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O grupo Nenhum de Nós lançou
em Porto Alegre o seu último
disco, Paz e Amor, em três shows
lotados no Teatro da OSPA dos dias 25,
26 e 27 de junho de 1999. Antes do último
show, Veco Marques, Thedy Corrêa
e Sady Homrich (respectivamente guitarrista
e vocalista, baixista e baterista da
banda) responderam algumas perguntas
sobre o novo disco e o trabalho do músico
no Brasil.
Pergunta:
Vocês tem tocado essas músicas
do último desde dezembro do
ano passado. Lançaram o disco
em outros lugares e decidiram fazer
um show final em Porto Alegre, já
que só agora em junho o CD
está oficialmente sendo distribuído?
Veco:
É difícil conseguir
datas em teatros, datas legais. Nem
sempre é fácil como
a gente imaginava. Ligar para o teatro
e dizer: "Ói, queremos
fazer no dia tal". A gente está
fazendo esse aquecimento pelo Brasil
inteiro, do Paz e Amor. É claro
que tocar em Porto Alegre é
o ápice da turnê, mas
a gente ainda vai seguir, pelo menos,
até o final do ano.
Terminando
em Porto Alegre a gente já
tem Santa Catarina, vamos pra Minas,
fazer um show junto com o Capital
Inicial. A gente teve em Curitiba
e todo o interior do Rio Grande do
Sul. Então não é
uma coisa que a gente tenha premeditado
a fazer, um show final aqui em Porto
Alegre. É uma decorrência
de datas.
Thedy:
Na minha maneira de ver, a responsabilidade
de tocar em Porto Alegre é
maior. Então nós estivemos
experimentando diversas coisas, uma
parte do arranjo, para ver se funcionava.
O roteiro, por exemplo, para colocar
aqui em Porto Alegre, entende? Vamos
ensaiando na estrada para chegar aqui
e fazer o melhor possível.
Pergunta:
O disco Paz e Amor foi gravado no
Brasil e mixado na Grã-Bretanha.
Como foi a experiência de trabalhar
lá?
Veco:
Foi mixado em um estúdio onde
já gravaram o Oasis, Robert
Plant e Jimy Page. Já tem um
histórico lá. O cara
que trabalhou com a gente tem um histórico
muito legal e tem um a experiência
muito grande com o tipo de som que
a gente ouve e gosta de fazer, que
é o rock britânico, então
é um cara que não precisa
de duas palavras para entender o que
a gente quer. Sons de guitarra, colocação
de voz e bateria. Inclusive a música
"Da Janela", que foi o primeiro
single do disco Paz e Amor, palavras
deles, se essa música fosse
versionada para o inglês seria
com certeza um estouro.
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Thedy:
Pra mim foi fantástico. A música
que o Nenhum de Nós faz tem
muita raiz na música inglesa.
A gente ADORA música inglesa,
o rock inglês, tudo, em geral.
Da música pop inglesa, não
só rock, a música pop
também é boa. E, pra
gente colocar algumas idéias
desse disco de maneira clara e bem
resolvida, tecnicamente e tudo mais,
a gente resolveu tentar fazer essa
mixagem lá. Pra isso a gente
contou com o apoio da gravadora, e
o técnico de som que também
foi uma espécie de co-produtor
lá foi o Dave Charles, que
é o produtor dos Charlatans.
Então o que aconteceu, a cara
do disco ficou super bem resolvida.
O
conceito de ser uma banda de música
pop brasileira com uma influência
inglesa, com rock, um pop rock eu
diria. Os sons que a gente fez com
as guitarras foram muito elogiados
até pela Guitar Player brasileira.
Eles disseram que era legal ouvir
o disco de fones, por causa dos efeitos
que a gente deu nas guitarras. E eu
não vou dizer que a gente não
conseguiria fazer isso no Brasil,
talvez sim, mas ia levar mais tempo.
Mas aquele é um lugar que eu
realmente acho que faz diferença.
A experiência que eles têm
com rock. Desde antes dos Beatles
os caras estão acostumados
a gravar rock. Eles sabem o que estão
fazendo. Aqui no Brasil tem técnicos
muito bons, que fazem discos com sonoridades
maravilhosas, mas ainda não
é aquilo que a gente gostaria
de chegar.
Pergunta:
E essa oportunidade surgiu como?
Sady: São as maravilhas
da Internet.
Veco:
A gente já estava querendo
produzir o disco fora. Veio a calhar
que foi nesse estúdio. Um clima
todo bucólico que fez com que
o disco soasse desse jeito.
Thedy:
A gente sugeriu isso para a gravadora
e eles acharam legal e pediram para
a gente sugerir um nome. A gente teve
muita sorte, porque a gente queria
bem nesse lugar, com esse cara. E
eles podiam bem na época que
a gente podia. Então fechou
todas. Foi nesse estúdio que
o Oasis gravou What's the Story Morning
Glory (primeiro CD da banda). Este
estúdio é uma fazenda
e cada estúdio tem uma casa.
Então a gente ficou hospedado
lá. Eu estava dormindo na cama
que o Noel Gallagher dormia. E quem
cuida da fazenda e das coisas é
uma família, o Kynsley e a
família dele, uma coisa super
caseira. Um super conforto. Não
luxo, conforto.
Pergunta:
Vocês disseram que estavam procurando
uma sonoridade parecida com o som
inglês que escutam. O que vocês
tem escutado ultimamente?
Thedy:
Eu continuo ainda...(risos)...ouvindo
as coisas inglesas. Mas tem coisas
brasileiras que eu gosto, como o Jota
Quest, o Pato Fu, é uma música
pop que não é pop, continuo
gostando das outras coisas. Zeca Baleiro
é uma coisa nova e legal. Tem
muitas coisas boas, mas as bandas
inglesas são do coração.
Aquela
coisa da tradição dos
Beatles que a gente fala, das boas
bandas inglesas. Teve uma época
que não tinha, mas agora elas
voltaram, e a gente adora. Eu pelo
menos adoro. E as coisas pop, por
exemplo, o Robbie Williams, que é
pop, mas se tu vais ouvir o disco
dele, o cara é muito bom e
tem influências de John Lennon,
mais que dos Beatles. Para mim o melhor
disco até agora é o
do Suede. Eu adoro aquelas musicas.
Veco:
Eternamente Beatles, mas a gente gosta
muito de Oasis. A gente também
gosta de Charlatans, a maioria da
banda gosta de Suede. Eu não
gosto muito, mas a sonoridade da banda
é boa, eu não gosto
muito é da voz do cara. Mas
esse híbrido que a gente faz
e não encontra no rock americano.
Americano
é uma coisa que a gente distingue
a léguas. O inglês tem
mistura de violões, o próprio
acordeão, então, o ninho
era ali mesmo. A gente foi no lugar
certo.
Pergunta:
Vocês trocaram de gravadora
(da Velas para a Paradoxx). Qual foi
a mudança mais significativa?
Thedy:
Por enquanto nenhuma. O Brasil piorou
tanto que a gente não consegue
ter uma idéia exata do que
é a Paradoxx. O que a gente
vê é uma gravadora em
pedaços, tentando se recuperar
dessa situação em que
o Brasil colocou todas as gravadoras.
Só as maiores conseguem se
sustentar, com artistas que vendem
muito, com o dinheiro que vem de fora.
E gravadoras nacionais pequenas estão
se quebrando. É o caso da Paradoxx.
Veco:
Melhorou um pouco, mas não
é o que a gente deseja. Em
uma gravadora de primeiro escalão,
tu tens mais condições
para que o lançamento seja
mais completo em termos de Brasil.
Saber que ele está em Manaus
e em Viamão. Claro que lidando
com gravadoras pequenas a gente tem
a possibilidade de falar com o dono
da gravadora mais rapidamente. É
legal, mas a gente continua trabalhando
MUITO as nossas próprias custas.
Isso atravanca um pouco a banda, porque
quisera a gente só subir no
palco e tocar e no máximo fazer
uma divulgar o trabalho nas grandes
capitais do Brasil. A gente ainda
tem que pegar o carro e levar o disco.
Mas isso vai mudar.
Sady:
A distribuição
melhorou um pouco, mas a divulgação
piorou.
Pergunta:
Agora com o axé e pagode, é
preciso continuar quebrando barreiras
para ter o trabalho no centro do país,
ou já existe um nicho de público
para rock mais significativo?
Thedy:
É difícil, claro. Não
é tanto do axé e pagode.
É quebrando barreiras do jabá.
De pagar pra tocar. O momento é
de mudança. Vou te dar um exemplo.
A Jovem Pan, que é uma rádio
via satélite, uma das maiores
do Brasil, ela simplesmente tirou
o axé e pagode da programação.
O que é primeiro lugar lá?
É Offspring, tem o Raimundos,
tem o Jota Quest. Isso é o
que está tocando nessa rádio.
Isso é um indicativo muito
forte de que tem alguma coisa acontecendo.
A volta do Ultraje a Rigor fazendo
sucesso. Esses indicativos pra mim
são prova de que, primeiro:
aquela ditadura ao qual os jovens
são submetidos e que a mídia
impôs, pagode e axé durante
o verão, deixou as pessoas
fartas. Eu acho que não dá
mais.
E
muito de uma rapaziada que ouvia aquela
música e dizia: Puxa, isso
não tem NADA a ver comigo.
E o rock, e as bandas pop tem mais
a ver com esses jovens e abraçaram
essa causa.
Apesar
que eu acho que tem muitas bandas
que trabalham longe disso, que é
o caso do Nenhum de Nós, trabalham
o ano inteiro longe dessa concorrência
e desse mercado cruel e perverso,
que a música as vezes se transforma.
E a gente trabalha longe disso e consegue
manter a cabeça erguida.
Veco:
É, dá pra ver que a
esmagadora mídia ela é
dessas músicas de oportunidade,
que são essas músicas
sertanejas, esses axés da vida.
Mas é uma coisa passageira.
Tá demorando pra passar, mas
vai passar. A peneira já passou
e as porcarias foram embora e só
ficou o que tem mais a ver com esse
trabalho. Mas também, prestando
atenção, eu não
consigo distinguir o que é
um axé e um pagode, porque
eles cantam exatamente a mesma música.
Uma música romântica
e sem fundamento. Mas eu acho que
tem um público roqueiro que
é órfão, de música
e shows. Tanto que eu acho que o boom
do rock está voltando. Dá
para sentir "nas ondas do rádio"
que o rock está voltando com
força. Capital está
voltando, o Ultraje, o Engenheiros,
o Nenhum está indo para lá
agora, Jota Quest está estourando,
Pato Fu está estourando.
O
movimento está indo muito bem.
Pode ir melhor se as gravadoras pararem
de investir tanto dinheiro em porcaria
e "bunda music". Não
que o rock tenha que ser a tônica,
mas poderia Ter uma fatia maior, como
nos anos 80.
Pergunta:
O Nenhum de Nós foi muito injustiçado
nos anos 80, quando surgiu, pelo sucesso
relativamente rápido que conquistou.
O pessoal que ralava aqui em Porto
Alegre ficou um pouco chateado e falava
muito mal da banda. A coisa melhorou
ou o Nenhum de nós continua
sendo injustiçado.
Thedy:
Olha, pelos artistas locais, eu diria
que muito pelo contrário. Já
se deram conta que o Nenhum de Nós
é uma banda séria, que
tá aí para trabalhar
e veio para ficar. Seguiu uma carreira
aparte desse apelo da grande mídia
faz, a tal ponto que a gente tem uma
relação muito boa com
as novas bandas, os novos artista
que estão surgindo, esse movimento
novo do rock gaúcho, a gente
tem uma relação muito
legal com eles e eles nos respeitam
bastante. A mídia na medida
do possível nos respeita. Porque
tem gente que tem preconceito, mas
daí não é preconceito
com o Nenhum de Nós, é
com a música em geral. Mas
na medida do possível a gente
é respeitado.
E
eu diria que o que a gente mais vê
e ouve é que o Nenhum de Nós
é a maior banda gaúcha,
essa é uma coisa que nos enche
de orgulho porque a gente lutou muito,
e uma das coisas que a gente lutou
é não ter saído
do Rio Grande do Sul. Então
não adianta dizer que é
uma banda do RS e sair do Rio Grande
do Sul. Ficar falando de Porto Alegre,
com as coisas que aqui em Porto Alegre
não acontecem.
Muitos
artistas saíram daqui para
se aproximar da grande mídia
mas se afastaram dessa. E a gente
pagou esse preço. Mas é
um preço que vale a pena. Por
isso que eu acho que é merecido
quando as pessoas dizem que a gente
é a maior banda do Rio Grande
do Sul
Pergunta:
Então as previsões são
boas para 99?
Veco:
Com certeza. O Tonho (empresário)
já disse a gente não
vai parar de trabalhar tão
cedo. Vamos virar o ano 2000 trabalhando
direto. Fazendo shows.
Thedy:
Pra mim é continuar vivo. Eu
espero continuar vivo, do jeito que
a coisa vai, se até o final
do ano a banda ainda estiver trabalhando
eu vou achar o máximo. Porque
a situação econômica
está tão ruim, que ela
está ameaçando de extinção
não só os artistas da
música brasileira, como do
cinema, como micro empresas, como
grandes empresas.
Pergunta:
Justamente. Quanto a idéia
de distribuir o CD junto com o ingresso
do show. Ela é ótima,
porque todo mundo sai ganhando. A
banda tem o trabalho divulgado e o
público fica feliz porque ganha
um CD. De quem foi a idéia?
Sady:
É meio ditatorial. Não
é muito democrático.
Imagina a família que já
tem um CD, vai todo mundo da família.
Ganham um monte de CDs!! Já
tem para distribuir nos aniversários
dos amigos (risos)!!!
Thedy:
A idéia foi do nosso empresário,
o Tonho. E a gente achou fantástico
pelo seguinte. Hoje a gente faz um
show dizendo o seguinte: a gente está
lançando o nosso CD, que eu
sei que todo mundo que tá sentado
aqui tem. E compraram o ingresso e
ganharam o CD antecipadamente. Ou
seja, levaram pra casa e ouviram,
o que faz com que a gente possa tocar
todas as músicas se a gente
quiser, porque todo mundo conhece.
É uma situação
super legal, que a gente batalhou
para conseguir fazer. E aí
é que eu digo que o Nenhum
de Nós é aquele "santo
de casa que faz milagres". Esse
é um dos milagres.
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