é novidade pra absolutamente
ninguém, da mesma forma que é uma
grande vergonha para todos.
Para esclarecer aos não entendidos em certas
nomenclaturas, chama-se jabá a cobrança
para execução de músicas
nas rádios e TVs. Claro que, na real, a
prática estende-se a qualquer manifestação
positiva sobre o artista e seu trabalho –
ou seja, pagar pra tocar a música ou pra
fazer reportagens elogiosas, boas resenhas e coisas
do tipo ficam no mesmo saco da farinha Jabá.
Durante a entrevista, Midani relata como o jabá
iniciou, lá pelos anos 70, da forma como
o conhecemos hoje. A coisa, segundo ele, veio
do curto salário dos programadores, que
passavam a exigir um “troco” das gravadoras
pra facilitar a execução das músicas
e, ao mesmo tempo, afofar seu orçamento.
Os donos das rádios (que ainda não
tinham a ver com o esquema) faziam vista grossa,
afinal, assim não se preocupavam com aumento
de salários. Isto, óbvio, até
o tal do “troco” começar a
crescer. O resto, a gente já sabe: olho
grande, troca de favores, fragilidade da indústria,
força dos meios de comunicação
e, como diria Chico Science, “os de cima
sobem e os debaixo descem”.
Outra parte bem curiosa entre as respostas é
a mea-culpa de Midani, no melhor estilo Jeffrey
Wigand*. Ele até tentou por muitas vezes
quebrar a rotina jabagista, mas a falta de união
nunca tornou sua atitude bem sucedida. Resultado:
“Se esta é a regra do jogo, lá
vou eu com a regra do jogo”, tudo em nome
da proteção dos seus artistas, claaaaro.
E a entrevista vai nesse ritmo, infelizmente endossando
fatos que o imaginário coletivo –
muitas vezes mais real que a ‘verdade oficial’
– já sabia. E é muito fácil
saber mesmo, basta ligar o rádio/TV e prestar
o mínimo de atenção pra se
chegar a alguns questionamentos: Por que tocam
uma média de, digamos, 20 bandas por dia,
sempre as mesmas? Por que é tão
comum vermos artistas novos nas agendas de shows,
mas no rádio/TV a coisa não chega
tão fácil? Por que todo mundo acha
Kelly Key um lixo, mas suas músicas insistem
em ser as mais pedidas nas programações?
Você, que está aqui neste site, lendo
este texto, já deve ter ouvido falar de
bandas como “Sonic Volt”, “Pata
de Elefante” e “Laranja Freak”.
Elas foram as representantes gaúchas de
um dos mais importantes festivais de música
do país, o Festival Bananada, em Goiás.
Mas...você já ouviu no rádio
alguma música delas? E a Galaxy Trio? A
Galaxy é uma banda super bem organizada
e profi – tem disco gravado, site bacana
, material promocional e até música
na abertura do Radar – e...você já
se deparou com alguma música deles nas
programações no dial? E o que eu
posso praticamente garantir sobre esses nomes
(fora outras centenas que tem por aí) é
que eles devem, com certeza, ter deixado uma cópia
do seu trabalho em cada rádio e TV. Será
que coincidentemente todo mundo acha, ao mesmo
tempo, eles ruins?
De qualquer forma, o grande mérito da entrevista,
na verdade, foi sua publicação,
já que o tamanho do universo que compreende
o povo envolvido nessa história feia é
praticamente um sistema a la Matrix: programadores,
artistas, jornalistas, relações-públicas,
assessores, executivos, almost everybody (se você
não tem nada a ver com isso, não
vista o chapéu, por favor). Agora, acreditar
de coração naquela frase “não
existe jabá no Brasil”, caro leitor,
é ser muuuuuuito ingênuo. E como
castigo eu tenho duas coisas pra contar pra essas
pessoas: o papai Noel era ninguém menos
que aquele seu tio gordo, e quem deixava os ovos
de páscoa na porta do seu quarto eram seus
pais e nenhum tipo de coelhinho.
*Cientista
e ex-funcionário da indústria tabagista
que, com dor de consciência, denunciou os
esquemas do seu meio de trabalho. A história
pode ser conferida no filme “O Informante”
(The Insider), com o Russel Crowe e o Al Pacino.
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