Nei Lisboa
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"Mel Lisboa não é minha filha!": Em um almoço descontraído no bairro Floresta, Nei Lisboa conversou com o MusicaTri sobre o seu público, gravadoras, internet e muito mais.
O teu trabalho amadureceu com muita dignidade. No teu show dá pra ver pessoas de todas as idades. Por que tu achas que isso acontece? Qual é a sensação de ver gente que não era nascida quando tu começou, estar ali prestigiando teu trabalho?
Causa um certo estranhamento, assim...Tu pergunta: Puxa, o que será que eu fiz de errado. Mas eu tomo em geral como filhos do meu público, né? Gente que foi "catequizada", "conquistada" pelos pais a escutar Nei Lisboa.

Não é o caso das músicas dizerem coisas tanto pra quem já acompanhava teu trabalho antes quanto para os mais jovens?
Eu acho que sim, mas...se tu tomar pela média do que é que diz coisas aos jovens, qual é o apelo aos jovens e no que eles se ligam, eu não estou muito bem inserido. Claro que eu acho que todos deveriam escutar o que eu faço.

Tem jovens e jovens. Nem todo mundo escuta a mesma coisa e gosta da mesma coisa.
A juventude é muito sujeita mesmo...é uma idade em que a gente está muito aberto, procurando uma identidade firme, e está aberto a esse tipo de sugestionamento do qual a mídia vive. Propaganda ou coisa assim...Então mesmo a juventude "mais esclarecida", se é que a gente pode fazer um corte assim, né...eu acredito que pra eles eu não seja uma coisa muito palatável mercadologicamente. E eles estão procurando outro tipo de coisa. Mas é muito legal...é que tem uma parte do público...eu tô falando tudo isso com adolescentes na cabeça..."teens".
Agora já com um público universitário é uma que tem em maior número. E sempre teve no meu trabalho. Engraçado...é um público que permanece. Acho que o ambiente universitário, quando o cara ingressa na universidade, de alguma forma o meu trabalho tem uma conexão com esse instante, com esse pensamento. Talvez seja exatamente isso. A valorização do pensamento e tal...Esse pulo do colégio para a universidade.

Agora que tu tens site, ficou mais fácil para os teus fãs lerem o que tu estás pensando. Tu gosta dessa coisa de internet? É um cara ligado em tecnologia?
Sim e não. Já fui mais. Eu tive durante 4 ou 5 anos (até 98) uma empresa de editoração eletrônica. Então eu sempre estava atualizado em termos de equipamento e de certa forma me tornava mais aficionado da informática e da internet e de tudo relacionado a isso. E hoje em dia, ao contrário, tenho um equipamento vagabundinho (risos). Mas tenho usado muito a internet pra coisas bem específicas, como e-mail, é claro...e pro trabalho com música baixando coisas. Baixando músicas, cifras, tablaturas, letras e tal. Fora isso, navego e tal...

O MusicaTri tem uma seção de opinião, onde a atual discussão é sobre os prós e contras do MP3. Pelo que deu pra ler na tua mensagem do site, tu não é muito chegado em MP3, né?
Olha, na verdade eu não quis rasgar a bandeira mais do que...eu queria dizer pras pessoas ali como eu disse: Se não consegue comprar o CD, baixa essa merda da internet! Tem tudo no Audiogalaxy, né? Mas também não quis que fosse uma coisa...até porque a gravadora está a fim de vender os discos. Quis dar uma atenuada naquilo, na verdade. E aproveitei pra baixar uma ripa no saco que é. Eu perdi o saco com mp3 já. Acho depressivo. Mas se tu não tem uma conexão muito paulada é um saco.

Não é nem pela conexão, mas sim pela questão ética da coisa
Sinceramente, pela questão ética...eu tô me lixando. (risos). Pelo menos nesse instante. Porque tu não ganha nada com disco, sabe? Um artista com o porte de mercado que eu tenho...pra mim, pessoalmente, não muda nada. Acho que as gravadoras cobram MUITO caro pelo disco e sou a favor de coisas guerrilheiras e meio malucas como essa, de baixar qualquer música de graça.
Então, no caso, se a preocupação não é vender, o MP3 é a melhor maneira de as
pessoas conhecerem teu trabalho, graças ao alcance de distribuição na internet?

Eu não sei onde vai parar isso, né? Por enquanto é uma tendência, mas a gente olha na velocidade em que as coisas vão....de repente daqui a dois anos vai ser muito fácil de baixar em cinco minutos o disco, a capa e tudo mais. Baixando DVD e tal. Então não sei onde isso vai dar.

Qual foi o galho que deu com a Paradoxx?
Paradoxx? Dá vontade de dizer um desaforo! O Hi-fi foi o meu disco que mais vendeu. Claramente, o disco que mais vendeu. Foi um disco que ficou em primeiro lugar de vendas de várias listas. Desde a Siciliano aqui até a Revista Sucesso CD, etc...durante muito tempo. E eles levaram anos pra me prestar contas de um valor equivalente a metade do que os outros discos vendiam. Metade do que seria a média de vendas dos outros.
E não é nem isso, sabe...É a dificuldade no trato com as criaturas mesmo. Falta de ética...executivo de gravadora que gosta de te dar chá de cadeira, te enrolar, te fazer gastar dez interurbanos até conseguir falar com ele, quando consegue. é o tipo de gravadorinha pé-no-saco e que não vai pra lugar nenhum.

No dia oito de maio será a última apresentação do Cena Beatnik em Porto Alegre. Isso quer dizer que tu já está começando a se dedicar para outros projetos?
A gente está começando a puxar o freio do Cena Beatnik. Eu estou compondo alguma coisinha do trabalho novo. Mas o nosso cronograma é estar lançando ele no final do ano, no mínimo. Se é que não vai pular isso pra março. Então, o que pode acontecer é que entre agora e a gravação do disco o show siga um pouquinho pelo interior. A gente talvez vá pra fora de novo, talvez Curitiba. E no segundo semestre rodar como um trio, com o Paulinho Supekóvia e o Luis Mauro (guitarrista e tecladista) com um show pocket por aí. Repertório de canções de outros, conhecidas. Fazer um showzinho novo, bem light, enquanto eu termino de preparar o disco.

Numa bizz dos anos 80, a chamada para a matéria era algo tipo "minha preocupação é não me matar nos próximos 5 anos". Lembra do episódio? O que acha, com a cabeça de agora?
Eu não me lembro. Ainda bem! Olha, foi um momento bem difícil. Deve ter sido, imagino, logo em seguida de um acidente de carro, onde a minha namorada morreu do meu lado, eu dirigindo e tal. Então eu não me lembro, mas se eu estava com essa preocupação, foi uma boa preocupação. E foi um bom resultado também, né? E eu nunca cheguei a tentar, sequer, me matar...Exceto dentro de uma garrafa! (risos)

Você já fez um disco só de covers. o que achou das regravações que outros artistas fizeram de suas músicas?
Esse CD que vai sair agora são dez bandas e eu estou louco pra ouvir esse CD. Eu não escutei nada ainda. A gravação de "Telhados de Paris" com o Nenhum de Nós ficou muito legal. Nós inclusive já tocamos algumas vezes em shows. Gostei muito da Bandaliera com Mônica Tricomônica. Aquela música que a Muni gravou ficou muito legal. No geral, eu gosto muito de ver os outros gravarem.

Se o Nei Lisboa de antigamente tivesse gravado, afinal, a versão em português de Hey Jude, como seria o Nei Lisboa de hoje? Um sucesso nacional? A música foi trilha de novela, pelo que eu me lembro...
Foi! Eu acho aquela versão MUITO ruim! Letrinha em português muito horrível! Então seria um momento que eu me lembraria como uma coisa infeliz. Ia ficar como uma gravação renegada. Na época me pareceu até que tem implicações muito fortes com o público. "Não, o público não vai gostar de mim porque eu vou me vender pro sistema". E eu não sei se é bem assim. Hoje as coisas são meio diferentes na relação com o público. E das bandas, por exemplo, com o mercado. Antigamente era uma coisa chata e heróica tu te posicionar. Pertencer a um determinado público que te cobrava. Não vender-se... Hoje em dia todo mundo quer se vender o máximo possível e saber lidar dentro disso.

Não foi um problema pessoal com os Beatles então?
Não...pelo contrário...Eu adoro Beatles e no Hi-Fi a gente gravou ...E eu achava muito difícil e com isso eu achei o CD da Rita Lee uma maravilha. Versão, de um modo geral, é uma coisa muito difícil. E Beatles, putz...de modo geral é um assassinato. é uma sacanagem assassinar o John Lennon de novo. Na época eu cheguei a apresentar pra eles uma versão, aliás...me foi apresentada uma versão do Ronaldo Bastos e eu fui pro Rio pra gravar a música porque a versão era do Ronaldo Bastos. Era uma versão bem mais legal. E ele ainda tinha me dito: "Pode mexer. Conheço você e gosto muito do seu trabalho". Peguei e mexi, né? E deixei uma boa partezinha em inglês. Deixei no original. Mas quando eu cheguei lá, já tinham decidido que ia ser a versão do Rossini Pinto, que é essa que ficou aí e tal...

No começo da carreira você atirava pão na platéia. O que atiraria, atualmente, para uma platéia composta só de músicos gaúchos?

Um pão com manteiga, acho! Um Farroupilha...Que que eu posso te dizer...A minha visão da coisa ocila. De repente eu acho que é quase um boom e que é tão legal...Daqui a pouco parece que dá uma morrida. Me surpreendo com bandas se desfazendo tão rápido com aquilo que parecia ser uma cena sólida e que se mostra meio hesitante e tal...E de modo geral parece que a maioria ainda está passado por um bocado de coisas para viver de música. Não é muito fácil. então eu atiraria isso...(risos)

Eu ouvi falar que tu suprimiu o uso da televisão na tua casa. O que te revoltou ao ponto de tomar essa atitude?
É. Eu já estou com síndrome de abstinência...(risos). De vez em quando eu dou uma filadinha na TV de alguém. Mas eu andava viciado. Viciado em lixo. Viciado em NET. Zapeando de merda pra merda, de merda pra mais merda. Daí enchi o saco. Aproveitei e situação favorável. Me mudei.pra uma casa no bairro Floresta e a televisão ficou. Agora vou me dedicar a hortas, cortar grama. da frente, criar cachorro, ler...Eu recomecei a ler, porque estava sem ler há horas. Dá uma saudade de algumas coisas...Nada que um vídeo na casa da namorada não resolva. Mas em compensação, eu me livrei de todos esses Big Brother, Casa dos Artistas, o Clone. Não sei nada disso. No show da Rita Lee tinha umas dez piadas sobre novela e eu não entendi nada! Mas não tem como fugir de jornal, revista...

Eu te vi no show do Cordel do Fogo Encantado. E eu estava lá me surpreendendo com a receptividade do público porto-alegrense para com esse tipo de cultura. Porque o trabalho deles é diferente daquilo que se chama Manguebeat. É uma coisa de raiz, mas pura. O que tu achou? O público gaúcho já não é mais tão difícil quanto era antes?
Eu fiquei um pouco surpreso também, porque isso era muito da minha época. Final dos 70. Porque o Cordel faz uma música bem enraizada. Final dos 70 a música nordestina estava no auge. Todo mundo queria não somente morar em Salvador como só ouvia Alceu Valença, Elba Ramalho...E eu vi aquele público e me pareceu um dejavu...Mas é bacana porque Porto Alegre tem um público bem segmentado. Tem um público pra tudo. é impressionante. Pra reggae, pra jazz, blues. Tem uma parte ali que é diretamente ligada ao forró, que veio como um modismo, uma onda, que acabou pegando aqui um pouco.


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