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Pergunta:
Quais são as tuas perspectivas futuras?
Zé do Belo -
cdzinho tá pronto já, sai
no segundo semestre, é ao vivo, mas
não sei o nome não, gravado
ao vivo no Teatro Renascença, lotadinho
o teatro.
Pergunta:
Músicas inéditas ou ...?
Z - metade
inédita e metade desse aí
("Acústico", de 1999),
peguei as melhor dali mais umas outras inéditas,
montei o cd. Tá gravadinho, tá
prontinho. É, agora vou pra São
Paulo, vou tentar vender ele lá.
Falta uma coisinha de nada, uma percussãozinha,
vamos dar uma trabalhadinha nele mais, tá
certinho, participação de
Luis Palmeira no violão de sete cordas,
Luis Machado no cavaquinho, só fera
do sambão de Porto Alegre. Coisa
fina.
Pergunta:
Quando foi gravado?
Z - agosto de 2000. O Dreher
botou dois (microfones) Neumann em cima
da platéia, captou até a respiração
da platéia, foi pra dois canais,
estéreo! O pessoal não viu,
tava bem em cima.
Pergunta:
Tu vai pra São Paulo e o que tu vai
fazer?
Z - vou mostrar o disquinho,
o pessoal lá tá gostando do
meu trabalho, esse disco velho tá
circulando lá, tão me chamando,
vou fazer o Sesc Ipiranga e o Sesc Pompéia,
vou sozinho de voz e violão, sem
banda.
Pergunta:
mas tu já contatou alguém,
algum selo, por e-mail?
Z - sou ruim na Internet, não
tenho computador, sou perneta na Internet,
maneta.
Pergunta:
Tá, tu não quis participar
daquela seleção de artistas
pra ter um financiamento, privado, o Itaú
ou Unibanco, não lembro, eles dividiram
o país em regiões e tinha
uma banca de artistas, por exemplo São
Paulo tinha o Maurício Pereira d'Os
Mulheres Negras, aqui tinha o Arthur de
Faria
Z - o
Branco (dono do selo Barulhinho), era meu
empresário, nem me falou nada disso,
deve ter rolado problema de ética,
o Branco decerto não quis me botar
pq eu era artista da gravadora dele e ele
era jurado, ele me inscreveu
no Fumproarte, é a segunda vez mas
não levei nada. Esse Branco só
me chineleou o trabalho. Só me ferrei
com esse Branco.
Pergunta:
E o Abril Pro Rock? Com Júpiter Apple,
Frank Jorge, Os The Darma Lóvers,
etc?
Z - os dois são do Branco,
o Branco arruma troço pra todo mundo
menos pra mim. Agora eu já saí
da gravadora.
Veri (esposa e
baixista do Zé do Belo) -
ele faria turnê, assim, só
que não teve ninguém pra financiar,
e por ele mesmo não tem.
Z - não
tenho dinheiro. Vou pegar um empréstimozinho.
(...) Eu me lembro que esse Arthur de Faria
implicou com o meu trabalho, muito debochado,
que se eu deixasse os deboche de lado e
fizesse troço sério mesmo
eu ia me dar bem.
Pergunta:
Tu já deve ter tido não só
essa como muitas críticas nesse aspecto,
sem peruca e tal.
Z - eu achava que assim a coisa
ia ser mais rápida, e foi mesmo,
em quatro anos eu já ganhei um bom
espaço na mídia, se eu tivesse
ido com a minha cara limpa eu ia demorar
muito mais tempo pra chegar onde eu cheguei.
Chama muito
mais atenção, criou uma coisa
tipo 50% odeia, 50% ama, mas os que amam,
amam mesmo, botam lá em cima, e os
outros que odeiam eu não tô
nem aí. Agora se fosse eu com a cara
limpa, fazendo as coisas meio tímido,
aí ia ficar tudo
mais ou menos e não ia chegar, entendeu?
Pergunta:
tu não deixou de tocar "à
sério", quais são as
tuas outras bandas?
Z - tem Os Puta Merda, voltou
agora, mas é um troço bem
underground, tem a The Waffers, com a Veri
aqui e um baterista, bem bacana, rock bem
legal, tem a Lorenzo Y La Nota Falsa, todos
meus trabalhos tão com alto destaque.
Pergunta:
e de onde veio a idéia de tu te fantasiar
de outra pessoa?
Z - eu nem sei, me deram aquele
chapéu, eu botei, botei os óculos
escuros, fiz uma vozinha de bêbado,
ficou legal, eu gostava de Nelson Cavaquinho,
gostava de coisa assim. As músicas
eu já tinha há uns dez anos,
muita coisa eu fiz com o pessoal de Curitiba,
um pessoal bem arriadão lá,
o poeta Marcos Prado, o pessoal da banda
Beijo AA Força, escreveu um monte
de letras, agora já morreu, morei
lá de 91 a 94. Quando eu cheguei
em Porto Alegre me deram o bonézinho
e fechou a alquimia do troço. Aí
de 96 pra cá que alcancei uma notoriedade,
senão seria apenas MAIS UM compositor.
Pergunta
é o teu lado Kiss da história
(risos). Como é que tu entrou no
cd "Os Excluídos"?
Z - o Egisto (Ophodge, atual
Egisto 2) gostou do meu trabalho, tô
devendo cem pila pra ele até hoje,
mas ele também não me deu
os discos, ficou elas por elas. Pro Branco
eu devo oitocentos (risos), ele também
não cumpriu a parte dele, pro Branco
eu vendi a matriz desse disco aí
(Acústico) por uma mixaria, nem vou
falar porque tenho vergonha de tão
barato que vendi. Não sou o dono
desse disco. O Egisto também tem
um disco meu guardado lá na gaveta
dele, não queria liberar, um baita
disco gravado no Estúdio A da ACIT,
o cara quis fazer um teste, nos deu dez
horas de estúdio, gravamos o disco
inteiro. Ele fica com o disco guardado,
esperando que chegue alguém e dê
um monte de dinheiro pra lançar aquilo,
ele ficou mostrando pra um e outro e ninguém
quis lançar porque não é
de fácil digestão, não
é um trabalho que tu mostre e, underground,
na voz e violão fica mais fácil.
Ali com o Egisto eu gravei com banda, cheio
de guitarras e baterias, teclado e coisarada.
Ele tem um excelente disco solo, mas não
se lança e fica se metendo no trabalho
dos outros.
Pergunta
Os músicos daqui dão apoio
ou "puxam para baixo" os que estão
subindo? O underground do nordeste e do
interior de São Paulo funciona porque
os artistas relevam qualquer mágoa
em função do coletivo?
Z - aqui no sul o pessoal é
muito crítico, tipo o Edu K, o cara
QUASE estourou, eu olhava no Faustão
e tu via que aquele cara, no fundo no fundo,
continua com aquela coisa de gaúcho,
se segurando. Agora de novo os caras quase
estouram com a "Popozuda", tu
pega o Tigrão, o cara é natural
na Globo, não tá nem aí,
não tem a "faca-na-bota",
aqui ninguém consegue. Só
Kleiton e Kledir, Engenheiros que deixaram
a "faca" de lado. O Engenheiros
parece que acredita no que tão fazendo,
o Edu K tu sente que ele tá montando
uma falcatrua. (...) Eu fui pra Florianópolis
e todo mundo viu que eu era gaúcho,
é difícil disfaçar.
O cara é meio estranho, "-É
gaúcho!". Mas aqui o pessoal
é meio fechado, é difícil
fazer amizade, eu morei no Rio e o pessoal
é bem aberto.
Pergunta
No teu disco, porque aquelas faixinhas instrumentais?
Z - A Veri tem os discos do Blur
e a gente escutava direto os discos do Blur
e os discos do Blur tem umas vinhetinhas
bem legal, eu já tinha na cabeça
e acho legal botar umas músicas sem
letra no meio.
V - Tinha
uma instrumental que TINHA letra, mas ficou
tão legal que ele resolveu deixar
sem a letra.
Pergunta
e como é que tu bancou esse disco
novo?
Z - saiu tri barato, eu armei
o show e com a bilheteria do show eu já
paguei os músicos mais chatos, "os
mais chatos" são os que cobram,
"- É tanto", não,
mas eu vou mostrar pras gravadoras, os caras
vão gostar, "-É, mas
é tanto", depois que acabou
o show dizem "-Bah, mas que legal o
teu som, que maravilhoso o teu show!",
a-hã, nunca mais liguei pros caras.
E não tem ensaio.
Pergunta
tipo Chuck Berry, só dá o
tom e banda vai?
Z - eu dei uma fita pros caras,
e eles são tudo sambista velho, dei
cifradinho, marquei um só ensaio,
um dia antes. Fui lá no Sindicato
dos Músicos arrumar os caras. Um
ensaio foi desmarcado porque morreu o Rubem
Santos, eram amigos do cara. Eu liguei pro
cara "-Tá em pé o ensaio?",
"-Não vai dar, morreu o Rubem
Santos, vai todo mundo pro enterro".
(...) Mandei o disco pro Madan, um compositor
lá de São Paulo, teve um ator
lá que comprou o meu disco, Mário
Bortolotto, o cara adorou, mostrou pra todo
mundo, mostrou pra esse Madan. O (Carlos
Eduardo) Miranda, desde que eu lancei esse
disco, dizia pra eu ir pra São Paulo,
nem que fosse só com o violão,
dar um balão na mídia.
V - ele
não foi porque não tem grana
pra pagar uma passagem e ir.
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