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Por
favor, fracasso!
Outro
dia, ouvindo no carro, sob protestos, a rádio
Jovem Pam (a favorita de minhas filhas, que estabeleceram
um abominável e democrático rodízio
estético quando estamos viajando em Santa
Catarina), uma música, cantada em português,
me chamou a atenção. Nem por ser
excepcionalmente boa (às vezes até
a Jovem Pam toca algumas velharias interessantes),
nem por ser tremendamente ruim. Era um rock com
guitarras pesadas, com uma letra romanticóide
de quinta categoria, mas até aí
morreu o Elvis - quantas merdas dessas a gente
ouve em inglês e passam batido?
Quase
no final da tal música, caiu a ficha: era
uma cover de "Learn to fligth", dos
Foo Fighters, uma canção do último
CD. Esperei que o abominável locutor dissesse
quem era o intérprete: Charlie Brown Jr.
É claro que o autor - ou autores - da música
não foram citados, de modo que a maioria
dos ouvintes da Jovem Pam deve achar que a música
é do Charlie Brown Jr. A minha tese é
que isso aí é caso de polícia.
O
que leva uma banda a fazer uma MERDA dessas? Por
que merda? (1) Porque não acrescentaram
nada à melodia, ao andamento, ou ao arranjo
da música original. Simplesmente tentaram
tocar igual. Só que tocaram pior. (2) Porque
a letra é uma coisa tão primária
e boçal que, mesmo sem lembrar de nenhum
verso completo (graças a Deus!) posso garantir
que lembra o repertório de fim de noite
de Agnaldo Rayol. Ou pior. (3) Porque a porra
funciona MUITO BEM na rádio Jovem Pam,
é uma das mais pedidas/tocadas, um grande
sucesso, que deve estar alavancando a vendagem
do CD.
Longe
de mim dizer que o público não sabe
o que ouve, ou não tem critérios
para escolher, ou gosta de merda. O público
da Jovem Pam (que inclui minhas três filhas,
que escutam CDs dos Beatles, Nirvana, Legião
Urbana, Five e Shakira - elas são meninas
bem ecléticas) sabe o que ouve, tem critérios
e não gosta de merda. O que é merda
para mim certamente não é merda
para o público da Jovem Pam. Então,
Charlie Brown Jr., pelos importantes critérios
da popularidade e do sucesso, estão certos.
Sua gravação pseudo-foo-fighteriana
é um triunfo!
Só
que, citando o grande Sérgio Augusto, se
o único critério é o sucesso,
daqui a pouco estaremos redimindo o III Reich.
Quer maior sucesso que o nazismo na Alemanha da
década de 30? Se a Jovem Pam estivesse
lá, só tocava os discursos de Hitler.
Eu, pelo menos, ao contrário das vítimas
do holocausto, ainda tenho o direito de afirmar:
essa MERDA que a banda Charlie Brown Jr. gravou
é uma empulhação tão
grande que me dá dor de barriga.
E
é sucesso.
Nada
contra covers. A Rita Lee lançou recentemente
um belo CD só com músicas dos Beatles;
Propellerheads já remixou Shirley Bassey;
minha banda, Os Replicantes, já fez covers
de todo tipo, de Urubu Rei a Echo & The Bunnymen.
Mas, em toda cover que se preze, tem que haver
algum risco, alguma experimentação,
algum flerte com o novo, com o não-ouvido,
com o não-estabelecido. Se não,
os fazedores da cover estão simplesmente
enganando o consumidor, vendendo gato por lebre,
mesmo que pague todos os direitos autorais devidos.
Querem um exemplo local? A Bidê ou Balde
usou Buddy Holly e Weezer e não vejo problema
nenhum, pelo simples fato de que eram VERSÕES,
com letras bacanas e um trabalho de reinterpretação
das músicas que vale a pena.
O
rock brasileiro - e também o gaúcho
- precisa de menos sucessos e mais fracassos.
Fracassos bacanas, que devagarzinho deixem de
ser fracassos e entrem pelo ouvido do respeitável
público, essa entidade sem rosto, mas cujo
bolso comanda a música pop no mundo todo.
Enquanto reinar essa esperteza torpe estilo Charlie
Brown Jr., o rock brasileiro será cada
vez mais chato, constrangedor, intragável.
Que as bandas procurem se dar bem é normal:
todo mundo quer ser feliz e pagar as contas, mas
há certos limites a preservar. Alguém
tem que botar ordem na suruba, como dizia Sade
(o marquês, não a cantora). E, se
o velho sacana vivesse hoje, jamais treparia ouvindo
Charlie Brown Jr., com medo de bro-char na segunda
estrofe.
Carlos
Gerbase
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