Tem jovens e jovens. Nem todo mundo escuta
a mesma coisa e gosta da mesma coisa.
A juventude é muito sujeita mesmo...é
uma idade em que a gente está muito
aberto, procurando uma identidade firme, e
está aberto a esse tipo de sugestionamento
do qual a mídia vive. Propaganda ou
coisa assim...Então mesmo a juventude
"mais esclarecida", se é
que a gente pode fazer um corte assim, né...eu
acredito que pra eles eu não seja uma
coisa muito palatável mercadologicamente.
E eles estão procurando outro tipo
de coisa. Mas é muito legal...é
que tem uma parte do público...eu tô
falando tudo isso com adolescentes na cabeça..."teens".
Agora já com um público universitário
é uma que tem em maior número.
E sempre teve no meu trabalho. Engraçado...é
um público que permanece. Acho que
o ambiente universitário, quando o
cara ingressa na universidade, de alguma forma
o meu trabalho tem uma conexão com
esse instante, com esse pensamento. Talvez
seja exatamente isso. A valorização
do pensamento e tal...Esse pulo do colégio
para a universidade.
Agora
que tu tens site, ficou mais fácil
para os teus fãs lerem o que tu estás
pensando. Tu gosta dessa coisa de internet?
É um cara ligado em tecnologia?
Sim e não. Já fui mais.
Eu tive durante 4 ou 5 anos (até
98) uma empresa de editoração
eletrônica. Então eu sempre
estava atualizado em termos de equipamento
e de certa forma me tornava mais aficionado
da informática e da internet e de
tudo relacionado a isso. E hoje em dia,
ao contrário, tenho um equipamento
vagabundinho (risos). Mas tenho usado muito
a internet pra coisas bem específicas,
como e-mail, é claro...e pro trabalho
com música baixando coisas. Baixando
músicas, cifras, tablaturas, letras
e tal. Fora isso, navego e tal...
O
MusicaTri tem uma seção de
opinião, onde a
atual discussão é sobre
os prós e contras do MP3. Pelo que
deu pra ler na tua mensagem do site, tu
não é muito chegado em MP3,
né?
Olha, na verdade eu não quis
rasgar a bandeira mais do que...eu queria
dizer pras pessoas ali como eu disse: Se
não consegue comprar o CD, baixa
essa merda da internet! Tem tudo no Audiogalaxy,
né? Mas também não
quis que fosse uma coisa...até porque
a gravadora está a fim de vender
os discos. Quis dar uma atenuada naquilo,
na verdade. E aproveitei pra baixar uma
ripa no saco que é. Eu perdi o saco
com mp3 já. Acho depressivo. Mas
se tu não tem uma conexão
muito paulada é um saco.
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Eu
não sei onde vai parar isso, né?
Por enquanto é uma tendência,
mas a gente olha na velocidade em que as
coisas vão....de repente daqui a
dois anos vai ser muito fácil de
baixar em cinco minutos o disco, a capa
e tudo mais. Baixando DVD e tal. Então
não sei onde isso vai dar.
Qual foi o galho que deu com a Paradoxx?
Paradoxx? Dá vontade de dizer um
desaforo! O Hi-fi foi o meu disco que mais
vendeu. Claramente, o disco que mais vendeu.
Foi um disco que ficou em primeiro lugar
de vendas de várias listas. Desde
a Siciliano aqui até a Revista Sucesso
CD, etc...durante muito tempo. E eles levaram
anos pra me prestar contas de um valor equivalente
a metade do que os outros discos vendiam.
Metade do que seria a média de vendas
dos outros.
E não é nem isso, sabe...É
a dificuldade no trato com as criaturas
mesmo. Falta de ética...executivo
de gravadora que gosta de te dar chá
de cadeira, te enrolar, te fazer gastar
dez interurbanos até conseguir falar
com ele, quando consegue. é o tipo
de gravadorinha pé-no-saco e que
não vai pra lugar nenhum.
No
dia oito de maio será a última
apresentação do Cena Beatnik
em Porto Alegre. Isso quer dizer que tu
já está começando a
se dedicar para outros projetos?
A gente está começando a puxar
o freio do Cena Beatnik. Eu estou compondo
alguma coisinha do trabalho novo. Mas o
nosso cronograma é estar lançando
ele no final do ano, no mínimo. Se
é que não vai pular isso pra
março. Então, o que pode acontecer
é que entre agora e a gravação
do disco o show siga um pouquinho pelo interior.
A gente talvez vá pra fora de novo,
talvez Curitiba. E no segundo semestre rodar
como um trio, com o Paulinho Supekóvia
e o Luis Mauro (guitarrista e tecladista)
com um show pocket por aí. Repertório
de canções de outros, conhecidas.
Fazer um showzinho novo, bem light, enquanto
eu termino de preparar o disco.
Numa
bizz dos anos 80, a chamada para a matéria
era algo tipo "minha preocupação
é não me matar nos próximos
5 anos". Lembra do episódio?
O que acha, com a cabeça de agora?
Eu não me lembro. Ainda bem! Olha,
foi um momento bem difícil. Deve
ter sido, imagino, logo em seguida de um
acidente de carro, onde a minha namorada
morreu do meu lado, eu dirigindo e tal.
Então eu não me lembro, mas
se eu estava com essa preocupação,
foi uma boa preocupação. E
foi um bom resultado também, né?
E eu nunca cheguei a tentar, sequer, me
matar...Exceto dentro de uma garrafa! (risos)
Você
já fez um disco só de covers.
o que achou das regravações
que outros artistas fizeram de suas músicas?
Esse CD que vai sair agora são
dez bandas e eu estou louco pra ouvir esse
CD. Eu não escutei nada ainda. A
gravação de "Telhados
de Paris" com o Nenhum de Nós
ficou muito legal. Nós inclusive
já tocamos algumas vezes em shows.
Gostei muito da Bandaliera com Mônica
Tricomônica. Aquela música
que a Muni gravou ficou muito legal. No
geral, eu gosto muito de ver os outros gravarem.
Se o Nei Lisboa de antigamente tivesse gravado,
afinal, a versão em português
de Hey Jude, como seria o Nei Lisboa de
hoje? Um sucesso nacional? A música
foi trilha de novela, pelo que eu me lembro...
Foi! Eu acho aquela versão MUITO
ruim! Letrinha em português muito
horrível! Então seria um momento
que eu me lembraria como uma coisa infeliz.
Ia ficar como uma gravação
renegada. Na época me pareceu até
que tem implicações muito
fortes com o público. "Não,
o público não vai gostar de
mim porque eu vou me vender pro sistema".
E eu não sei se é bem assim.
Hoje as coisas são meio diferentes
na relação com o público.
E das bandas, por exemplo, com o mercado.
Antigamente era uma coisa chata e heróica
tu te posicionar. Pertencer a um determinado
público que te cobrava. Não
vender-se... Hoje em dia todo mundo quer
se vender o máximo possível
e saber lidar dentro disso.
Não
foi um problema pessoal com os Beatles então?
Não...pelo contrário...Eu
adoro Beatles e no Hi-Fi a gente gravou
...E eu achava muito difícil e com
isso eu achei o CD da Rita Lee uma maravilha.
Versão, de um modo geral, é
uma coisa muito difícil. E Beatles,
putz...de modo geral é um assassinato.
é uma sacanagem assassinar o John
Lennon de novo. Na época eu cheguei
a apresentar pra eles uma versão,
aliás...me foi apresentada uma versão
do Ronaldo Bastos e eu fui pro Rio pra gravar
a música porque a versão era
do Ronaldo Bastos. Era uma versão
bem mais legal. E ele ainda tinha me dito:
"Pode mexer. Conheço você
e gosto muito do seu trabalho". Peguei
e mexi, né? E deixei uma boa partezinha
em inglês. Deixei no original. Mas
quando eu cheguei lá, já tinham
decidido que ia ser a versão do Rossini
Pinto, que é essa que ficou aí
e tal...
No
começo da carreira você atirava
pão na platéia. O que atiraria,
atualmente, para uma platéia composta
só de músicos gaúchos?
Um
pão com manteiga, acho! Um Farroupilha...Que
que eu posso te dizer...A minha visão
da coisa ocila. De repente eu acho que é
quase um boom e que é tão
legal...Daqui a pouco parece que dá
uma morrida. Me surpreendo com bandas se
desfazendo tão rápido com
aquilo que parecia ser uma cena sólida
e que se mostra meio hesitante e tal...E
de modo geral parece que a maioria ainda
está passado por um bocado de coisas
para viver de música. Não
é muito fácil. então
eu atiraria isso...(risos)
Eu ouvi falar que tu suprimiu o uso da televisão
na tua casa. O que te revoltou ao ponto
de tomar essa atitude?
É. Eu já estou com síndrome
de abstinência...(risos). De vez em
quando eu dou uma filadinha na TV de alguém.
Mas eu andava viciado. Viciado em lixo.
Viciado em NET. Zapeando de merda pra merda,
de merda pra mais merda. Daí enchi
o saco. Aproveitei e situação
favorável. Me mudei.pra uma casa
no bairro Floresta e a televisão
ficou. Agora vou me dedicar a hortas, cortar
grama. da frente, criar cachorro, ler...Eu
recomecei a ler, porque estava sem ler há
horas. Dá uma saudade de algumas
coisas...Nada que um vídeo na casa
da namorada não resolva. Mas em compensação,
eu me livrei de todos esses Big Brother,
Casa dos Artistas, o Clone. Não sei
nada disso. No show da Rita Lee tinha umas
dez piadas sobre novela e eu não
entendi nada! Mas não tem como fugir
de jornal, revista...
Eu
te vi no show do Cordel do Fogo Encantado.
E eu estava lá me surpreendendo com
a receptividade do público porto-alegrense
para com esse tipo de cultura. Porque o
trabalho deles é diferente daquilo
que se chama Manguebeat. É uma coisa
de raiz, mas pura. O que tu achou? O público
gaúcho já não é
mais tão difícil quanto era
antes?
Eu fiquei um pouco surpreso também,
porque isso era muito da minha época.
Final dos 70. Porque o Cordel faz uma música
bem enraizada. Final dos 70 a música
nordestina estava no auge. Todo mundo queria
não somente morar em Salvador como
só ouvia Alceu Valença, Elba
Ramalho...E eu vi aquele público
e me pareceu um dejavu...Mas é bacana
porque Porto Alegre tem um público
bem segmentado. Tem um público pra
tudo. é impressionante. Pra reggae,
pra jazz, blues. Tem uma parte ali que é
diretamente ligada ao forró, que
veio como um modismo, uma onda, que acabou
pegando aqui um pouco.
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