Show de rock nem sempre precisa ter tumulto

Angela Pinto - Editora do Musicatri

Violência em shows de rock. A discussão é velha, mas vale a pena.
Poucos shows que eu vi foram como aquele no Opinião dia 08/10 (Replicantes, Vórtex, Cachorro Grande, Tequila Baby, Maria do Relento e Sombrero Luminoso). Isso eu falo, modéstia à parte, com muitos shows nas costas.
Um ambiente muito cheio, o público com a adrenalina lá em cima, a banda detonando no palco e os seguranças putos da cara. Na maioria das vezes essa mistura dá merda.
Isso me faz lembrar daquela entrevista com o Renato Russo que o Zeca Camargo fez anos atrás. Nela, o vocalista da Legião, na sua sabedoria, reclamava do show dos Ramones no Rio de Janeiro (quem se lembra?). Ele alegava que o público foi ao show pra fazer baderna e que os seguranças não estavam preparados para o trabalho que estavam desempenhando. Me lembro até do diálogo dos dois:

Renato Russo: Show de rock não é isso! Show de rock não é pra isso!
Zeca Camargo: Mas tem gente que vai em show de rock pra isso! Pra fazer baderna!
Renato Russo: Mas não é isso! Não é isso!

Zeca Camargo: Mas tanta gente junta é capaz de ficar numa boa? Sem ser o Woodstock?
Renato Russo: Fica sim! É só estarem ligados na música.
Zeca Camargo: Mas hoje não existe mais música. Existe showbusiness.
Renato Russo: Eu acho que o que existe hoje é uma situação onde as pessoas perderam a noção de civilidade e respeito.

Eu tenho que concordar com Renato Russo. Quando as pessoas vão nos shows para curtir e se divertir, o show é completamente diferente. A coisa fica ruim quando:
• A casa noturna deixa as pessoas esperando muito tempo na rua.
• Quando elas entram na casa encontram seguranças putos da cara por estarem sendo ofendidos pela galera que está de saco cheio de esperar na rua.
• A direção da casa noturna não orienta (ou orienta muito mal) os empregados nas atitudes para conter o público, principalmente em shows com várias bandas (como era o caso). Eles deveriam saber que o moshing é um fenômeno normal em shows como esse.
• O público, se sentindo oprimido pelos seguranças, fica mais agitado ainda, tentando dar mais moshs.
• Os Seguranças partem pra agressão
• A banda pede pra o pessoal da segurança pegar leve. Daí sobem 15 no palco ao mesmo tempo. A banda fica com medo.
• Outra banda com um estilo completamente diferente sobe no palco e sofre para tocar o seu repertório enquanto o público vaia.
• A ausência de um controle maior fez com que vários menores entrassem na casa. Nisso, menininhas de 14, 15 anos, também levam porrada.

Produtores das bandas foram mantidos na rua, músicos foram empurrados e maltratados no camarim.
Nem a rádio que organizava o evento, nem a casa noturna, se lembrou de fazer um cadastramento de jornalistas em um evento beneficente que contava com 6 bandas! Tinha um repórter de um dos maiores portais do Brasil (que eu não vou dizer o nome) na rua, sem poder entrar na casa, porque ninguém orientou os seguranças de como proceder com profissionais de imprensa. E o cara estava com identificação profissional e tudo. Sabe o que os seguranças disseram pra ele? "Você não pode entrar e ninguém da casa pode falar com você agora. Está todo mundo cuidando dos detalhes do show do Eric Clapton". Francamente.
Aí, depois de tudo isso, eu pergunto: COMO?

• Como uma casa de shows com a experiência do Opinião permite que todas essas coisas aconteçam?
• Como uma rádio como a Ipanema FM não se organiza melhor em um evento desse porte?

É incrível. São dois nomes com uma experiência enorme nesse campo de shows e parece que nunca viram esse filme antes! E que não culpem o "estilo barulhento" das bandas, que "incitam violência" porque não é bem assim. Já fui em um monte de shows de metal onde o público ficou numa boa.
O saldo dessa história? O mesmo de sempre. Gente desmaiada, passando mal, machucada...É claro que o público também tem uma certa culpa em casos como esse. A gente tem que se lembrar que todos nós somos humanos. E quando humanos estão em grupos, são como os outros animais. Tomam coragem e partem pro ataque. Nisso falam muita bobagem e fazem coisas que não querem fazer. Isso sem aditivos químicos. Imagine com eles. Se bem que com cerveja a quatro reais (cada garrafa) é difícil algum punk de verdade beber.

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