Sonic Volt
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No dia 24 de maio deste ano, a Sonic Volt foi destaque no Festival Bananada, em Goiânia. Banda nova da região centro-oeste do país? Negativo. Banda nem tão nova assim de Porto Alegre, RS. Juntos desde o final de 2001, Luciano Oliveira (ex-vocal, atual 2ª guitarra), Duda Lanna (guitarra), Eduardo "Dudu" Silva (baixo) e Álcio Villalobos (bateria) fizeram nome entre os goianos, mas seguem batalhando firme para se destacar no seu próprio território. Entre o momento de engorda do repertório de "The Freewheelin' Franklin Acid Rock Band" (seu primeiro CD demo) e a procura de um novo vocalista, a Sonic Volt recebeu o Musicatri no estúdio Vox para contar sobre a experiência fora do Estado, além das dificuldades e alegrias de ser uma
banda de rock, com rótulo dos mais tradicionais.

Por Tanara de Araújo
Fotos: Angela Joenck Pinto


1. Bananada 2003. Como a Sonic Volt foi parra no cast de um dos festivais mais importantes do rock brasileiro?

Álcio: A gente conhece o pessoal de Goiânia da Monstro (gravadora), da banda Mechanics, principalmente o Jaime, baterista deles. Conhecemos eles numa lista de discussão, e quando a banda veio pra cá em janeiro, a gente deixou o CD com eles. E foi aí que pintou o convite.

2. E como foi a experiência?
Álcio: Ah, doideira completa. Muito bom mesmo. Não lembro quantos anos já tem o Bananada, mas já faz um bom tempo.
Duda: Acho que foi lá por 98, 99 que eles começaram a fazer os esquemas. De lá pra cá tá cada vez crescendo mais.
Álcio: É, tá crescendo muito e só conta com bandas mais underground, que tenham alguma coisa a dizer.
Duda: E que geralmente não tem gravadora por trás. São bandas independentes mesmo.
Álcio: Inclusive este ano não trouxe nenhuma atração internacional, que tinham trazido nas outras edições.

3. Eu soube, inclusive por vocês, que o Bananada perdeu o apoio a Lei do Incentivo que ajudou na realização de outras edições. O que vocês podem me contar mais sobre isso?
Álcio:
É, este ano não deu, mas o porquê não chegou na gente.
Duda: Ficou mais nas internas.
Álcio: Acho que no ano passado, se não me engano, teve, mas aí é uma questão mais da organização do festival mesmo.
Dudu: Pode ser que seja uma questão estadual, uma verba destinada para o Estado de Goiás, pra Secretaria de Cultura deles, algo assim. Mas é uma coisa própria a iniciativa de fazer alguma coisa com o Bananada, porque a gente vê, pelo menos aqui no RS, não tem um evento similar ao que eles se

propõem a fazer por lá, convidando bandas de vários cantos do Brasil pra mostrar o seu som dentro do rock, dentro do underground. É um festival que abre oportunidades para bandas que não são da mesma linha, cada uma tem seu estilo. Em termos de festival, nós não tínhamos visto aqui o que vimos por lá, até como espectadores, não apenas como participantes.
Álcio: É que lá é mais o pessoal que não tem nada a perder musicalmente, então é mais legal. O pessoal põe a alma em jogo, põe o coração, e é isso que a gente gosta.


3. Goiás tem uma cena tão boa quanto Porto Alegre?
Álcio:
É diferente.
Duda: Não como Porto Alegre, eu acho. Eles vivem mais no underground lá do que aqui. As bandas ficam mais na dependência da questão da rádio local, porque lá eles não têm isso (rádios específicas).
Álcio: Acho que lá eles criaram uma cena. E tem que dar os louros da conquista pro pessoal da MQN, os Mechanics, porque eles criaram todo o esquema: dois festivais anuais, uma gravadora. E saíram do nada, porque lá o que chega é sertanejo
Luciano: Foi um movimento bem pra se opor, porque, até então, era só sertanejo, só choradeira...
Álcio: E tinha muito público (pra rock), mas não tinha ninguém oferecendo. Uma grande procura e pequeníssima oferta, ao contrário daqui. Aqui tem uma oferta muito grande, agora o público não se sabe onde está direito. Ainda mais se tratando de banda de rock mesmo, que não tenha tanto a perder como as que tem.
Duda: Existe um público de rock aqui, só que ele tá muito ligado no que geralmente sai na rádio. Então, isso acho que prejudica bandas como a gente, que não toca na rádio.
Dudu: É que tudo tem os dois lados da moeda. Quantas cidades em várias regiões do Brasil reclamam que não tem rádio pra tocar? Enquanto outros lugares não tem nenhuma rádio, aqui, falam que tem até três que tocam músicas como o pop, o rock, que abrem o espaço pra bandas daqui. Quem sabe isso pode, às vezes, prejudicar? Porque acaba que a mesma banda que toca na rádio A, toca na B e na C.

4. Vocês são uma banda relativamente jovem (começaram no final de 2001), época em que as dificuldades são maiores. O que tem sido mais complicado pra banda?
Duda:
Fazer show eu acho que é muito complicado. Os lugares pra show são meio fechados. Tocar na rádio também é bastante difícil.

5. Vocês já vivem de música?
Todos: (em meio a risadas) Não, ainda não.

4. E é possível conciliar banda e emprego?
Álcio e Duda:
Dá, tranqüilamente.

5. E o que vocês fazem além da Sonic Volt?
Álcio:
Eu sou advogado não atuante, o Dudu é advogado atuante, o Duda é designer e o Luciano é jornalista ainda não-formado.
Duda: Dá pra viver com as duas coisas.

Luciano: Dá pra conciliar. A gente tem que fazer um esforço, né?! A gente faz música, faz esse som porque a gente gosta disso, então isso se faz sem esforço.
Dudu: E todos aqui gostam de música, se envolvem, vão atrás. Todos têm uma ligação muito forte de hobby com a música: gostam de pesquisar coisas na internet, trocar músicas, trocar idéias. E todos sabem tocar, gostam de tocar, são amigos. Então é unir tudo isso e dar um jeito de ensaiar pelo menos uma vez por semana, de se encontrar, de se falar com freqüência em prol da banda, em prol deste gosto de tocar junto.
Álcio: E também tem comprometimentos diferentes. Tem aquele pessoal que vive de música, quer música e se mata atrás. A gente é mais calmo.
Duda: E a gente é mais velho também, neste sentido.


6. A banda seria mais uma espécie de divertimento, desopilação...
Duda:
É um divertimento levado muito a sério, muito a sério mesmo.
Dudu: Diversão sim, mas a gente não tá brincando de banda.
Álcio: É um divertimento que se for se profissionalizar de uma hora pra outra, a gente abraça.

7. Vocês que tiveram em Goiânia há pouco tempo podem ter uma base. É mais difícil ser gaúcho, estando ‘longe demais das capitais’?
Álcio:
É que o RS é gozado, né? É um país aparte, quer queira, quer não queira. Tu pega um festival da Atlântida, por exemplo: as bandas do cast deles levam 10 mil, 15 mil pessoas frouxo. Daí os caras ultrapassam do Paraná, tão tocando em birosca. É diferente. Uma vez uma jornalista veio de São Paulo e falou: “Olha, não tem público pra banda gaúcha lá em cima”.

8. Eu já vi bandas grandes falando isso...
Álcio:
É, eles fizeram todo aquele hype em cima da cena gaúcha que se formou, Bidê ou Balde, Vídeo Hits. E ficou aquela imagem: o rock gaúcho é aquele rock mezzo psicodélico, mezzo jovem guarda, ou aquelas bandas engraçadinhas, que sumiram um pouco, graças a Deus. Enquanto isso, tem uns caras bons, como a Cachorro Grande, a Walverdes. A Walverdes tem o seu público lá, mas também é muito underground. Não tem espaço lá pra banda gaúcha realmente.

9. O som de vocês é super tradicional, claramente inspirado em Led Zeppelin, Jimi Hendrix,...Vocês não acham que tem pouco desta objetividade instrumental e muita firula no rock de hoje?
Duda:
Eu acho que as pessoas não conhecem muita música hoje em dia. Elas ficam muito ligadas no que toca na rádio. Então, falta conhecimento de causa, eu acho. Nosso estilo veio muito solto pra gente, sempre ouvimos essas coisas, na verdade.
Álcio: Eu acabo tratando a música de uma maneira muito ideológica, acabo sendo meio chato porque, por exemplo, eu vou a festas e fico com aquela cara, sentado, sem mexer nem o ombro. Então, me indigna algumas formações dizerem que são rock. É um termo que hoje, tu vai numa loja, tu pega lá um CD do A-ha, do Pet Shop Boys, do Hanson na seção rock.
Luciano: Basicamente se tem uns caras num palco, em pé, com umas guitarras na mão, é rock. O rótulo rock não diz mais muita coisa. Banda de rock...mas, que rock? Pode englobar desde Led Zeppelin, Sepultura até A-ha, Pet Shop Boys.
Dudu: Existe uma pobreza musical muito grande, não em termos de técnicas apuradas, mas em termos de feeling. Foram citados aqui o Led, o Jimi Hendrix, Black Sabbath, olha da onde eles conseguiram tirar inspiração pra aquilo, que às vezes, até soa como simples, mas é uma coisa que vem de dentro, uma coisa transparente. Hoje não, a gente vê uma coisa muito plástica, muito falsa, pensada só pro comercial, muito filtrada. Tu perguntaste se isso tá faltando em algumas bandas, é até está faltando, mas porque elas já têm outros interesses.
Álcio: Até não é culpa deles se eles ouvem outras coisas. Não dá pra esperar que todo mundo resolva, de um dia pro outro: ‘Por que o Sabbath, o Led, o Deep Purple são umas bandas do caralho, que agora tem que copiar os caras, tem que se influenciar neles até não poder mais’. Não, pode se influenciar pelos Blink 182, sei-lá, quem for. As bandas que a gente gosta acabam refletindo. Tem muita gente que toca um estilo que não é o que ouve. A gente, não. A gente ouve e toca isso, porque este é o nosso gosto em comum.

10. Mesmo com essas influências todas, vocês compõem em português...
Dudu:
Nós somos do Brasil, e por isso a gente aposta, gosta e faz as letras em português. A nossa música é voltada para o português, e isso, muitas vezes soa estranho pra quem faz aquela ligação com as bandas, com o som da década de 70. Fazer as letras em português é um desafio que a gente tem, até porque pra este tipo de som, quem sabe, é uma banda que faltava pra puxar pras letras em português.

11. O que é prioridade pra vocês: composição ou show? Por quê?
Duda:
Eu acho que estrada pra gente agora é o principal.
Álcio: Tá, fomos para o Bananada, mas daí a gente não encontra espaço pra tocar. Agora é show, show, show, show, e claro, sempre compondo, sempre colocando uma idéia nova na roda. A gente tem plano de já gravar uma outra demo, mas a gente nem promoveu essa muito ainda (“The Freewheelin’ Franklin Acid Rock Band”).

12. O próximo EP ou CD vem na mesma linha do primeiro?
Álcio: Acho que o próximo vai ser um pouco mais dirigido. As músicas do “The Freewheelin’...” são as primeiras músicas que a gente fez, quer dizer, a gente tava se habituando. E agora a coisa tem um direcionamento mais certo, tem uma idéia mais perfeitinha do que a gente é, do que a gente quer. Nós andamos compondo algumas canções que acabavam cada uma indo pra um canto e aí ficou: “Bah, mas o que a gente faz afinal? Vai pra esse lado mais garageiro? Fica no peso? O que a gente é?”. E o nosso lance é esse: o peso não metal.
Duda: As músicas novas estão mais aprimoradas, eu diria. Até pelo conjunto da banda, pela nossa sintonia em tocar junto, pelo nosso maior tempo de estúdio. Por tudo isso aí, a gente já nota uma diferença na qualidade das músicas em relação às feitas há um ano e meio, que é uma tendência natural, uma evolução que se vê.
Luciano: E até mesmo as músicas velhas. Sempre quando a gente tem uma idéia, a gente mexe nelas. Não é porque elas estão gravadas, que agora é uma coisa sagrada que não possa trocar.
Álcio: E show é um termômetro maravilhoso pra isso. Porque se consegue ver qual é a idéia que funciona mais, por mais que a gente não dê uma bola especial pra isso, do tipo: “Ah, não eles gostam mais disso, vamos tocar isso!”. Mas, acaba fluindo.


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