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Menos
music, mais television
Por
Tanara
Araújo
Youre
watching MTV!
Já faz um bom tempo, este talvez tenha
sido o mais conhecido slogan da MTV. Era tão
disseminado que teve, inclusive, sua versão
em português quando a emissora desembarcou
por aqui (Você está vendo a
emitivi...ou emetevê, como preferia
Caetano Veloso). O irônico disso é
que essa frase dita por Madonna, Axl Rose, Billy
Idol e uma penca de outros famosos teve auge de
popularidade justamente quando não era
necessário lembrar a ninguém que
ele estava assistindo à MTV. Não
tinha erro.Que emissora passava o dia inteiro
(ou quase isso) se dedicando ao mundo da música?
Natural: MTV = Music Television = Televisão
de Música.
Essa tão famosa chamada não passa
há anos, porém, hoje ela cairia
muito bem. Exageros à parte, um telespectador
mais desatento pode não ter tanta certeza
de que está assistindo à MTV. Cada
dia mais longe da music, a MTV brasileira está
cada dia mais próxima da television tradicional.
Duvida? Compare sua atual programação
com a de outras emissoras. No lugar dos antigos
clips espalhados na grade, estão talk e
reality shows, games, desenhos animados, programas
para arrumar namorado, femininos, de esporte e
sobre sexo. Ou seja, nada muito diferente da programação
da Globo ou do SBT, guardadas as devidas proporções
- o quizz do Cazé é muito mais interessante
que o da Angélica e os Osbournes coloca
o Big Brother Brasil abaixo do chinelo.
Falando assim, parece saudade do tempo em que
a gente sentava em frente à MTV por uns
minutinhos e conseguia ver umas três vezes
ou mais os vídeos de Justify my love,
da Madonna, e Being boring, dos Pet
Shop Boys. É claro que não é
nada disso. Radicalismos, excessos, repetições,
além de muito chatos, são boas matérias-primas
para não conseguirmos mais absorver as
diferenças entre uma coisa e outra. Só
que isso também é válido
para o outro lado da moeda: radicalizar os cortes,
exceder numa só linha de atrações
e repetir uma programação que já
é exibida em 9 entre 10 emissoras abertas
também não dá. Da transmissão
maciça de clips até a transmissão
maciça de não-clips, a questão
aqui é justamente a falta de equilíbrio
que a MTV está passando. Concordo que é
pura bitolação ver vídeos
o tempo todo, da mesma forma que assistir aos
mesmos programas em todos os canais também
é.
Eu sei, alguém vai lembrar aquele velho
tendão de Aquiles de todas as emissoras
que, bem ou mal, precisam pagar suas contas: Money!
Em nome dele, no final da década de 90,
a MTV deixou de ser esnobe e caiu no popular.
Argumentos politicamente corretos não faltaram:
Somos democráticos, vivemos num país
cheio de nuances musicais que precisam ser abordadas,
queremos diversificação de público,
queremos que mais pessoas assistam à MTV.
Assim, para conquistar mais telespectadores e,
conseqüentemente, anunciantes, a Music Television
foi substituindo gradativamente R.E.M por KLB,
Breeders por Ivete Sangalo, Beastie Boys por Twister.
Um monte de gente adorou a mudança, uma
outra porção (confesso, incluindo
eu!) não simpatizou, não. Mas, independente
do gosto do freguês, ainda assim era música
trocada por música. Agora não, é
música trocada por blá blá
blá e, pior, um blá blá blá
copiado de outros canais num processo parecido
com aquele dos sites que disponibilizam trabalhos
escolares prontos: você copia o conteúdo
geral, muda algumas palavras, troca a fonte e
enfeita com algumas ilustrações.
Parece diferente, mas não é.
Uma pena, já que a MTV, dentro do universo
das televisões abertas, era um dos poucos
suspiros de criatividade, sem deixar de fazer
jus ao seu nome. Hoje seu registro é salpicado
durante as madrugadas ou em escassos programas,
como o Central, Riff e, vá lá, o
Disk. Sua capacidade de criação,
que já pariu uma infinidade de programas
que uniam informação, música
e entretenimento (CEP, Gás Total, Na Estrada,
...), agora prefere remodelar o que já
existe nos outros canais. Com mais inteligência,
sempre. Com mais ironia, obviamente. Com mais
conteúdo, talvez. Youre watching
MTV, mas isso pode não fazer mais tanta
diferença.
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