|
No
dia 20 de março de 1999, fomos
recebidos por Frank Jorge, da Graforréia
Xilarmônica em sua residência,
em Porto Alegre. Ele nos concedeu
uma ótima entrevista juntamente
com o guitarrista da banda, Eduardo
Christ. Enquanto Frank respondia as
perguntas, Eduardo tirava um som no
violão.
Entrevista
e fotos Angela Joenck Pinto
Pergunta:
Como e quando surgiu a Graforréia
Xilarmônica?
Frank
Jorge: O início
da Graforréia está associado
diretamente com os Cascaveletes.
O ano de 85 foi muito importante,
porque foi o ano que eu servi no exército.
E isso é uma coisa que deixa
a pessoa louca, todos aqueles gritos
e ordens. Então eu saí
de lá e, em 86, comecei a tocar
com os Cascaveletes, porque nós
éramos amigos, ouvíamos
o mesmo som. Mas ninguém na
época tinha pretensão
de criar um movimento, como é
hoje. Parece que agora as pessoas
se reúnem com o objetivo certo
de gravar um Cd.
Nós nos reunimos como um pessoal
que se junta para jogar futebol. Eu
já tinha tido uma experiência
com o Prisão de Ventre. Comecei
a escrever com o Marcelo Birck e foi
nos Cascaveletes que eu perdi definitivamente
a vergonha de me apresentar ao vivo,
a ganhar experiência para tocar.
Pergunta:
Qual a definição
do som da banda? Benga Music?
F. Jorge: Não
tem uma definição de
som da banda. Existe o iê-iê-Iê,
a coisa Beatle, com uma coisa mais
brega. Tem ainda o Rock and Roll.
O som da Graforréia é
uma mistura de tudo que a gente ouvia.
E quando eu falo brega, pode ser por
exemplo o pessoal do iê-iê-iê
que não fez tanto sucesso.
Eu
vi uma entrevista do Gilberto Gil
dia desses que achei interessante.
Ele falava desses segmentos grandes
de público e os trabalhos voltados
para eles. Coisas como o Araketu ou
esses grupos de pagode estão
aí porque atendem a uma camada
de público. De repente, o mauricinho
lá pode até achar o
Araketu brega, mas eles atendem um
segmento muito grande de público
que acha os caras ótimos. O
Brega depende do gosto também.
Tem muito fã de rock mais pesado,
que acha a Graforréia brega.
E do brega mesmo, eu me liguei mais
no visual. Chegava a andar pela 24
de Outubro (rua de Porto Alegre) de
terno e gravata para ir para aula,
no Segundo Grau.
Quanto
a Benga Music, foi invenção
de um amigo. Ele sugeriu essa imagem
do pênis (benga) interagindo
nos acontecimentos. Como a Benga na
corte do Luís XV, a benga trazendo
a paz na América Central.
Pergunta:
Existe um tipo "padrão"
de fã?
F.
Jorge:
PADRÃO não
existe. Mas dá pra dizer que
quem curte Graforréia é
aquele cara que senta no fundo da
sala de aula. É uma pessoa
inteligente, que tem alcance a uma
alta gama de informações.
E uma coisa legal é que depois
que o Pato Fu gravou uma música
nossa, o público em São
Paulo e outros lugares se interessou
mais em conhecer o trabalho da banda.
Eles deram uma super divulgação.
O público da Graforréia
nunca parou de crescer.
Pergunta:
O primeiro disco, chamado "Coisa
de louco 2" demorou a sair (1995).
Por quê?
F.
Jorge:
Realmente, mas tem bandas que já
tem 10 anos e só agora estão
lançando cds. Demorou por vários
motivos. Antes disso, em 93, nós
gravamos uma demo com a Vortex, do
pessoal dos Replicantes.
O
Gerbase sempre deu força para
a Graforréia e é uma
pessoa muito importante para o cenário.
Nós gravamos a música
"Eu" e ela rodou bastante
na Ipanema. Eu sempre pensei que "Eu"
iria para alguma novela, porque era
super popular. Pensava em um office
boy cantando: "Eu queria tanto
encontrar, uma pessoa como eu..."
( pedaço da letra da música).
Essa demo nos levou até para
São Paulo.
Pergunta:
O disco saiu pelo selo Banguela,
do grupo Titãs...
F. Jorge: Sim,
um dia estávamos no estúdio
tocando e os Titãs apareceram
lá, ouviram o som e gostaram.
Então o Miranda (Eduardo Miranda)
nos chamou para gravar. Primeiro,
a Banguela lançou os Raimundos,
que eram únicos naquele negócio
de misturar forró e hardcore.
Depois veio o Mundo Livre, que não
era tão batucada quanto o Chico
Science.
Só
que quem cuidava da gravadora não
eram os Titãs. Ela era mal
administrada. O nome da Graforréia
não aparecia no catálogo
para o pessoal das lojas pedirem as
peças e distribuição
foi deficiente. O projeto dos Titãs
era bem intencionado, e o selo lançou
também os discos solo deles,
do Nando, do Paulo e da Kleyderman
(banda de Branco Mello). Foi um ano
ruim (95) e surgiram os Mamonas. Eles
venderam milhões de discos
quando eram muito vender 10 mil cópias.
Eu,
particularmente, não gostava
dos Mamonas. Achava o humor deles
meio óbvio. Mas eles não
morreram porque eu não gostava
deles!! Não foi minha culpa!
Um pessoal já disse até
para mim que eles eram músicos
muito bons e tudo, mas eu não
conseguia gostar.
Pergunta: Vocês
fizeram um clip do primeiro disco,
da música "Você
foi Embora". Ele rodou na MTV
e a Graforréia chegou a concorrer
como melhor clip brasileiro. A exposição
do trabalho na MTV ajudou na divulgação
da banda no centro do país?
F. Jorge:
A escolha de "Você foi
Embora" foi feita - como poderia
dizer - "de cima para baixo".
A escolha foi do Miranda, porque ele
achou que seria uma música
que pegaria bem. Não foi algo
que a banda tenha dito: "Olha,
aquela música é legal!".
Pergunta:
Mas clip na MTV não dá
sucesso para sempre, é apenas
um clip. Os Cascaveletes tiveram música
na novela e não foram um sucesso
estrondoso no Rio ou em São
Paulo, não é mesmo?
F.
Jorge:
É! A tua linha de pensamento
está certa!
Pergunta:
E a condição do rock
gaúcho fora do estado? No Brasil
ainda é possível vender
ou é preciso romper a barreira
do axé e pagode?
F.
Jorge:
Seria legal se todo mundo
vendesse, mas não é
assim. (Eduardo faz sinal positivo
com a cabeça) Mas isso também
depende da postura da banda. Para
vender mais, nós teríamos
que ir mais a São Paulo, sempre
trabalhar para ir ao Faustão,
e tudo mais. E a Graforréia
não faz isso por vários
motivos: Todo mundo tem casa, esposa,
filho, cachorro, emprego, e não
dá para ficar indo assim pra
lá e pra cá. Eu não
sou daqueles amargos que ficam culpando
a indústria. Eu não
culpo a indústria.
Pergunta:
Há um esforço em
fazer discos no Sul para o Sul?
F.
Jorge: Não
há um ESFORÇO. O Sul
é onde a gente vive e tem essa
coisa de misturar o regional e o mundial.
A Osvaldo Aranha e Woodstock. A gente
fala disso nas músicas.
Pergunta:
Mas há uma diferença
notável entre as letras do
primeiro e do segundo disco, "Chapinhas
de Ouro". Apesar das músicas
do segundo disco serem antigas, elas
não tem tantas referências
locais quanto as do primeiro. Foi
consciente para atingir novos mercados?
Eduardo:
Não é intencional.
F.
Jorge:
A Graforréia
é uma banda relativamente conhecida
por aí. E é muito conhecida
no interior. É como essas bandas
de baile que toca um pouco de covers
e músicas próprias.
Porque tem muita gente que estuda
em Porto Alegre e mora no interior.
E uma pessoa vai falando da banda
para outra, e para outra, e para outra.
A escolha das músicas não
foi feita para atingir o especificamente
mercado de São Paulo ou outro
qualquer. A escolha foi feita, mais
pela parte técnica. Nós
tínhamos 22 faixas gravadas,
e o Alexandre (Birck) foi descartando
as mais mal gravadas...(risos) Onde
alguém entrou errado ou tinha
uma guitarra ruim...
Pergunta:
As bandas do Rio Grande do Sul
são uma "comunidade feliz"
ou há uma rivalidade ? Gente
de uma banda toca com outra, como
você Frank, que toca na Graforréia
e nos Caubóis Espirituais.
F.
Jorge:
Ah! Todo mundo toca com todo mundo.
Eduardo: Eu já toquei
com o Frank em outra banda, que foi
onde eu conheci os outros caras da
Graforréia.
F.
Jorge:
As vezes nós nos sentimos desmobilizados
pela situação com a
Graforréia. Porque é
bom ver que as coisas vão bem
e tem tempos em que ficamos um período
sem fazer shows.
Pergunta:
Afinal, quem era "...o cantor
que eu sempre gostei..."? (Citado
da canção "Nunca
Diga", do primeiro disco)
F. Jorge: Não era ninguém
em especial. Podia ser um Roberto
Carlos, ou coisa assim...
Pergunta:
Quais são as expectativas
da banda para 99?
F.
Jorge:
O "Chapinhas de Ouro" ainda
precisa ser divulgado em Abril e Maio.
A prensagem de duas mil cópias
está se esgotando. Então
eu estou me obrigando a ter pique,
até porque nós não
vivemos da Graforréia. Cada
um tem um emprego, ou outra coisa
pra fazer.
O
Carlos tem a escola de música
e dá aulas lá. Eu estou
concorrendo como melhor compositor
no Prêmio Açorianos.
Para
99, ainda queremos gravar um clip
e fazer mais shows. Eu me dedico mais
a produção e tenho ainda
dois alunos particulares, para quem
dou aula de baixo e guitarra. Nós
gostaríamos de tocar no Abril
Pro Rock , mas a Graforréia
nunca entra na lista de bandas. Estamos
com uma campanha junto com o cara
da página de Rock Gaúcho
na Internet para levar a banda para
o festival. Queremos fazer um terceiro
disco, com material novo. Assim nós
vamos nos desfazendo do baú
de canções antigas.
Pergunta:
Afinal, ser músico vale
a pena?
F. Jorge: Claro! Eu me preocupo
em compor e cantar. Até porque
eu não sou um bom cantor .
Quando eu comecei a cantar com o Marcelo,
na química ficava legal. Duas
pessoas cantando mal sai bem. O Eduardo
é que canta melhor.
Eduardo:
As letras do segundo disco eu até
achei fácil de decorar porque
eu participei, mas do primeiro tive
que aprender.
F. Jorge: Vamos ver se a Graforréia
vai para São Paulo fazer shows.
Mas ninguém vai mudar para
agradar ninguém. Tem gente
que fica dizendo: "Fulano se
vendeu!" ou "Traidor do
movimento!". A Graforréia
nunca vai trair o movimento...pélvico...
(risos)
|