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de estar tocando numa banda, ter pouca gente
convidada e ir pra estrada com o mesmo pessoal
com quem a gente grava. Mas, por outro lado,
às vezes, a gente fica meio neurótico
com a coisa do "isso é guitarra,
isso é baixo, isso é pop,
isso é rock", então eu
gosto de sair um pouco pra ver mais de fora
como compositor. Mas a frase continua valendo,
as letras são tão importantes
quanto a maneira como eu toco guitarra ou
que eu passe do baixo para a guitarra, que
é um negócio que traz vida
pra dentro da canção.
Eu procuro valorizar o processo em comparação
ao resultado final, o que é um discurso
meio absurdo, porque a gente vive numa necessidade
de chegar ao produto, então o processo,
às vezes, ninguém leva muito
a sério. A gente busca retratar isso,
porque eu acho que nesse lance de rock n’
roll, que é uma música brutal,
a música folk da cidade ocidental
hoje em dia, se tu tirar a espontaneidade,
essa coisa mal acabada, fica muito sem graça,
vira uma música muito limitada. E
a audição é um dos
sentidos mais conservadores que a gente
tem. Na história das artes visuais,
por exemplo, coisas que se fazia no modernismo,
agressivas visualmente no design, nos anos
70 virava desenho de tecido de sofá.
A música, não. A gente faz
mais ou menos a mesma música que
se fazia na idade média em termos
de acordes de música folk. E o que
aconteceu de uns anos pra cá é
que tentam fazer tudo super bem acabadinho,
um rock corporativo, como Aerosmith, Bon
Jovi. Nem discuto os caras qualitativamente,
mas é um rock corporativo em que
tá sempre tudo certo: contratam um
cara pra compor, pra treinar vocal, pra
isso, pra aquilo. Quando tu vê, o
que é a banda? Uma corporação.
E eu acho que essas bandas ainda são
melhores do que as boys bands, porque ainda
tem uma coisinha ali que tu sente. É
muito fácil gravar tudo certinho,
ter uma capa bonitinha: pega qualquer publicitário,
vai numa faculdade, que no 2° semestre
o cara faz bem. Mas o que é este
bem? Eu acho que tem que correr mais riscos.
A molecada das bandas hoje no Brasil tem
uma tendência a pensar corporativamente.
Por mais que seja rock n' roll e o discurso
seja de rebeldia, a molecada já não
questiona muito o ambiente em volta. E não
é uma coisa que tenha piorado o nível
das bandas, sem dúvida não,
mas é sintoma de um ambiente mais
triste que os moleques estão pegando.
Eu já não vejo os caras ousando
na carreira deles "Ah, isso eu não
vou fazer", "Isso eu não
quero". Pô, pra gente, entrar
com uma música na novela era uma
crise na banda. Quando Toda Forma de
Poder entrou, a gente pensou "E
agora? vamos largar, vamos continuar?"
Hoje é "Por favor, põe
uma música na novela".
MusicaTri:
Hoje, não é problema pro Engenheiros
ter música na “Malhação”?
Humberto: Não, mas o que
me importa é que não há
mais questionamento sobre isso. A gente
nunca foi banda elitista de não quero
música em novela, não vou
ao Chacrinha, me acho melhor do que o Gilliard.
Nunca foi, pelo contrário, a gente
sofreu muito por ser popular neste sentido
e por respeitar os artistas populares. Vai
regravar alguma coisa? Pega uma música
do Fagner antes de pegar uma do Caetano,
sabe? Mas eu sinto falta um pouco disso.
Mas eu acho que também é sacanagem
a gente ficar criticando os moleques, porque
o espaço deles é muito mais
competitivo do que quando eu comecei. Então,
de repente, esse nível de discussão
é um pouco mais sutil pra eles. É
muita banda hoje em dia, então eles
devem estar numa briga um pouco mais feroz
do que nós. E a gente teve a sorte
de que nos anos 80 o espaço não
era tão segmentado, não tinha
MTV, não tinhas essas coisas, então
tu meio que caía no mesmo bolo dos
artistas populares. Os programas eram aqueles,
tu cruzava com o Wando, e isso é
uma coisa muito enriquecedora. Quando fica
o espaço fica mais específico,
tu ganha mais tempo de exposição,
mas é um espaço segmentado.
E eu vejo isso geograficamente também.
As bandas têm mais facilidade de exposição
regional do que quando eu comecei. Por outro
lado, é mais difícil de cruzar,
porque todo lugar tem uma cena local.
MusicaTri:
O Engenheiros é uma banda gaúcha
de projeção nacional, com
público consolidado no Brasil. Tu
achas que hoje é mais fácil
ou mais difícil para os artistas
gaúchos conquistarem o circuito Rio-São
Paulo e se manterem?
Humberto: Todo ano eu cruzo uma
banda gaúcha em São Paulo,
a gente toca junto e agora vai, agora vai
e nunca vai. No Bem Brasil, um ano a gente
toca com o Papas, um ano com o Acústicos,
outro com o Cachorro Grande, e a gente vê
que eles estão sempre naquela e não
rola. Não sei por que, certamente
não é por conta das bandas
não serem boas. Também, em
Porto Alegre, a gente fica pensando "Pô,
tem uma cena legal aqui!", mas tem
cena legal em todos os lugares hoje em dia,
e isso dificulta. A gente tem essa sorte
de ter um público mais espalhado,
o que, às vezes, dá um cansaço.
Eu até brinco que seria legal unificar
os cinturões, no sentido de que temos
fãs muito fiéis e fãs
muito superficiais e isso, com o tempo,
vai descolando. Os fiéis vão
ficando mais fiéis e os superficiais
vão ficando mais superficiais. Às
vezes, parece que são duas bandas.
É difícil até tu montar
o repertório, saber com que profundidade
falar. Tem vezes que tu vai dar uma entrevista
e entra super frouxo, mas o cara sabe tudo
da banda. Daí tem outras que tu entra
falando super específico e o cara:
"Não, mas vem cá, de
onde vocês são?". As bandas
do sul tem esse ambiente mais reduzido pra
trabalhar, conhecem o cara da rádio,
podem levar o single e explicar o porquê
da letra. Eu não tenho como ser tão
pessoal no Brasil inteiro. E às vezes
que eu tentei uma aproximação
com a coisa de Porto Alegre, não
achei legal porque eu já tô
em outro estágio, já não
dá pra ficar tão à
disposição dos canais da mídia
daqui quanto as outras bandas. Então,
às vezes, cansa um pouco das regras
serem diferentes. É engraçado,
porque eu tenho que abrir um espaço
ao mesmo tempo descobrindo como fazer, porque
não tem muita banda que trafegue
assim neste ambiente intermediário,
que não é mainstream e não
é uma banda regional. Então,
a gente vai descobrindo aos trancos e barrancos.
MusicaTri:
Já que tu falaste em estar disponível
ou não para os canais, que história
é essa de a MTV ser hostil com vocês?
Humberto: Eu não sei como
é que cresceu isso, eu tenho umas
teses conspiratórias, mas são
violentas demais. É um ambiente hostil
no sentido de que, quando o canal surgiu,
a gente era uma banda com muita exposição.
Só que o Engenheiros nunca foi pra
ser "A Banda", então quando
a gente tava vendendo mais do que todo mundo,
a gente recebia muita porrada e acho que
era uma reação lógica
do sistema, afinal não era pra ser
"A Banda". Tá certo, hoje
em dia eu vejo com clareza, e isso foi no
momento em que a MTV pintou. Então
houve sempre um estranhamento em relação
à MTV. O que eu sinto é que
as coisas são bem mais difíceis
pra nós ali do que são para
outras bandas. Mas acho que não é
nada pessoal de alguém, de algo,
acho que foi um momento histórico.
Não é muito fácil Engenheiros.
Num especial do Metallica, o Sean Penn disse
que encontrou a banda no hotel e falou pra
eles, no início da carreira: Vocês
nunca vão fazer sucesso porque vocês
têm um nome muito unidimensional”.
Mas é o contrário, deveria
ser. Vocês vão fazer sucesso”,
porque Metallica, Ratos do Porão,
Legião Urbana são todos nomes
muito objetivos e únicos e é
mais fácil trabalhar com bandas assim.
MusicaTri:
O nome faz a diferença?
Humberto: O nome como significado
de um raciocínio. Tu vê que
é um raciocínio único,
sem ironia: Metallica é uma banda
de metal, Legião Urbana é
uma banda herói, Ratos de Porão
é uma banda podre, então fica
muito mais fácil de seguir. Engenheiros
do Hawaii já tem essa auto-ironia,
esse lance gaúcho, esse humor que
tu não entende muito bem, então
acho que tem essas complicações
também pro lance da MTV e da mídia
em geral. É uma banda muito particular,
difícil colocar ao lado mesmo desses
caras da minha geração. Eu
vejo que as bandas que tem um tráfego
mais tranqüilo na MTV, nos grandes
canais de mídia são bandas
que aceitam melhor os rótulos que
lhe são colocados. E o Engenheiros
nunca fez isso não por arrogância,
mas por falta de saber qual seria o meu
melhor rótulo. Eu não sei,
eu acho que eu sou MPB com rock progressivo.
Mas, nem MPB, nem rock progressivo tem espaço,
como é que vai ter espaço
uma mistura dos dois?
MusicaTri:
E aquela coisa de o Engenheiros ser uma
banda considerada gaúcha pelo Brasil
e nacional pelos gaúchos? Isto ainda
existe?
Humberto: É, e a gente é
muito rock pra pop. Se a gente vai fazer
um programa de TV da Globo, os caras acham
a gente super rock n’ roll, mas pros
roqueiros a gente é muito pop. Mas
isso é porque a vida real é
meio assim também. E acho que tu
assumir essas divisões, esses rótulos
é tu aceitar um vírus, né?
E eu quero ter liberdade pra gravar Gaúcho
da Fronteira ou Fagner ou Motorhead, então
tem esse estranhamento. Nada muito grande,
mas é que geralmente, na história
de uma banda, chega uma hora que os caras
pra entrar no negocião mesmo, abdicam
dos lados. Quando eu comecei, não
era só Engenheiros do Hawaii que
tinha um nome assim auto-irônico.
Eu uso sempre o exemplo dos Titãs:
era Titãs do Iê Iê Iê,
que faz um puta sentido, uma brincadeira
com uma coisa forte e grande e o iê
iê iê. Agora, chega o momento
em que os caras tem que escolher: ou eles
são do iê iê iê
ou eles são Titãs. E não
é uma coisa formal com o nome, é
uma atitude psicológica. Tem um momento
que todo o artista faz isso, mas ele não
chegou ainda pra gente. Quem é a
favor do Engenheiros, acha que é
bacana ter uma coisa heróica; quem
é contra, pode dizer que isso é
síndrome de Peter Pan, que é
falta de amadurecimento. Pode ser também,
uma coisa de querer ser criança a
vida inteira. Eu ainda não cheguei
à conclusão se é uma
atitude bem bacana e corajosa ou se, na
verdade, isso é uma atitude covarde,
mas é o que eu sinto de estar carregando
Engenheiros do Hawaii psicologicamente.
Eu quero compor de uma maneira pessoal,
senão não me interessa muito
arte.
MusicaTri:
Ou seja, tu continua sendo feliz com a banda
sem se importar com o que digam...
Humberto: É, continuo sendo
sujeito. Pra mim, arte só faz sentido
quando tem sujeito, quando é pessoal,
mas a indústria não trabalha
isso. Tu vê o cinema. Se tu fala em
cinema autoral hoje é como se fosse
um palavrão. Eu vejo as pessoas do
teatro divulgando peças, falando
duzentas vezes “Você vai rir
muito, você rir muito!”. As
opções de informação
que se dá ao adolescente hoje em
dia é só besteirol. Falar
sério virou pecado. Ter 3, 4 caras
que fazem piadinhas legais, bacanas, nonsense,
é legal, mas todo mundo fazendo isso
chega uma hora que tu diz: “Caralho!
Com quem é que eu posso falar sério
sem me considerarem um chato?” Tudo
é meio (imitando um chinelão):
“Pô legal, podre, pô legal!”.
Aqui no sul, então, isso é
exagerado pra caramba, porque as gírias
são todas voltadas para o que é
ruim é bom, chinelagem é que
é legal. Isso é bacana, mas
chega uma hora que enche um pouco o saco.
Tu quer alguém que fale sério,
fale sem segundas intenções.
MusicaTri:
Tu mencionaste cinema. Tu é conhecido
por não gostar de cinema...
Humberto: Esse lance de não
gostar de ir ao cinema eu até exagero,
porque é uma coisa muito absurda,
né? O cinema é como quando
descobriram o açúcar refinado:
“Como não gostar de açúcar?”.
É considerado como uma coisa acima
do bem e do mal. Mas, paraí, é
até uma provocação
que eu faço, mas tu assumir que o
cinema seria a arte de todas as artes, é
assumir que a leitura seria uma coisa incompleta,
que a música e as artes gráficas
seriam uma coisa incompleta. É um
absurdo total tu achar que juntar som com
imagem seja maior do que som e maior do
que imagem. Não é matemático.
E o que me assusta é que na minha
geração, 50 pessoas iam ali
no Bristol pra ver um filmezinho cabeça,
filmes alternativos, legal pra caralho.
Mas quando Batman ou Matrix são a
coisa, isso me dá uma claustrofobia
do cão, me dá a impressão
que tá todo mundo no mesmo pescoço,
pra cortar é uma navalha só.
Eu também questiono essa coisa, que
às vezes passa batido: os caras acham
o cd caro, mas eu acho que se tu vai com
a tua namorada ao cinema, é o preço
de um cd e ninguém acha caro. Tu
já viu alguém falar em cinema
ser caro? Não, tu só vê
as pessoas falarem como são boas
as salas hoje em dia. E comprar um cd pra
tu ouvir a vida inteira, os caras “Ah,
não tá caro!” Que lance
nonsense, né. Eu tenho défict
de atenção, eu acho, porque
é impossível ficar 2 horas
fazendo uma coisa na minha vida, ainda mais
ficar numa sala escura. Eu sofro muito pra
levar minha filha em desenho animado porque,
se eles fossem um pouco mais silenciosos,
dava pra dormir. Mas não dá,
tu pega no sono e dá umas gritarias.
Eu fui levar ela pra ver o Simbá,
dei uma cochilada, e quando acordei tinha
um polvo e os caras gritando.
MusicaTri:
E isso não acaba afetando o fato
de tu não gostar de fazer clip?
Humberto: Não. Eu gosto
de ver clip, quer dizer, não gosto
mais, acho que há muito tempo eu
não vejo um clip que não seja
uma propaganda de três minutos de
uma banda. Com o Metallica, por exemplo,
os caras querem passar a imagem de que eles
são os mais pesados de todos e tal,
num clip preto e branco numa prisão.
Aí, começa a ler como comercial.
E é nojento, porque é um comercial
muito comprido. Comercial de verdade, pelo
menos, é só 30 segundos. Mas
o que me desconecta do clip é que
quando tu faz uma música, ela tem
dez mil leituras. As pessoas até
me perguntam sobre música, e eu faço
questão de não responder,
porque o barato da música é
ter várias leituras. E no clip parece
que tu tá dando uma leitura. Isso
começou a me assustar quando, às
vezes as pessoas se referiam a música:
"A música do Dire Straits? Qual?
Aquela do clip tal". Então eu
acho que o meu lado autor tem ciúmes
do vídeo-clip. Agora, é uma
ferramenta de divulgação.
O que eu gosto dos clips é, por incrível
que pareça, o que todo mundo acha
ruim. Eu gosto dos antigos e ver que são
bem datados, bem anos 80, feitos assim porque
era pro Fantástico. Eu gosto de ver
eles como se lê um jornal antigo,
nesse sentido, eles são eternos.
Mas, como expressão de arte do autor,
eu me sinto completamente impotente pra
transar eles dessa maneira, tenho a maior
inveja dos caras que fazem a música,
gravam solo e vão fazer o clip. Eu
gostaria de ser Leonardo da Vinci, mas não
sou.
MusicaTri:
É, mas o de “Até o Fim”
tá bem caprichado, película
35 mm...
Humberto: É bom. De um tempo
pra cá, a gente faz clips bem industriais,
no patamar MTV.
MusicaTri:
Então rola uma preocupação
com o clip?
Humberto: É, pô, tem
verba em contrato pra grana do clip. A gente
tá ligado que tá nesse mundo
e tem que ter uma afirmação.
O que eu quero desvincular é a coisa
autoral do clip comigo. Deixar bem claro
que é a leitura do diretor. Eu gosto
de ver clip pra ver os instrumentos que
os caras tão tocando, eu tenho esse
coração moleque assim de ver
a banda tocando.
MusicaTri:
Tu chega a dar algum piteco nos clips?
Humberto: Não, nem vejo
eles editarem. Também não
aceito que dêem piteco na minha parte,
eu uso a roupa que eu quero. Eu até
entendo que tenha um lance profissional,
mas eu digo pra banda: "Peguem as roupas
que vocês quiserem"” Não
tem essa de "a mensagem que queremos
passar". Ela tem que ser passada na
música. Mas tu vê, a MTV tá
tocando cada vez menos clips, então
acho que até eles já sacaram
a limitação deste formato.
Até pode ser uma coisa artística,
de vez em quando, mas tem umas certas limitações
que parecem regra de NBA. Por que só
o tempo da música? Por que não
fazer um curta? Por que não um clip
que toque a metade da música? O meu
ponto é que a tecnologia te dá
a ilusão de que todo mundo pode ser
músico, diretor de clip, modelo,
hoje em dia. Mas tu não pode assumir
que um botox vai te fazer ficar mais jovem,
ou que um computador vai te fazer um diretor
de clip, essa atitude eu acho arrogante.
Então, é mais um coisa de
humildade. Até pro bem da indústria
do clip, a gente tem que dar espaço
pros diretores. Clip é que nem letra
de música, que não é
poesia, nem música, é uma
coisa específica. Então, o
lance de eu dizer que eu não dou
piteco é mais respeitoso do que desdenhoso.
É uma coisa super séria o
cara ficar dando piteco "Ah, eu quero
sair assim". Eu acho que, se eu não
vou ao cinema, isso tem que aparecer nos
meus clips. É fácil pra mim
fazer o mesmo clip que as outras bandas
fazem: contrata o cara e tal. Só
que tem que refletir a tua relação
com essas mídias todas, porque não
se pode tomar por pacífico que todo
mundo goste das coisas da mesma maneira,
cinema, chocolate, música. Eu acho
que tem que aparecer as tuas preferências
no teu trabalho.
MusicaTri:
Os engenheiros não ligam muito para
a confecção do clip, mas cuidam
horrores da composição. Isso
me remete ao fato de, antigamente, as bandas
gostarem de separar (ao menos, na teoria)
a parte artística da empresarial,
enquanto hoje toda banda procura se envolver
em tudo pra ter certeza de que vai sair
como ela quer. Os Engenheiros estão
mais para a banda à moda antiga?
Humberto: Com o lance do clip,
sim.
MusicaTri:
Não, em relação a tudo...
Humberto: Aí não.
Não é à toa que tu
liga a TV no Raul Gil e tá uma artista
popular tipo Pepe e Nenê dizendo que
o empresário fixou com o nome delas.
Tem tanto interesse de dinheiro hoje, que
ninguém mais pode ser completamente
alienado em relação a isto.
MusicaTri:
O Engenheiros é uma banda que se
cuida, então?
Humberto: Ah sim, até por
que a gente sabe que música na indústria
é mais do que só música.
Eu sei que o cabelo é importante,
mas nem por isso eu vou ao cabeleireiro.
Isso quer dizer que eu tô cagando
e andando pra cabelo? Não, mas não
quer dizer que eu vá ao cabeleireiro.
MusicaTri:
A troca constante de integrantes que o EngHaw
passa desde o fim da formação
clássica é um prato cheio
para o trocadilho de que o Engenheiros é
"O Exército de um Homem Só".
Isto te incomoda?
Humberto: Não, eu acho que
é mesmo, é um pseudônimo
assim tipo...Lulu Santos também não
é o nome do cara, Pelé não
é o nome do cara, e acho que acabou
ficando assim. Mas isso não quer
dizer que tanto faz tocar com o Augustinho
ou com o Paulinho, obviamente. Porque, por
mais que tenha mudado, não tem artista
que trabalhe mais banda do que eu. E observo
outros artistas, no sentido de quem compõe
é quem grava, quem grava é
quem vai pra estrada. Tem bandas que quem
faz a letra é um cara de fora e quem
tem um monte de músico convidado.
MusicaTri:
No Dançando no Campo Minado tu até
abriste mais o espaço pra parceria...
Humberto: Mas, pro pessoal da banda,
né. E isso sempre teve. Até
no Simples de Coração, que
era uma formação que a gente
sabia que era transitória, tem parceria
com o Cadinho, com o Deluqui, com o Cazarin.
Tu vai analisar algumas bandas, não
tem isso. Então, neste sentido, o
Engenheiros é mais banda do que vários
artistas. Eu gosto dessa limitação.
Adorava compor quando era trio porque eu
tinha que pensar como é que a gente
ia fazer aquilo tudo, e adoro compor sabendo
com quem eu vou cair na estrada. Agora,
cada vez é mais difícil alguém
entrar na banda e achar que está
no mesmo pé de igualdade comigo.
É impossível até. O
Bernardo tem 20 anos, quase a idade do Longe
Demais. Cara, eu não sei se tu perguntar
pros caras que tocam comigo agora a ordem
dos discos do Engenheiros, se eles vão
saber dizer. Às vezes, eu me esqueço.
MusicaTri:
Humberto Gessinger é um dinossauro
do rock brasileiro...
Humberto: (rindo) É. Eu,
na verdade, acho que tem duas formações
do Engenheiros a grosso modo: com o Carlos
e sem o Carlos. Eu acho que o Carlos fazia
uma super diferença. Desde o início
a gente pensava muitas coisas juntos, periféricas
à composição, mas super
importantes, tipo capa, nome da banda. Mas
é um cara que nunca compôs
comigo quando tava na banda, e agora a gente
compôs nos dois discos. Então,
banda não é um lance físico,
é meio quântico. Eu participo
dos festivais, e observo que geralmente
a gente era o único trio, agora a
gente é o único quarteto.
A gente tá sempre no lance mais banda
mesmo, por isso teria tudo pra gente não
ser percebido como tal, mas ainda nos encaram
como banda. Mas que na prática não
é, nem na formação
passada era, um lance de igualdade em relação
aos músicos: se eu disser bú,
todo mundo se assusta, não tem como
ser mais natural. A naturalidade vai sendo
criada com os discos. No segundo disco,
o pessoal já fica mais à vontade;
no terceiro já vão entrando
em contato com a realidade dos Engenheiros,
porque não é uma realidade
que tu consiga acompanhar a parada, porque
são vários núcleos
de fãs.
MusicaTri:
Muitas bandas da 'época de ouro'
dos anos 80, contemporâneas de vocês,
restauraram formações quebradas
por brigas sérias e afins, e o público
acolheu bem. Nunca, jamais te passou pela
cabeça restaurar Gessinger, Licks
e Maltz?
Humberto: Nunca pensei, mas não
é uma coisa que não possa
acontecer. Eu sei que o Carlos, que é
quem eu tenho mais contato, não é
mais um baterista. Não no sentido
de não poder mais tocar, porque acho
que tocaria igual, mas ele não tem
mais a cabeça de um baterista. E
não sei o que o Augusto é
hoje, faz muito tempo que eu não
falo com ele. Eu acho que uma banda tem
que começar ali, fazendo barulho
pra depois chegar ao produto. Não
se pode começar pelo produto. Sem
dúvida, tem um monte de gente que
gravaria um disco com sua formação
original, faria um show, mas a gente vai
começar pelo contrato? Mas, e o som?
A gente tem que começar pelo som.
MusicaTri:
E nem no auge das voltas do Capital e do
RPM, isso não surgiu?
Humberto: Não, não.
MusicaTri:
E o que tu achaste dessas voltas? Foram
válidas ou forçadas?
Humberto: Forçado não.
Tu vê, o Capital fez mais sucesso
depois, ou seja, tinha ainda um resto na
garrafa. O RPM, sem dúvida, tinha
isso também, acabou precipitadamente,
então tinha algo a fazer. É
uma sensação que eu não
tenho, por exemplo, com a segunda formação
do Engenheiros (Gessinger, Licks e Maltz).
A gente acabou as possibilidades que tinha
juntos, então, se voltasse seria
voltar pra olhar pra trás. Com a
primeira formação, do Pitz,
acho que a gente até podia ter andado
mais, foi um baque quando ele saiu. Já
a formação do Luciano, Lúcio
e o Adal também meio que esgotou.
Então voltar pra andar pra frente
é legal, mas pra olhar pra trás,
eu ainda não tô com esse time.
Eu acho que pode ser que pinte o tempo na
tua vida que tu queira dar uma olhada pra
trás, deve ser bem agradável.
Eu vejo nas bandas de fora, rola isso com
caras que até falaram mal um do outro
e tal, Emersom, Laker & Palmer, Pink
Floyd, e tu vê que o tempo passa e
as feridas fecham. O que dirá com
a gente, que não houve briga nesse
sentido. Mas teria que ser pra olhar pra
frente, porque pra trás não
vejo mais sentido. Não sinto que
a época que a gente teve mais exposição
da mídia fosse especial. Não
tenho a menor saudade de fazer Faustão
com O Papa é Pop. Mas, é claro,
tem fãs que sentem saudade disso.
MusicaTri:
Tem gente que parou naquela época...
Humberto: É o tal do fã
mais superficial, que, às vezes,
começa a te cobrar como se ele fosse
o retentor do santo gral do que seria o
Engenheiros do Hawaii. Tem od caras que
ligam assim como se tivessem ameaçando
“Acho os outros discos mais legais”.
Eu digo “Que bom, velho, eles estão
na loja, ouve eles, compra de novo”,
mas eu não tenho nada a ver com isso,
com o cara achar que era melhor antes. É
que nem quando falam mal de mim, “Legal,
falou”, mas o que tem a ver comigo
isso. É a opinião do cara.
Sabe, eu gostaria muito de tomar isso em
pílulas, melhorar e fazer todo mundo
gostar de mim, os fãs acharem que
esta é a melhor época. Não
sei, pode ser ilusão, mas que tem
muita jovialidade, principalmente nos dois
últimos trabalhos da banda. Eu, às
vezes, me assusto de ouvir e de sentir no
show como tá pulsando. Eu acho que
é um núcleo pequeno ainda
de gente assim, mas tem um nome Engenheiros
nascendo de uns anos pra cá.
MusicaTri:
Tem muita gurizada a fim da banda...
Humberto: Tem, e vendo a gente
de uma maneira muito límpida, o que
é melhor. Pode ser besteira, pode
ser que eu esteja me iludindo, mas eu sinto
um coração pulsando na estrada
e é atrás disso que eu vou.
MusicaTri:
Tu ainda acredita naquela teoria do capricorniano,
que nasce velho e vai rejuvenescendo com
o tempo? Tu estás se sentindo mais
jovem?
Humberto: Eu to. Eu me sinto mais
jovem na relação com a minha
arte, meu ofício. Sem dúvida,
eu me sinto mais livre hoje, sem responsabilidades,
o que é uma sensação
muito boa, fundamental pra fazer a arte.
Tem uma frase em Cidade em Chamas, que eu
acho meio desagradável, até
não toco a música por causa
dela, que diz que é “...preciso
trair tudo e trazer a solidão...”.
Eu sei o que eu queria dizer na época,
é uma música sobre liberdade,
mas ela pode ser muito mal-entendida. Pô,
trair tudo? Mas é uma frase também
muito importante no sentido de não
ter amarras pra fazer a tua arte, nem com
os outros, nem contigo mesmo. Às
vezes tem que fazer um disco que vai ser
vendido pouco, às vezes, é
pra ser ruim. Não ruim no sentido
de não ser bom, ruim no sentido de
provocar, ser destoante. E essa liberdade
eu tenho agora, e não acho que seja
uma liberdade num ambiente hostil, a banda
a gente tá gostando muito de tocar
junto.
MusicaTri:
Falando em liberdade de compor, tu não
acha que essa tradição do
um disco por ano não acaba podo tua
inspiração na parede? Ou tu
acredita que criação é
mais transpiração mesmo?
Humberto: Não é transpiração.
Mas a gente não tem obrigação.
É uma tradição sim,
mas não tá escrito em pedra,
tanto que a gente já ficou um ano
sem lançar e certamente se a gente
achar que não tem material não
vai gravar. Mas, é o que cara perguntou
esses dias “E se tu não tiver
motivos pra fazer uma canção,
o que acontece?”. Eu disse “Mas
isso é um belo tema pra fazer uma
canção: não ter motivos
pra fazer uma canção”.
Então, até agora não
pintou essa coisa de se sentir com uma máquina
atrás cobrando um disco. Pode ser
que pinte, aí a gente vai certamente
lutar pra não gravar, sem dúvida.
Uma vez eu falei que era que nem jornal,
que tinha que sair mesmo não tendo
notícia, e isso era mais nesse sentido
que eu te falei: de o bonito é o
processo, não o produto final, então
a busca da canção está
ali. Agora, claro, tem que ser bacana, não
pode ser uma coisa que tu não goste,
“Puta, que merda, mas vou lançar”,
sem dúvida não.
MusicaTri:
O Engenheiros mantém um mesmo padrão
Rush: três discos de estúdio
para um ao vivo. Só que agora o Rush
tá quebrando esse padrão com
o disco do Rio. Tu pensa em também
quebrar o padrão, ou sai mais um
de estúdio pra outro ao vivo?
Humberto: Ah, é engraçado,
eu tô achando super bom o show ao
vivo, acharia legal registrar isso, mas
não acho que o próximo disco
deva ser um disco ao vivo. Eu queria fazer
mais um disco primas do Surfando e do Dançando,
mais um gerúndio. Eu não sei,
as pessoas falam muito dessa coisa do acústico,
mas eu não sei.
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