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Tomás
Flores, Bom Fim. Rua e bairro adequados
para abrigar uma lenda viva do rock de Porto
Alegre. Frank Jorge, 34 anos, cantor e compositor,
colorado, ex-Cascavelletes, ex-Graforréia
Xilarmônica, ex-Cowboys Espirituais, recebeu
a reportagem do Musicatri em seu apartamento
em uma noite quente e chuvosa. No fim do
ano passado, Frank lançou Carteira Nacional
de Apaixonado, seu primeiro disco solo.
Ao sair do elevador, surge o filho Erico,
de um ano e cinco meses. Primeiro sorridente,
logo começa a chorar, e não tem quem o faça
parar. - Acho que ele te estranhou - diz
o pai ao repórter, pegando a criança no
colo. Criança vestida de vermelho-colorado
e com uma guitarrinha de brinquedo na mão.
Como diz o ditado, a maçã não cai longe
do pé. Frank tem outro filho, Rafael, de
nove anos. O apartamento é abarrotado de
livros. Podem ser vistos Saramago, Poe e
uma coleção completa de Machado de Assis.
Josué Guimarães, Bukowski, Hammett e John
Fante. Marcelo Rubens Paiva, Carlos Nobre
e Eça. Luis Augusto Fischer, Frank Jorge
e João Cabral de Melo Neto. Will Eisner,
Luis Antonio de Assis Brasil e um livro
de sacanagem ganho em um dos vários Saraus
Elétricos.
Rafael Spuldar
Pergunta:
Como está a repercussão do Carteira Nacional
de Apaixonado no Rio Grande do Sul e no
resto do Brasil?
Resposta: Antes de falar da repercussão
no Rio Grande do Sul, vou esclarecer a questão
da repercussão no Sudeste, São Paulo e Rio,
digamos. O que teve de crítica positiva
do disco foi ou porque a gravadora Barulinho
mandou pros meios de comunicação, ou porque
também eu fiz contatos e mandei o disco.
Desde o tempo de Graforréia, quando ia às
vezes a São Paulo, eu fiz amizades. Tenho
amigos músicos, jornalistas, pessoal de
Internet... Tem um monte de gente que eu
achei legal conhecer o material. Então,
eu que fiz o que se viu de divulgação, seja
pela Internet, seja pelos jornais de São
Paulo. Que, por sinal, eu acho que são conceituados
só pelo fato de serem de lá. Assim, quando
sai uma crítica elogiosa, repercute muito
bem nacionalmente. Da mesma maneira que
a Bizz, que é uma das poucas publicações
do gênero; se falam bem de ti ali, todo
mundo vai ficar querendo conferir, de uma
maneira ou outra. Então, a distribuição
em si do CD não houve, não nos mesmos padrões
de uma grande gravadora. Tem pra vender
na Livraria Saraiva, então onde tiver Saraiva
no país vai ter o disco, porque eles compram
em lote. Eu sei que tem em São Paulo, parece
que tem em Curitiba, não sei se tem em outros
lugares. Pela Internet, eu já vi que tem
em outras além de São Paulo, Curitiba e
Porto Alegre. Pra não dizer que ele não
existe à venda em São Paulo, ele tem pra
vender na Livraria Saraiva e na Baratos
Afins (loja especializada, que fica na Galeria
24 de Maio, em São Paulo). É uma loja bem
conhecida, que já lançou discos, relançou
os Mutantes uma época... E o cara da minha
gravadora aqui de Porto Alegre, o Branco
da Barulinho (Carlos Fernando Berwanger),
tá vendo umas possibilidades de distribuição
nacional... Tá quase fechando uma idéia
de distribuição nacional do disco. Se tu
é morador de Curitiba, Londrina, São Paulo,
São José dos Campos, vai ter o disco. Falando
especificamente da receptividade... Porto
Alegre segue sendo uma cidade com um perfil
de produzir muita coisa, principalmente
muita música bacana, diferente, que volta
e meia alguém acaba descobrindo, alguém
de outro Estado acaba dizendo: "não, agora
é a música do Sul"... Isso pra mim não é
novidade ouvir. Já ouvi várias vezes e não
me deslumbro com isso, nem me surpreendo,
sabendo que esse material que tá sempre
sendo produzido aqui é bom. Não é porque
alguém começou a elogiar que é melhor...
Mas ao mesmo tempo existe aquela história
que "santo de casa não faz milagre", "casa
de ferreiro, espeto de pau", porque, mesmo
o meu disco sendo o primeiro solo de alguém
da Graforréia, ele teoricamente tinha já
uma expectativa grande, que se cumpriu de
certo modo. As pessoas gostaram, curtiram,
lotaram o show de lançamento no Ocidente,
com a Fernanda Takai, mas o que tu vê é
que o material, por ter aquelas peculiaridades,
por ser um trabalho de autor, uma busca
específica de arranjo pra cada música, uma
busca de linguagem que é diferenciada de
um gosto médio de rádio, é um disco que,
na minha maneira de ver, não foi digerido
ainda. Uma coisa é as pessoas ouvirem e
gostarem por já terem referências de coisas
que eu fiz, mas outra coisa é as pessoas
ouvirem, já não entenderem e desistirem.
No caso das rádios, que, independente de
terem colaborado muito com a história da
música daqui, acho que nas rádios ele é
um disco que... Eu tinha uma perspectiva
de ser melhor aproveitado, e não tá sendo.
Ao mesmo tempo, eu sigo tocando as minhas
coisas, a minha vida, não tou preocupado
se tá tocando muito ou pouco. Eu nem tenho
tempo no meu dia-a-dia pra ouvir rádio,
mas sei pelas pessoas que volta e meia toca
uma música ou outra. Hoje, a relação com
as rádios é muito boa, isso tem a ver com
o amadurecimento, de estar há tempos tocando,
mas, na minha maneira de ver, sobre a receptividade
em Porto Alegre, acho que foi boa, razoável,
não foi nenhum espetáculo, mas houve justamente
aquele fenômeno "macaco": porque os paulistas
tão falando bem lá, daí aqui começaram também.
Primeiro alguém tem que dizer "não, é do
caralho mesmo", pra alguém aqui valorizar.
Só que acho que as pessoas ainda não digeriram
totalmente o material, essa reformulação
de trabalho... Não é a Graforréia, é o Frank
Jorge, tocando algo que tem como referência
mais os Beatles e o Roberto, além da música
cubana. Então isso leva um tempo pras pessoas
assimilarem. Sobre a receptividade, eu estou
botando um ponto de vista crítico, bem virginiano,
analisando... Mas, se eu fosse raso, como
quase todo mundo, eu diria, "tá sendo do
caralho, todo mundo adorou o disco", mas
não é isso. Acho que as pessoas têm o tempo
de perceber bem como é o material. O que
eu consigo perceber bastante em Porto Alegre
é que eu estou nas Americanas, comprando
fralda pro meu filho, e vem um casal assim,
educadamente, e diz "cara, a gente adorou
o teu disco". Tu vê que tem públicos e públicos,
tem pessoas que chegam de uma maneira super
respeitosa e gostaram, tu vê que o disco
- não que eu tenha buscado isso - atingiu
um público mais maduro. Acho que o público
da Graforréia, que era uma gurizada, também
tá gostando... Acho que muito do tipo de
linguagem que eu busco, de som e de letra,
também é pra seguir agradando um público
jovem. O som que eu faço, na época da Jovem
Guarda, era direcionado aos jovens. Hoje
é um som que uma gurizada que tá com 14,
15 anos, não consegue entender todas as
referências que eu ponho ali. E tem outros
sons mais atuais, teoricamente, com estilos,
com outros timbres, outras batidas. Mas
isso é de uma relatividade tremenda, se
for analisado do ponto de vista de música-produto,
música-arte, música-expressão-individual.
Eu acho que, na medida em que um trabalho
reproduz as idéias de uma pessoa, e ela
vai em busca de colocar isso na roda, por
achar que isso é importante, isso também
tem uma atualidade tremenda. É que o tipo
de seqüência de acordes, de timbres que
eu busco, tem mais a ver com outras décadas.
Só que todo apelo, toda busca, toda batalha,
fazem com que ele se torne uma coisa atual.
Ele é vibrante, não é passadista, retrô
no sentido de "ah, como era bom o passado",
ou na letra tem uma lamúria passadista.
É um trabalho que, se eu não gostasse dele
como ficou, eu não teria prazer em tocá-lo
ao vivo, e não é o caso, é um trabalho que
se reproduz muito bem ao vivo também.
Pergunta:
Como ficou a distribuição desse disco em
relação ao que foi com a Graforréia?
Resposta: Os casos não são
muito diferentes... A Graforréia saiu pelo
selo Banguela, da Warner, e teve alguma
distribuição lá, em Rio e São Paulo. Na
real, o que teve em relação ao primeiro
disco foi que ele não foi distribuído direito...
Mas teve uma distribuição nacional, e isso
é o básico. Fiquei sabendo que, por exemplo,
o divulgador ia com o catálogo da Warner
em algumas lojas e às vezes o lojista queria
o disco da Graforréia e ele não tinha ali,
no catalogo na época. Mas teve pessoas que
compraram o disco em Brasília... Outro comprou
em Rio ou São Paulo. Mas foi mal distribuído,
porque era uma banda de um selo pequeno,
não tinha muito direcionamento. Mesmo assim,
foi importante a Graforréia ter participado
do selo Banguela, porque era a mesma dos
Raimundos, do mundo livre s.a., do Maskavo
Roots, bandas novas na cena 95/96. Isso
foi importante, viabilizou entrevistas com
a MTV, com jornais de São Paulo... No Carteira
Nacional de Apaixonado, o Branco não tem
um direcionamento de trabalhar de um jeito
brutal. Ele tem uma ótima representatividade
no meio lojista, tem uma distribuição regional,
mas não trabalha como uma grande gravadora,
que vende milhões pra atacadistas, mas sim
de uma maneira artesanal. De maneira alguma
eu quis dizer que ele não trabalha direito,
mas sim que ele trabalha aos pouquinhos.
Eu não sei quantos a Saraiva comprou, mas
quando o disco chegou a Porto Alegre, ele
já tinha na Saraiva. Daí eu sei quantos
foram - podem ter ido poucos - mas eu sei
que lá nunca faltou. E a ultima vez que
eu fui, no inicio de março, o gerente da
loja tava tri feliz, tinha dito "bah, comprei
uma caixa do teu CD!" Prum artista que não
tem outdoor na rua, não tem propaganda na
TV - o máximo que teve foram algumas mídias
de rádio - não tem folha inteira na Bizz
divulgando o disco, é bom um cara de uma
loja fazer isso. Outras lojas também tão
renovando pedidos. Tá andando bem... Num
primeiro momento, a distribuição não é tão
abrangente, é mais localizada. E ele (o
Branco) já negocia desde janeiro, fevereiro,
a melhor proposta de distribuição nacional.
Já fizeram umas três propostas, em função
da Bizz. Acho que alguma noticia boa o Branco
vai ter em breve. Eu não tou aí com ganância,
querendo vender milhões, mas é ruim o público
não ter acesso ao disco.
Pergunta: Tu já
fizeste shows em Porto Alegre, e parece
que tens shows marcados em São Paulo. Tu
já foste pra lá depois de ter lançado o
Carteira Nacional de Apaixonado?
Resposta: Eu tive experiências
muito boas em São Paulo, tocando com os
Cascavelletes e a Graforréia - com os Cowboys
Espirituais eu também fiz alguns shows lá,
e a repercussão foi menor, mas foi bacana
também - e sempre achei bacana o público
de São Paulo, por ser um público teoricamente
bem informado, convivendo com coisas do
mundo inteiro, tendo um acesso talvez mais
rápido à informação. Acho que isso hoje
tá um pouco diferente, mas acho que São
Paulo é uma cidade que me instiga a tocar
e tentar agradar, fazer com que as pessoas
entendam o que tu tá fazendo aqui em Porto
Alegre. Feito um show de lançamento em Porto
Alegre e um show de volta às aulas em março,
tu não tem muito o que ficar repetindo esse
show de divulgação do CD aqui. Então o que
pintou foi a idéia de tocar numa casa de
rock de São Paulo, que é o Orbital, no dia
14 de abril, o que tá confirmado. E também
rolou de tocar num festival em Goiânia,
o Bananada 2001, que é um nome engraçado,
mas é um festival conhecido. Os dois festivais
de Goiânia são bem conhecidos: o Goiânia
Noise e o Bananada. Eles conseguiram, acho
que no rastro de outros festivais, como
o Abril Pro Rock e outros, chamar a atenção
da mídia toda para um evento local. Já sei
de histórias da Bidê ou Balde, Wander Wildner
e Videohits que tocaram nesses festivais
em Goiânia.
Pergunta:
Depois que acabou a Graforréia, mudou a
tua maneira de trabalhar com música, desde
o fim da banda até este disco?
Resposta:
No caso da Graforréia, teve um primeiro
momento com o Marcelo Birck em que a gente
compôs muita coisa junto. Tem muitas parcerias
Marcelo Birck-Frank Jorge na Graforréia...
A banda, quando foi gravar, já era um trio,
não tinha o Birck junto, que além de ser
um grande compositor, era um grande amigo.
A Graforréia tinha eu, o Birck, o Carlo
Pianta e o Alexandre o Grande. Na verdade,
rolou primeiro uma demo pela Vórtex, que
foi com essa formação, mas daí era um registro
ao vivo... Os registros da Graforréia ainda
com o Birck fazem parte de um material que
um dia vai entrar numa caixa, um Anthology,
que é uma coisa que a gente tem a idéia
de fazer. A gente gravou como quarteto em
estúdio também, mas nenhum material que
chegou a entrar em CD. Quando a gente foi
gravar a coletânea - A Vez do Brasil- já
era um trio: o Carlo, o Alemão e eu. Na
época, teve uma direção de estúdio do Gordo
Miranda (Carlos Eduardo Miranda), a banda
não coordenou muito as coisas. E a gente
gravou em São Paulo uma coletânea que saiu
pela gravadora Eldorado em 1993. Tinha a
música "Eu", que veio a tocar muito no rádio.
Pra gravar o primeiro disco, a Graforréia
tinha um repertório enorme, e o trabalho
foi só escolher quais iam entrar. A gente
escolheu junto com o Gordo Miranda, nosso
grande amigo que hoje tá na Trama e era
do Banguela... Falando hoje assim é muito
engraçado, porque tudo parecia muito natural,
e no entanto, enfim... (pausa) Hoje em dia,
com a Graforréia não existindo, é difícil
ficar refletindo sobre isso ou que aconteceu...
Pergunta:
A dúvida era como ficou o teu trabalho como
compositor, como músico, tecnicamente...
Resposta: Eu ia chegar aí...
É que no primeiro disco, lógico, a gente
participou dos arranjos, mas tinha um produtor
ali. O Miranda não fez tanta diferença como
produtor na gravação do disco, mas, como
esse disco foi gravado no fim de 1994, início
de 1995, a banda já tinha cinco, sete anos.
Então tinha muito repertório, tudo muito
definido. Pouco se pirou, o que tinha ali
de loucura já existia, não se pirou muito
em estúdio. Daí a gente pula pra 1998, quando
a banda gravou, de maneira independente,
ou quase, um segundo disco chamado Chapinhas
de Ouro. Esse já foi diferente, a gente
não tinha produtor. A gente trabalhou de
novo com o Tomas Dreher como técnico, que
foi o do primeiro disco.. O Tomas foi pintar
na cena pop portoalegrense com a Graforréia,
isso eu tenho orgulho de dizer. Ele foi
depois trabalhar com Júpiter Maçã, Tequila
Baby, Ultramen, mas surgiu com a Graforréia,
foi um orgulho. Não é exagero dizer, eu
não gravo sem o Tomas Dreher no mínimo como
técnico pra mixar o disco. Nesse último,
ele fez a mixagem. Não pôde ser o técnico
porque tava gravando a Hard Working Band
e finalizando a Ultramen. Bom, no segundo
disco, foi uma produção muito graforréica
e a gente pirou mais na escolha de músicas,
na maneira de gravar as coisas, numa extrema
democracia graforréica. Todos com muita
capacidade pra criar arranjos, pra dar sugestões,
pra se preocupar com o material, tanto o
Carlo Pianta quanto o Alemão e eu, a gente
sempre participou bastante. Pula agora pra
2000, o meu disco... Importa lembrar também
que em 1998 eu também ia gravar o meu disco
solo no Tomas Dreher, no estúdio dele, mas
só como uma intenção de fazer um registro.
Eu pensei desse jeito: gravar as músicas
pra mim, embora no fundo sempre tenha aquela
noção de que tu pode conseguir uma gravadora
algum dia. Mas eu comecei a gravar sem muitas
preocupações e, no fim, eu tenho o Carteira
Nacional de Apaixonado de 1998, que eu divulguei
pra Fernanda Takai, pro Gordo Miranda...
Mas, embora seja um disco que tem vocais
afinados, tem muitas coisas desiguais de
mixagens e masterizações. Daí em 2000 a
Graforréia já não existia, eu tava quase
saindo dos Cowboys e eu pensei que era hora
de mostrar que eu já tinha amadurecido no
meu trabalho individual. Nesse período todo,
mesmo atuando em bandas, como instrumentista,
compositor, vocalista, sempre tive um trabalho
muito forte como compositor, que nunca parou.
Hoje mesmo eu compus uma música de uma frase
que eu vi no ônibus. Só não parei pra confirmar
no violão como eu vou fazer toda, mas eu
já fiz a letra suficiente pra uma música.
E já faço duma maneira que tu vai depurando,
vai escrevendo e já tá quase tudo valendo.
Uma frase ou outra que tu não gosta já resolve
na hora, senão deixa pra depois... É muito
um processo de trabalho atual. O que houve
no meu disco foi esse direcionamento: primeiro,
uma tomada de posição. Eu fui gravar o meu
disco sem saber como ia pagar. Isso não
é novela, acontece com muita gente, comigo
aconteceu nesse teor. Eu vinha embalado
por ter produzido o disco dos The Dárma
Lovers, vinha com uma fome de estúdio. E
com aquela noção de solidão, sem compartilhar
muito as minhas idéias com ninguém, não
tinha mais banda praticamente. Atuava nos
Cowboys, mas numa relação que já tava indo
pra uma definição. Eu já me via fora da
banda, independente de manter uma amizade
e um astral com os caras. Então eu me defini:
vou gravar meu disco, acho que consigo gravar
rápido, por ter o domínio. Eu acabei gravando
muitos instrumentos: baixo, guitarra, violão...
Isso ajudou o disco a ser rápido e barato.
Tive algumas ajudar no correr do percurso
pra pagar o estúdio, mas não foi totalmente
a gravadora que pagou, consegui algumas
ajudas. Eu mesmo paguei muitas coisas do
meu bolso, no dia-a-dia, alimentação e transporte
do pessoal... É um investimento pessoal
grande, uma noção de um investimento artístico.
É uma coisa que envolve muito um desprendimento...
Tu acreditar que as pessoas que tão trabalhando
contigo merecem condições de trabalho. Condições
essas que tu mesmo tá tendo, mas que tu
tenta passar pros outros. O que rolou foi
que eu não gravei material a mais, só o
que ia entrar no disco. E foi relativamente
bacana... Acabei num primeiro momento trabalhando
sozinho mas em seguida já entrou o Iuri
Freiberger. Foi uma das primeiras vezes
em que deu pra ver que, diferente do que
aconteceu com a Graforréia, eu compartilhei
mais os arranjos com o produtor, ele me
sugeriu coisas, ele foi atrás de equipamentos...
Se a pergunta é, depois de todo esse histórico,
objetivar, eu diria que a diferença de gravar
com a Graforréia e sozinho é: a banda tinha
um grande clima, um grande astral, de estar
com grandes amigos. Hoje a noção é diferente,
de usar o estúdio de uma maneira um pouco
mais madura, fazer render as horas de estúdio...
Gravar poucos takes que já sejam bons, na
medida que tu domina bem os arranjos. Em
termos de arranjo eu sou um cara exigente,
que busca concretizar diferentes idéias
pra cada música, e isso eu gosto de trazer
muito, e às vezes por ironia. Pode parecer
banal, mas muito do que se define de uma
música inteira eu faço às vezes no violão.
Posso definir uma linha de baixo no violão,
uma linha de teclado... o violão é o instrumento
básico de trabalho pra mim. E esse disco
foi muito bom, teve clima bom de trabalho,
com um técnico bacana lá do estúdio, que
foi o Fernando di Menor, cara que trabalha
muito com o Nenhum de Nós, o Marcelo Corsetti
deu essas condições, o René Goya, da Estação
Elétrica, deu condições também. Então eu
pude colocar uma maior diversidade de referências,
colocar coisas mais atuais, coloquei música
cubana, que eu tava ouvindo na época. E
dá pra dizer que teve um trabalho maior
de compartilhar essas idéias com um produtor,
o que na Graforréia nunca rolou muito. Mas
o principal é dizer que teve um trabalho
muito direcionado individualmente, uma exacerbação
de artista, aquela coisa "meu disco", onde
eu quero deixar claras as idéias, os arranjos.
E isso tá presente. Eu gosto muito dos discos
da Graforréia, mas com o disco solo eu tive
uma satisfação elevada de ter gostado muito
do resultado final.
Pergunta:
Como tu vês a cena musical portoalegrense
e gaúcha que vem surgindo nos últimos tempos?
Resposta: Pra variar, é uma cena
superfarta, como sempre tem coisa boa. A
gente tá falando aqui agora e uma banda
superlegal pode estar ensaiando agora no
estúdio, uma banda que a gente nem sabe
o nome. Nem eles mesmos podem fazer idéia
do quanto já são criativos, ou que já tão
prontos pra um mercado. Antes de falar de
nomes, o principal a ser visto é que o rock
gaúcho amadureceu muito a sua relação com
as indústrias do show, do disco. Tu vê bandas
- Acústicos e Valvulados, Ultramen, Comunidade
Nin-Jitsu, Papas da Língua - que são hiperestabelecidas.
Todas essas já fizeram muitas coisas importantes
em outros Estados, mas seguem sofrendo muito
daquela noção de serem bandas de Porto Alegre.
Dessa linguagem, desse sotaque, seja ele
como for... Mesmo sendo pop, ou rockabilly,
são bandas que não conseguem emplacar com
tranqüilidade no eixo Rio-São Paulo. Isso
é o velho tema que cai de volta, e não é
um problema das bandas. É uma questão de
como funciona a indústria, de como as coisas
acontecem... É um assunto vastíssimo. Mas
acho que a Bidê ou Balde e a Videohits,
por exemplo, têm muitas chances de furar
esse bloqueio. Até diria isso pelo investimento
das gravadoras nas bandas, tanto a Antídoto
quanto a Abril. Isso eu acho que começa
a ser um diferencial. As gravadoras tão
mais conscientes de trabalhar o potencial
dessas bandas. Mas eu não faço o exagero
de dizer que o que existe aqui é melhor,
embora o que tenha aqui seja hiperbacana.
Acho isso de uma relatividade tremenda,
porque tem banda boa em todo o Brasil. Conheço
muito bem por CD e por telefone o João Paulo,
da banda Mofo, de Maceió, banda que eu toco
uma música e já tinha tocado outra. É um
exemplo de banda que tá em São Paulo batalhando,
mas é de Alagoas, um lugar muito longe em
relação a São Paulo e Porto Alegre. Não
é uma banda estourada, mas tá criando seu
público e seu prestígio em São Paulo. Outra
coisa é tu analisar a relação de tudo isso
com as bandas que tão aí estouradas. Cada
uma tem uma razão por estar estourada e,
ao mesmo tempo, tem uma indústria e um gosto
médio que faz com que algumas bandas sejam
melhor assimiladas pelo público e se tornem
um produto mais fácil de ser consumido.
Capital Inicial, goste ou não goste, é uma
banda que batalhou muito, lançou alguns
discos mais ou menos, outros tão ruins que
a própria banda renega... E hoje é uma banda
que tá superfalada. No Planeta Atlântida
eu vi: dos dois dias, foi a banda que mais
mobilizou o público, cantando... Foram capas
da Bizz agora...
Pergunta:
Se criou nos anos 80 um mito que Porto Alegre
era uma cidade rock and roll, ou talvez
a cidade mais rock do Brasil... Isso já
chegou a ser verdade e, se chegou, continua
sendo?
Resposta: Por mais que eu não
consiga explicar com todos os porquês, isso
eu sou obrigado a dizer que é verdade.
Pergunta: que é a mais rock and roll?
Resposta:
Não, não vou dizer que é a mais, porque
tu vai encontrar pelo interior do Rio Grande
do Sul ou de São Paulo grandes nichos roqueiros.
Mas em Porto Alegre, quando tem um show
de blues, ou de um cara antigo da história
do rock, sempre lota. Acho que é uma cidade
que tem essa tradição. E também é difícil
estabelecer os porquês. Na real, eu acho
que isso é assim desde a época em que o
rock no Brasil começou a ganhar uma força,
um pouquinho antes da Jovem Guarda, quando
o pessoal imitava Elvis e Bill Haley. Na
Jovem Guarda teve muita banda aqui também.
No final dos anos 60 tinha o Liverpool,
que veio a ser o Bicho da Seda... E sempre
teve uma cena local forte. Mas isso é um
assunto talvez pra caras um pouco mais velhos,
para buscar os porquês de Porto Alegre ser
vista como uma cidade roqueira. Mas com
isso eu concordo plenamente. Acho que nos
anos 80, quando surgiu ali Replicantes,
TNT, Cascavelletes, De Falla, eram todas
bandas com linguagens muito próprias, bem
diferentes uma da outra, mas todas com uma
linguagem hiper rock and roll.
Pergunta: mas tu
acha que a linguagem comum dessas bandas
permanece com as bandas de hoje?
Resposta: Sim, mas cada uma
no seu estilo. Acho que o Aristóteles de
Ananias Jr., a banda que o Marcelo Birck
fez depois da Graforréia, é tão rock and
roll como Arrigo Barnabé foi rock and roll
pra música brasileira. Só que, lógico, rock
não se tratando daquela coisa de três acordes,
mas em termos de postura - embora o Birck
seja mais rock and roll do que o Arrigo
em certos ângulos. Mas é uma cidade com
uma tradição roqueira, de música ao vivo
em bares de noite. Isso tem, por mais que,
pra cena local, nunca seja suficiente o
número de bares com condições legais pra
shows. Tu tem como fazer show na Cidade
Baixa, no Dr. Jekyll, no Zelig, no próprio
Opinião, no Teatro de Elis, no Ocidente,
tem um monte de lugares...
Pergunta:
Tu estás estabelecido em Porto Alegre, com
um filho pequeno e tal, este é o teu local
de trabalho. Como é que tu vê Porto Alegre
como um mercado ou um local de trabalho
onde tu possa evoluir?
Resposta: Daí eu sou obrigado
a entrar de sola, assim como eu tive naturalidade
pra dizer que Porto Alegre é uma cidade
rock pra caramba. Agora, lidando com a prática
disso, se ela é boa o suficiente pra quem
trabalha com música, daí a questão é um
pouco difícil. Caras que tocam em Rio e
São Paulo, bandas não estabelecidas com
gravadora, vão reclamar que lá também não
tem espaço. Eu tenho amigos em bandas que
estão nesse meio, digamos, alternativo -
é um termo meio em desuso, mas... - que
também não têm como tocar seguido, tem que
batalhar seu show volta e meia. E nisso,
Porto Alegre tem opções de trabalho, mas
não que isso seja algo tranqüilo... É limitador
ao mesmo tempo. O que tem é insuficiente,
a banda tem que estabelecer metas de trabalho
e tentar tocar em outros lugares do Rio
Grande do Sul e do Brasil. Tocar em Porto
Alegre é uma condição ao mesmo tempo bacana,
porque tem público, mas imaginar que a cidade
se autosustenta é uma condição hiperlimitadora.
No meu caso, eu não tenho uma prioridade
de vida com o trabalho artístico. Eu vejo
o trabalho musical e literário, por mais
diversificado, como extensões meio óbvias
da minha personalidade. São coisas que eu
gosto de fazer, mas não vejo como meu sustento.
E isso demorou a acontecer, foi há pouco
tempo que eu vi que era inviável imaginar
uma carreira de artista, querendo viver
dessa arte. E cada artista leva seu tempo
pra perceber isso. Alguns conseguem viver
sua vida em função de sua arte, mas eu fui
vendo o caráter limitador de morar em Porto
Alegre e querer ser só músico e escritor.
Hoje eu até trabalho mais como escritor,
redator, o que gera um sustento, mas eu
tenho que batalhar outros trabalhos freelancer
nessa área. O que há é que Porto Alegre
ainda é uma das capitais bacanas de se elogiar,
por várias razões. Pelo tipo de governo...
Mas é uma cidade que segue com uma violência
brutal... Agora, voltando pra questão do
músico e do artista, tu vai ver casos e
casos. Gente que já morou em outros Estados
e voltou pra morar em Porto Alegre, e diz
que isso aqui é muito bom. Tem gente que
vai ter o estigma que São Paulo é violenta...
a violência urbana, a violência das gravadoras...
Cada um vai ter uma história, uma maneira
de ver. Eu já venho de uma noção de estar
morando há muito tempo em Porto Alegre,
meus 34 anos aqui. Já conheci outros Estados,
e tive a melhor impressão possível da viabilidade
da vida em outros lugares, e principalmente
como artista. Mas acho que hoje tenho um
direcionamento de vida. Estou em Porto Alegre,
acho que tenho que ficar aqui, mas ainda
é bacana a possibilidade de tu se imaginar
trabalhando e se divulgando pra outras pessoas,
sem que isso dependa direta ou indiretamente
de tu ter ou não gravadora. A representatividade
de um artista se deve pela convicção pessoal
de querer mostrar isso. Eu vejo como uma
ponte futura: não saberia precisar quanto
tempo vai levar pra eu tentar me estabelecer
noutra cidade, com uma profissão que eu
já venho desenvolvendo aqui. Digamos que
eu venha a morar em São Paulo como redator
de algum jornal ou revista. Isso vai ser
ponte pra eu seguir adiante com trabalho
musical e divulgar em uma cidade onde há
muito mais canais de divulgação, onde tem
circulação de pessoas do mundo muito maior...
E isso é inegável quanto a São Paulo, por
exemplo. Tu paga um preço caríssimo pela
"concretude exagerada" - até usei esse termo
num poema, era "concretude exacerbada".
Eu vejo que Porto Alegre tem um caráter
limitador, mas ao mesmo tempo é um desafio
tu quebrar esse provincianismo que ela tem.
Acho que qualquer cidade tem seu ângulo,
seu escaninho onde tem um provincianismo.
É um desafio tu seguir produzindo coisas
legais aqui, as pessoas te ligarem de Rio
e São Paulo e ficarem achando muito bacana
que tu segue em Porto Alegre - teoricamente
uma cidade que não dá todas as condições
pra um artista desenvolver um trabalho -,
mas tu segue adiante, ao invés de ficar
se lamuriando, reclamando. Eu tive um momento
"x" de falar mal de Porto Alegre, de escrever
baixando o pau em Porto Alegre, por isso
e por aquilo... Mas isso foi um ranço, uma
recaída adolescente, no ano passado. No
Sarau eu escrevi algumas coisas que não
entraram no meu livro. Momentos de extrema
tristeza pessoal com as faltas de perspectivas
já rolaram, vontade de não tocar mais, de
fazer só uma coisa que não seja música...
E isso com o tempo foi se esclarecendo,
que tu tem que buscar condições de... (pausa)
É que muito desse depoimento não é só do
cara como artista, é muito pessoal, é muito
"roda viva"... A minha experiência é essa,
é diferente de qualquer guri de banda que
ta excursionando pelo Interior - que é uma
coisa que eu vivi, principalmente com os
Cascavelletes - e é uma cara que não vai
te fornecer uma análise, um retrato de uma
realidade artística que o cara não viveu
ainda. Eu passo esse ponto de vista: Porto
Alegre é bacana, mas tem limitações. Se
tu acha que aqui esgotou, tem que buscar
outros lugares.
Pergunta:
Antes a gente tava falando das bandas que
estão começando. E as bandas e artistas
que já estão há mais tempo trabalhando?
Tu tens acompanhado o trabalho deles?
Resposta: Olha, tem muitos casos, é
difícil... Não exagerando, mas eu sempre
me dei bem com caras de todas as gerações
de música na cidade. Desde Bebeto Alves,
Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro, Zé
Caradípia... Até as bandas novas. Alguns
caras das bandas novas nem são tão novos
assim... a Tom Bloch tem o Pedro Veríssimo,
o Iuri Freiberger... Agora me fogem exemplos,
mas eu vejo gente que desiste de música
e toca a vida pra outros lados. Os exemplos
mais identificáveis de quem tá na roda e
se mantém é Nenhum de Nós, Engenheiros do
Hawaii, Replicantes, e parou por aí. Mas
cada um também com um tipo de trajetória
diferente. Acho que agora tem uma geração
que tá se estabelecendo, que é Comunidade,
Acústicos, Ultramen e Tequila Baby. Videohits
e Bidê ou Balde são de uma geração posterior,
junto com Tom Bloch, Winston, Superphones
e muitas outras bandas. Cada caso é muito
especifico do quanto conseguiu conquistar
coisas no nível local e nacional. A tendência
é a gente analisar do ponto de vista do
mercado, se tão se dando bem ou não. Eu
sou relativamente bem informado, mas é ao
mesmo tempo difícil saber em que pé está
uma banda como Engenheiros, que mudou toda
a formação de novo, Bandaliera, que está
com disco novo, que não sei se está fazendo
show... É difícil de saber, é muita banda.
O que dá pra se perceber com maior força
agora, até pelo interesse da mídia, é o
que vem acontecendo com a Bidê ou Balde
e com a Videohits, que são novas.A Sombrero
Luminoso também é uma banda nova, mas que
tem gente tarimbada, que tem uma perspectiva
de acontecer coisas legais. O Bebeco Garcia
é um cara que era do Garotos da Rua e hoje
ta com toda força. Quem tem uma convicção
de seu trabalho taí, vivo. Eu modestamente
me incluo entre os que tão aí, graças a
Deus com um trabalho renovado, não só fazendo
referência ao passado. Não tentei imitar
a Graforréia, nem ser totalmente Jovem Guarda.
Até a valorização do meu nome se deve meio
a isso, pela busca de um trabalho inédito,
novo.
Pergunta: E como
estão os teus projetos literários? No ano
passado, tu lançaste um livro na Feira do
Livro, e tem ainda o Sarau Elétrico...
Resposta: O livro não vendeu muito mais
do que eu imaginava, mas repercutiu bem
no meio musical: muitos amigos de bandas
e o público que me acompanha, e algumas
pessoas foram simpáticas. O meio literário,
independente de ter escritores jovens, é
teoricamente meio rançoso... Tem aquela
coisa, "escritor consagrado" e "escritor
novato"... Eu, embora tenha escrito a vida
inteira, nunca publiquei, fora um conto
ou outro perdido por aí. Esse livro ainda
é um primeiro livro, uma coisa rápida, de
130 paginas, ainda não consta. Daí vem aquele
momento de lançar o outro livro e ver "oh,
o cara é ou não escritor"... Eu sempre tive
uma relação muito intensa com palavras.
A biblioteca da minha casa não me deixa
mentir, (apontando para as prateleiras),
tem bastante coisa na frente e atrás também...
Tem outra estante na sala, e outra no outro
quarto... Eu sou um fominha. Acho que muitos
escritórios e bibliotecas bagunçados que
eu vi pelo mundo, em casas de pessoas importantes,
demonstram essa mesma obsessão pela leitura.
Já vi bibliotecas lindas e muito bagunçadas,
que mostram no mínimo a obsessão do cara,
preocupado em ler e não tão preocupado em
arrumar. Eu, como virginiano, gosto de ter
as coisas arrumadas, mas não dou conta,
tamanho é o volume de coisas por fazer.
Esse negócio do livro foi bacana... Teve
o João Gilberto Noll, que falou muito bem,
fiquei feliz pra caramba. Ele é um autor
que eu li muito na faculdade, tenho muitos
livros dele (mostra alguns exemplares).
A Cíntia Moscovich foi muito querida, uma
pessoa que já publicou uns três ou quatro
livros de contos e é a atual diretora do
Instituto Estadual do Livro...
Pergunta:
Tu tens algum projeto literário pra agora?
Resposta: O que existe é que o meu livro
saiu numa espécie de coleção, junto com
o do (Carlos) Gerbase e do Paulo Ribeiro.
Era um formato, 130 paginas. Mas se fosse
possível, teria publicado um de 260. Se
eu fosse por uma via só do comodismo, eu
teria um livro pronto pra colocar na roda
agora. Só que essa escrita é nervosa, ela
segue rolando, tem dias em que eu não escrevo.
A minha perspectiva é lançar um livro um
pouquinho maior, porque é diferente. Tem
pessoas que disseram - não que eu tenha
me ofendido - "eu li o teu livro numa manhã".
Eu fico feliz, mas ao mesmo tempo eu tenho
muito mais coisa pra mostrar.
Pergunta:
E a tua próxima obra vai por um caminho
parecido da primeira?
Resposta: É semelhante... poemas
meio caóticos, mas misturando muita informação.
Faço todo um liquidificador, e com uma escolha
de palavras que torne a coisa musical de
se ler. É um bom teste pra quem tem o meu
livro é ler em voz alta, porque as palavras
adquirem uma "crocância" maior na medida
em que elas são lidas. Eu diria que 50%
do livro eu escrevi pro Sarau, os outros
50% são inéditos, poemas ou contos com maiores
pretensões literárias... Mas justamente
o meu barato é eu não ter uma preocupação
com o gênero literário que eu tou escrevendo,
se é conto, se é crônica, se é poema. O
estilo eu tenho, é o meu estilo, não é exagero
nem falsa modéstia em dizer. Eu já tenho
o meu estilo na maneira de escrever, de
cantar, de tocar... Às vezes pode ser uma
historia, às vezes pode ser um poema misturando
coisas do dia a dia. Mas vai ter um traço
muito pessoal, que me identifica pra caramba.
O material que eu já tou escrevendo que
eu poderia compilar e ter à disposição,
certamente vem num volume maior. É até uma
satisfação pessoal ver um livro maior. Pra
mim é desafiador.
Pergunta:
O projeto do Sarau Elétrico continua em
2001?
Resposta: Continua, todas as
terças no Ocidente. Hoje eu já escrevo alguma
coisa pra amanhã. Coisas que eu não li na
semana passada eu guardo e leio. A coisa
é difícil de conciliar com dois filhos e
trabalho, mas é viável, dá pra conciliar.
Eu já não faço muito show mesmo... E o trabalho
como escritor me instiga, acho bastante
desafiador. Leio muito, no ônibus inclusive.
Leio jornal quase sempre, mas rápido. Se
eu começo a ler jornal em muitos momentos
do dia, eu sei que tou perdendo tempo, jornal
não é lá essas coisas. E agora estou lendo
um livro do Edmund Wilson, o Castelo de
Axel, que fala sobre simbolistas. Tem muito
Erico Veríssimo. Tem os infantis na sala,
pros filhos. Pra esse ano, o Sarau é um
desafio, mas eu vou manter esse compromisso
e fazer um show volta e meia. Tou mais preocupado
em divulgar o disco em outros Estados. São
amigos de outros lugares que ligam pedindo
material, são jornalistas que não receberam
e ouviram falar, não tem uma semana em que
eu não receba dois, três telefonemas de
pessoas que querem o disco. Mas por enquanto
só São Paulo e Goiânia estão confirmados.
Tem um pra confirmar em Carlos Barbosa,
no inicio de maio, que é um lugar muito
bom pra show, atende bem aquela região -
Carlos Barbosa, Bento, Garibaldi. A gente
tava falando de Porto Alegre como uma cidade
rock and roll... Carlos Barbosa é uma cidade
MUITO rock and roll. Tem muita banda lá...
Pergunta:
Tu tens um disco novo já engatilhado...
Resposta: Uma
coisa que já sentia na época da Graforréia,
dos Cascavelletes e dos Cowboys era aquela
demora em sair os discos. Um disco era uma
coisa que tu pensava lá, volta e meia, pensava
em descolar grana... Hoje em dia isso está
diferente. Naquela época, tu gravava uma
música e tentava botar no rádio. Disco,
tu ia pensar muito depois, tinha que ter
todo um planejamento, um direcionamento
de banda, independente de tu ter muitas
músicas. Nesse período todo, com essas bandas
que eu citei, Graforréia, Cascavelletes
e Cowboys, eu já me ressentia de como era
difícil lançar um disco, enquanto a gente
poderia a cada ano lançar um disco, assim
como os Beatles, como David Bowie, ou qualquer
um... Foi fruto de esforço, não foi fácil,
mas lancei meu primeiro disco, no fim do
ano passado. Só que também, entrando o ano,
a coisa ficou bem nítida que os interesses
das gravadoras não se confirmaram... Daí
eu percebi que eu tinha que correr atrás
do segundo disco duma vez, no sentido de
começar a se organizar. Eu já tenho uma
idéia de nome - "Vida de Verdade" - tenho
uma seleção de umas músicas... Na real,
eu não vou falar desse disco, e sim fazer
ele enquanto eu divulgo o primeiro. Eu nem
temo que desgaste o nome, eu já comecei
a falar pra outras pessoas. É que esse é
o nome de uma música que eu já gravei em
1998 e tou tocando direto nos shows, uma
música que tem a ver com Beatles, Beach
Boys... Tem um arranjo que lembra o "Pet
Sounds". Eu já listei essas músicas como
se já fosse um disco, já passaram de 20,
e tou compondo outras novas, quero compor
uma outras latina... Como eu toco direto
como guitarrista nos shows, eu estou compondo
umas guitarras que lembrem The Who, The
Jam, Beatles... No meu pensamento diário,
estão a leitura, a música, o meu filho,
embora eu me concentre na hora do trabalho.
Meus filhos são a coisa mais importante
a ser destacada, porque eles me motivam.
Eles me instigam a viver, a produzir material,
a correr atrás do leite pra eles. É um estimulo,
não é bem uma satisfação pessoal. Acho que
muito da arte lida com isso, com uma realização
pessoal do artista, e no meu caso ela está
vinculada a externar essa sensação de estar
vivendo e ter que gerenciar idéias e filhos
e múltiplas atribuições e responsabilidades.
O meu depoimento de artista está muito vinculado
à rotina de um cara que trabalha e tem filhos.
Muito do que eu faço também é por eles.
Ainda que leve um tempo, isso vai se valorizar
mais ainda, até pela questão de direitos
autorais, e como um testemunho eterno que
fica de um disco. O Sean Lennon vai a vida
inteira pegar o "Help!" e olhar seu pai
cantando. Esse tipo de noção é uma coisa
bacana que tu deixa pros filhos. Tem um
tom emotivo, e é pra ter mesmo. Eu perdi
o meu pai muito cedo, mas ele me deixou
coisas, muito mais do que um sobrenome bacana.
Ele deixou a noção de que vale a pena estudar.
As pessoas que conviveram com ele eram pessoas
que valorizaram a figura dele, disseram
que ele tinha seus valores, era uma pessoa
honesta...
Pergunta:
Tu tens alguma parceria em vista para esse
ano, com alguém de Porto Alegre ou de fora?
Resposta: A parceria fundamental
da minha vida é com o Marcelo Birck, que
é meu amigo de infância e um puta compositor,
um grande maestro que essa cidade vai conhecer.
Ele estuda Composição e Regência e é professor
de Música no Instituto de Artes da Ufrgs.
Parcerias... rolaram poucas, uma com o Plato
Dvorak, uma com o Flávio Basso, uma ou outra
com o Julio Reny, mas eu não tenho muitos
projetos... com o Iuri Freiberger rola uma
sintonia muito grande hoje. Pra esse primeiro
disco, rolou uma parceria com ele. Mas parceria
de projeção nacional, não tem nada. E nem
em Porto Alegre, até porque eu acho que
ainda tenho muito a trabalhar e muito a
colocar na roda de coisas pessoais que eu
tenho vontade de ter um certo domínio. Mas
não no sentido nefasto da palavra, mas uma
certa autonomia de trabalho. Mas não sou
fechado de maneira alguma a parcerias. O
que aconteceu de inusitado foi eu compor
uma música pros The Dárma Lovers, mas eu
não tenho certeza se eles vão tocar, porque
eu dei uma complicada nos acordes... Mas
eles são outros amigos geniais que tão na
mira também pra eu produzir o segundo disco.
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