Vitor Ramil
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Ele é pelotense, gaúcho, brasileiro, latino e gremista. Com certeza também é uma das melhores cabeças que temos por aqui. Entre uma viagem e outra, Vitor encontrou um tempinho para responder nossas perguntas. E é bom parar por aqui, senão vou começar a rasgar muita seda pra ele e vai ficar chato.
Por Angela Joenck Pinto

Vitor ao vivo no Theatro São Pedro. Foto Angela Pinto

Você é um admirador confesso de Jorge Luis Borges. Assim como na obra de Borges, os elementos campeiros e cosmopolitas (pampa e asfalto) se confundem na sua arte. Isto é uma conseqüência da sua admiração pelo Borges ou é uma inquietação natural?
Vitor: Pelotas, ou devo dizer Satolep?, tem em sua história, na época das charqueadas, esse elo campeiro-cosmopolita, pois os gaúchos traziam o gado para a tablada de uma cidade europeizada, o peão de fazenda cruzava com o intelectual de punhos de renda; o gaitaço ecoava no campo e a ópera no teatro Sete de Abril, perto dali. Claro que eu não estava lá, mas isso sempre esteve no meu imaginário. Além disso Satolep é terra de João Simões Lopes Neto, que mais que Borges, no ensinou a amar nossas lendas, nosso linguajar, nossa

paisagem, escrevendo sempre com muita sofisticação. Aqui tem até hoje a União Gaucha JSL Neto. Eu ia lá aos domingos, ouvia muita gaita, comia churrasco, via meus pais dançarem. E esse mesmo pai que botava bombacha no fim de semana estava sempre me chamando a atenção para o desenho das nossas ruas, para o refinamento da nossa arquitetura eclética de inspiração européia. Evidente que ao entrar em contato com Borges, esses elementos campeiros e cosmopolitas a que te referes ganharam uma importancia ainda maior para mim, ampliaram ainda mais a linha do horizonte satoléptico. A memória, o afeto, sentimentos e sensações respondem pela presença dessa combinação, vamos dizer, de opostos no que faço. Se fosse meramente uma marca intelectual, acho que não seria convincente.

Tem planos de lançar outro livro? (Nota: Ele lançou o livro "Pequod" pela editora Artes e Ofícios há alguns anos).
Vitor: Tenho sim, mas não tenho pressa. Fico me dividindo com a música e sempre acho que a música é mais urgente. Mas adiei meu disco para o ano que vem, e pretendo concluir algum texto no segundo semestre desse ano.

Você já lançou discos calcados em várias vertentes musicais, mas o rock é um elemento que ainda não foi visto marcadamente na tua obra, embora tu gostes de Beatles e Bob Dylan, por exemplo. Você ainda vai fazer um disco no qual o rock predomine, ou não se vê como um roqueiro mesmo?
Vitor: Há elementos roqueiros evidentes até mesmo no Ramilonga, mas acho que nunca farei um trabalho que seja considerado "rock". Meu próximo disco de canções provavelmente tenha um sabor roqueiro mais evidente que os outros, mas não no peso, nas guitarras distorcidas. Quero uma música ramiliana em que os elementos todos que me formaram estejam presentes mas misturados mais na essência que na superfície. E as nuances roqueiras tem lugar certo aí nesse fundo, afinal: ah, eu sou gaúcho!

O que é mais difícil, fazer versões de clássicos (como músicas de Dylan), musicar trabalhos literários ou compor material original seu?
Vitor: São trabalhos muito distintos, não dá para compará-los em termos de "dificuldade". Um desafio, ou algo refinado, não necessariamente é uma "dificuldade". Gismonti me disse, quando eu tinha 18 anos, que fazemos bem o que fazemos com facilidade. As três opções que deste me dão prazer, cada qual a sua maneira, e prazer que nunca é algo difícil.

Quando você elaborou o ensaio "A Estética do Frio", esperava que o texto tomasse a importância que tem atualmente?
Vitor: Na verdade ainda não escrevi uma Estética do Frio. Aquele ensaio foi mais um esboço que relutei em publicar. Mas venho desenvolvendo essas idéias, daqui a pouco mais lanço uma versão mais fiel ao que penso, talvez fique fazendo versões e mais versões... A Estética do Frio tem importância?

Você manifestou um certo interesse em se mudar para São Paulo. As "condições de sobrevivência" de um músico ainda são melhores lá? O que falta para o Rio Grande do Sul?
Vitor: Estou já há um bom tempo vivendo no interior depois de ter vivido anos no Rio e em POA. É uma transa pessoal. Deu vontade de cruzar mais com gente como eu, com a minha profissão. Gosto de mudanças, de viradas. Acho que um músico pode viver em qualquer lugar, cada um sabe das suas prioridades. Vive-se em qualquer parte. Não posso, sozinho, sugerir o que falta para o RS...

Certa vez você falou em uma entrevista que "não estava à margem de uma história, mas no centro de outra". Ainda pensa dessa maneira? Esse Mercosul musical tem se mostrado viável?
Vitor: O Mercosul não sei, parece até que acabou, mas essa confluência de culturas que somos nós é indestrutível. É a ela que me refiro.

Quais são os planos para seu próximo disco? Ele também será lançado em português e espanhol? Terá participações especiais como no Tambong?
Vitor: Ia gravá-lo agora, mas, por ser independente, resolvi dar mais este ano para o Tambong e para um trabalho de base em algumas regiões do Brasil. Se o gravassse agora, seria um disco de canções em português, mas daqui alguns meses nem eu serei mais o mesmo...


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