Frank Jorge
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Tomás Flores, Bom Fim. Rua e bairro adequados para abrigar uma lenda viva do rock de Porto Alegre. Frank Jorge, 34 anos, cantor e compositor, colorado, ex-Cascavelletes, ex-Graforréia Xilarmônica, ex-Cowboys Espirituais, recebeu a reportagem do Musicatri em seu apartamento em uma noite quente e chuvosa. No fim do ano passado, Frank lançou Carteira Nacional de Apaixonado, seu primeiro disco solo. Ao sair do elevador, surge o filho Erico, de um ano e cinco meses. Primeiro sorridente, logo começa a chorar, e não tem quem o faça parar. - Acho que ele te estranhou - diz o pai ao repórter, pegando a criança no colo. Criança vestida de vermelho-colorado e com uma guitarrinha de brinquedo na mão. Como diz o ditado, a maçã não cai longe do pé. Frank tem outro filho, Rafael, de nove anos. O apartamento é abarrotado de livros. Podem ser vistos Saramago, Poe e uma coleção completa de Machado de Assis. Josué Guimarães, Bukowski, Hammett e John Fante. Marcelo Rubens Paiva, Carlos Nobre e Eça. Luis Augusto Fischer, Frank Jorge e João Cabral de Melo Neto. Will Eisner, Luis Antonio de Assis Brasil e um livro de sacanagem ganho em um dos vários Saraus Elétricos.

Rafael Spuldar

Pergunta: Como está a repercussão do Carteira Nacional de Apaixonado no Rio Grande do Sul e no resto do Brasil?
Resposta:
Antes de falar da repercussão no Rio Grande do Sul, vou esclarecer a questão da repercussão no Sudeste, São Paulo e Rio, digamos. O que teve de crítica positiva do disco foi ou porque a gravadora Barulinho mandou pros meios de comunicação, ou porque também eu fiz contatos e mandei o disco. Desde o tempo de Graforréia, quando ia às vezes a São Paulo, eu fiz amizades. Tenho amigos músicos, jornalistas, pessoal de Internet... Tem um monte de gente que eu achei legal conhecer o material. Então, eu que fiz o que se viu de divulgação, seja pela Internet, seja pelos jornais de São Paulo. Que, por sinal, eu acho que são conceituados só pelo fato de serem de lá. Assim, quando sai uma crítica elogiosa, repercute muito bem nacionalmente. Da mesma maneira que a Bizz, que é uma das poucas publicações do gênero; se falam bem de ti ali, todo mundo vai ficar querendo conferir, de uma maneira ou outra. Então, a distribuição em si do CD não houve, não nos mesmos padrões de uma grande gravadora. Tem pra vender na Livraria Saraiva, então onde tiver Saraiva no país vai ter o disco, porque eles compram em lote. Eu sei que tem em São Paulo, parece que tem em Curitiba, não sei se tem em outros lugares. Pela Internet, eu já vi que tem em outras além de São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Pra não dizer que ele não existe à venda em São Paulo, ele tem pra vender na Livraria Saraiva e na Baratos Afins (loja especializada, que fica na Galeria 24 de Maio, em São Paulo). É uma loja bem conhecida, que já lançou discos, relançou os Mutantes uma época... E o cara da minha gravadora aqui de Porto Alegre, o Branco da Barulinho (Carlos Fernando Berwanger), tá vendo umas possibilidades de distribuição nacional... Tá quase fechando uma idéia de distribuição nacional do disco. Se tu é morador de Curitiba, Londrina, São Paulo, São José dos Campos, vai ter o disco. Falando especificamente da receptividade... Porto Alegre segue sendo uma cidade com um perfil de produzir muita coisa, principalmente muita música bacana, diferente, que volta e meia alguém acaba descobrindo, alguém de outro Estado acaba dizendo: "não, agora é a música do Sul"... Isso pra mim não é novidade ouvir. Já ouvi várias vezes e não me deslumbro com isso, nem me surpreendo, sabendo que esse material que tá sempre sendo produzido aqui é bom. Não é porque alguém começou a elogiar que é melhor... Mas ao mesmo tempo existe aquela história que "santo de casa não faz milagre", "casa de ferreiro, espeto de pau", porque, mesmo o meu disco sendo o primeiro solo de alguém da Graforréia, ele teoricamente tinha já uma expectativa grande, que se cumpriu de certo modo. As pessoas gostaram, curtiram, lotaram o show de lançamento no Ocidente, com a Fernanda Takai, mas o que tu vê é que o material, por ter aquelas peculiaridades, por ser um trabalho de autor, uma busca específica de arranjo pra cada música, uma busca de linguagem que é diferenciada de um gosto médio de rádio, é um disco que, na minha maneira de ver, não foi digerido ainda. Uma coisa é as pessoas ouvirem e gostarem por já terem referências de coisas que eu fiz, mas outra coisa é as pessoas ouvirem, já não entenderem e desistirem. No caso das rádios, que, independente de terem colaborado muito com a história da música daqui, acho que nas rádios ele é um disco que... Eu tinha uma perspectiva de ser melhor aproveitado, e não tá sendo. Ao mesmo tempo, eu sigo tocando as minhas coisas, a minha vida, não tou preocupado se tá tocando muito ou pouco. Eu nem tenho tempo no meu dia-a-dia pra ouvir rádio, mas sei pelas pessoas que volta e meia toca uma música ou outra. Hoje, a relação com as rádios é muito boa, isso tem a ver com o amadurecimento, de estar há tempos tocando, mas, na minha maneira de ver, sobre a receptividade em Porto Alegre, acho que foi boa, razoável, não foi nenhum espetáculo, mas houve justamente aquele fenômeno "macaco": porque os paulistas tão falando bem lá, daí aqui começaram também. Primeiro alguém tem que dizer "não, é do caralho mesmo", pra alguém aqui valorizar. Só que acho que as pessoas ainda não digeriram totalmente o material, essa reformulação de trabalho... Não é a Graforréia, é o Frank Jorge, tocando algo que tem como referência mais os Beatles e o Roberto, além da música cubana. Então isso leva um tempo pras pessoas assimilarem. Sobre a receptividade, eu estou botando um ponto de vista crítico, bem virginiano, analisando... Mas, se eu fosse raso, como quase todo mundo, eu diria, "tá sendo do caralho, todo mundo adorou o disco", mas não é isso. Acho que as pessoas têm o tempo de perceber bem como é o material. O que eu consigo perceber bastante em Porto Alegre é que eu estou nas Americanas, comprando fralda pro meu filho, e vem um casal assim, educadamente, e diz "cara, a gente adorou o teu disco". Tu vê que tem públicos e públicos, tem pessoas que chegam de uma maneira super respeitosa e gostaram, tu vê que o disco - não que eu tenha buscado isso - atingiu um público mais maduro. Acho que o público da Graforréia, que era uma gurizada, também tá gostando... Acho que muito do tipo de linguagem que eu busco, de som e de letra, também é pra seguir agradando um público jovem. O som que eu faço, na época da Jovem Guarda, era direcionado aos jovens. Hoje é um som que uma gurizada que tá com 14, 15 anos, não consegue entender todas as referências que eu ponho ali. E tem outros sons mais atuais, teoricamente, com estilos, com outros timbres, outras batidas. Mas isso é de uma relatividade tremenda, se for analisado do ponto de vista de música-produto, música-arte, música-expressão-individual. Eu acho que, na medida em que um trabalho reproduz as idéias de uma pessoa, e ela vai em busca de colocar isso na roda, por achar que isso é importante, isso também tem uma atualidade tremenda. É que o tipo de seqüência de acordes, de timbres que eu busco, tem mais a ver com outras décadas. Só que todo apelo, toda busca, toda batalha, fazem com que ele se torne uma coisa atual. Ele é vibrante, não é passadista, retrô no sentido de "ah, como era bom o passado", ou na letra tem uma lamúria passadista. É um trabalho que, se eu não gostasse dele como ficou, eu não teria prazer em tocá-lo ao vivo, e não é o caso, é um trabalho que se reproduz muito bem ao vivo também.

Pergunta: Como ficou a distribuição desse disco em relação ao que foi com a Graforréia?
Resposta:
Os casos não são muito diferentes... A Graforréia saiu pelo selo Banguela, da Warner, e teve alguma distribuição lá, em Rio e São Paulo. Na real, o que teve em relação ao primeiro disco foi que ele não foi distribuído direito... Mas teve uma distribuição nacional, e isso é o básico. Fiquei sabendo que, por exemplo, o divulgador ia com o catálogo da Warner em algumas lojas e às vezes o lojista queria o disco da Graforréia e ele não tinha ali, no catalogo na época. Mas teve pessoas que compraram o disco em Brasília... Outro comprou em Rio ou São Paulo. Mas foi mal distribuído, porque era uma banda de um selo pequeno, não tinha muito direcionamento. Mesmo assim, foi importante a Graforréia ter participado do selo Banguela, porque era a mesma dos Raimundos, do mundo livre s.a., do Maskavo Roots, bandas novas na cena 95/96. Isso foi importante, viabilizou entrevistas com a MTV, com jornais de São Paulo... No Carteira Nacional de Apaixonado, o Branco não tem um direcionamento de trabalhar de um jeito brutal. Ele tem uma ótima representatividade no meio lojista, tem uma distribuição regional, mas não trabalha como uma grande gravadora, que vende milhões pra atacadistas, mas sim de uma maneira artesanal. De maneira alguma eu quis dizer que ele não trabalha direito, mas sim que ele trabalha aos pouquinhos. Eu não sei quantos a Saraiva comprou, mas quando o disco chegou a Porto Alegre, ele já tinha na Saraiva. Daí eu sei quantos foram - podem ter ido poucos - mas eu sei que lá nunca faltou. E a ultima vez que eu fui, no inicio de março, o gerente da loja tava tri feliz, tinha dito "bah, comprei uma caixa do teu CD!" Prum artista que não tem outdoor na rua, não tem propaganda na TV - o máximo que teve foram algumas mídias de rádio - não tem folha inteira na Bizz divulgando o disco, é bom um cara de uma loja fazer isso. Outras lojas também tão renovando pedidos. Tá andando bem... Num primeiro momento, a distribuição não é tão abrangente, é mais localizada. E ele (o Branco) já negocia desde janeiro, fevereiro, a melhor proposta de distribuição nacional. Já fizeram umas três propostas, em função da Bizz. Acho que alguma noticia boa o Branco vai ter em breve. Eu não tou aí com ganância, querendo vender milhões, mas é ruim o público não ter acesso ao disco.

Pergunta: Tu já fizeste shows em Porto Alegre, e parece que tens shows marcados em São Paulo. Tu já foste pra lá depois de ter lançado o Carteira Nacional de Apaixonado?
Resposta:
Eu tive experiências muito boas em São Paulo, tocando com os Cascavelletes e a Graforréia - com os Cowboys Espirituais eu também fiz alguns shows lá, e a repercussão foi menor, mas foi bacana também - e sempre achei bacana o público de São Paulo, por ser um público teoricamente bem informado, convivendo com coisas do mundo inteiro, tendo um acesso talvez mais rápido à informação. Acho que isso hoje tá um pouco diferente, mas acho que São Paulo é uma cidade que me instiga a tocar e tentar agradar, fazer com que as pessoas entendam o que tu tá fazendo aqui em Porto Alegre. Feito um show de lançamento em Porto Alegre e um show de volta às aulas em março, tu não tem muito o que ficar repetindo esse show de divulgação do CD aqui. Então o que pintou foi a idéia de tocar numa casa de rock de São Paulo, que é o Orbital, no dia 14 de abril, o que tá confirmado. E também rolou de tocar num festival em Goiânia, o Bananada 2001, que é um nome engraçado, mas é um festival conhecido. Os dois festivais de Goiânia são bem conhecidos: o Goiânia Noise e o Bananada. Eles conseguiram, acho que no rastro de outros festivais, como o Abril Pro Rock e outros, chamar a atenção da mídia toda para um evento local. Já sei de histórias da Bidê ou Balde, Wander Wildner e Videohits que tocaram nesses festivais em Goiânia.

Pergunta: Depois que acabou a Graforréia, mudou a tua maneira de trabalhar com música, desde o fim da banda até este disco?
Resposta:
No caso da Graforréia, teve um primeiro momento com o Marcelo Birck em que a gente compôs muita coisa junto. Tem muitas parcerias Marcelo Birck-Frank Jorge na Graforréia... A banda, quando foi gravar, já era um trio, não tinha o Birck junto, que além de ser um grande compositor, era um grande amigo. A Graforréia tinha eu, o Birck, o Carlo Pianta e o Alexandre o Grande. Na verdade, rolou primeiro uma demo pela Vórtex, que foi com essa formação, mas daí era um registro ao vivo... Os registros da Graforréia ainda com o Birck fazem parte de um material que um dia vai entrar numa caixa, um Anthology, que é uma coisa que a gente tem a idéia de fazer. A gente gravou como quarteto em estúdio também, mas nenhum material que chegou a entrar em CD. Quando a gente foi gravar a coletânea - A Vez do Brasil- já era um trio: o Carlo, o Alemão e eu. Na época, teve uma direção de estúdio do Gordo Miranda (Carlos Eduardo Miranda), a banda não coordenou muito as coisas. E a gente gravou em São Paulo uma coletânea que saiu pela gravadora Eldorado em 1993. Tinha a música "Eu", que veio a tocar muito no rádio. Pra gravar o primeiro disco, a Graforréia tinha um repertório enorme, e o trabalho foi só escolher quais iam entrar. A gente escolheu junto com o Gordo Miranda, nosso grande amigo que hoje tá na Trama e era do Banguela... Falando hoje assim é muito engraçado, porque tudo parecia muito natural, e no entanto, enfim... (pausa) Hoje em dia, com a Graforréia não existindo, é difícil ficar refletindo sobre isso ou que aconteceu...

Pergunta: A dúvida era como ficou o teu trabalho como compositor, como músico, tecnicamente...
Resposta:
Eu ia chegar aí... É que no primeiro disco, lógico, a gente participou dos arranjos, mas tinha um produtor ali. O Miranda não fez tanta diferença como produtor na gravação do disco, mas, como esse disco foi gravado no fim de 1994, início de 1995, a banda já tinha cinco, sete anos. Então tinha muito repertório, tudo muito definido. Pouco se pirou, o que tinha ali de loucura já existia, não se pirou muito em estúdio. Daí a gente pula pra 1998, quando a banda gravou, de maneira independente, ou quase, um segundo disco chamado Chapinhas de Ouro. Esse já foi diferente, a gente não tinha produtor. A gente trabalhou de novo com o Tomas Dreher como técnico, que foi o do primeiro disco.. O Tomas foi pintar na cena pop portoalegrense com a Graforréia, isso eu tenho orgulho de dizer. Ele foi depois trabalhar com Júpiter Maçã, Tequila Baby, Ultramen, mas surgiu com a Graforréia, foi um orgulho. Não é exagero dizer, eu não gravo sem o Tomas Dreher no mínimo como técnico pra mixar o disco. Nesse último, ele fez a mixagem. Não pôde ser o técnico porque tava gravando a Hard Working Band e finalizando a Ultramen. Bom, no segundo disco, foi uma produção muito graforréica e a gente pirou mais na escolha de músicas, na maneira de gravar as coisas, numa extrema democracia graforréica. Todos com muita capacidade pra criar arranjos, pra dar sugestões, pra se preocupar com o material, tanto o Carlo Pianta quanto o Alemão e eu, a gente sempre participou bastante. Pula agora pra 2000, o meu disco... Importa lembrar também que em 1998 eu também ia gravar o meu disco solo no Tomas Dreher, no estúdio dele, mas só como uma intenção de fazer um registro. Eu pensei desse jeito: gravar as músicas pra mim, embora no fundo sempre tenha aquela noção de que tu pode conseguir uma gravadora algum dia. Mas eu comecei a gravar sem muitas preocupações e, no fim, eu tenho o Carteira Nacional de Apaixonado de 1998, que eu divulguei pra Fernanda Takai, pro Gordo Miranda... Mas, embora seja um disco que tem vocais afinados, tem muitas coisas desiguais de mixagens e masterizações. Daí em 2000 a Graforréia já não existia, eu tava quase saindo dos Cowboys e eu pensei que era hora de mostrar que eu já tinha amadurecido no meu trabalho individual. Nesse período todo, mesmo atuando em bandas, como instrumentista, compositor, vocalista, sempre tive um trabalho muito forte como compositor, que nunca parou. Hoje mesmo eu compus uma música de uma frase que eu vi no ônibus. Só não parei pra confirmar no violão como eu vou fazer toda, mas eu já fiz a letra suficiente pra uma música. E já faço duma maneira que tu vai depurando, vai escrevendo e já tá quase tudo valendo. Uma frase ou outra que tu não gosta já resolve na hora, senão deixa pra depois... É muito um processo de trabalho atual. O que houve no meu disco foi esse direcionamento: primeiro, uma tomada de posição. Eu fui gravar o meu disco sem saber como ia pagar. Isso não é novela, acontece com muita gente, comigo aconteceu nesse teor. Eu vinha embalado por ter produzido o disco dos The Dárma Lovers, vinha com uma fome de estúdio. E com aquela noção de solidão, sem compartilhar muito as minhas idéias com ninguém, não tinha mais banda praticamente. Atuava nos Cowboys, mas numa relação que já tava indo pra uma definição. Eu já me via fora da banda, independente de manter uma amizade e um astral com os caras. Então eu me defini: vou gravar meu disco, acho que consigo gravar rápido, por ter o domínio. Eu acabei gravando muitos instrumentos: baixo, guitarra, violão... Isso ajudou o disco a ser rápido e barato. Tive algumas ajudar no correr do percurso pra pagar o estúdio, mas não foi totalmente a gravadora que pagou, consegui algumas ajudas. Eu mesmo paguei muitas coisas do meu bolso, no dia-a-dia, alimentação e transporte do pessoal... É um investimento pessoal grande, uma noção de um investimento artístico. É uma coisa que envolve muito um desprendimento... Tu acreditar que as pessoas que tão trabalhando contigo merecem condições de trabalho. Condições essas que tu mesmo tá tendo, mas que tu tenta passar pros outros. O que rolou foi que eu não gravei material a mais, só o que ia entrar no disco. E foi relativamente bacana... Acabei num primeiro momento trabalhando sozinho mas em seguida já entrou o Iuri Freiberger. Foi uma das primeiras vezes em que deu pra ver que, diferente do que aconteceu com a Graforréia, eu compartilhei mais os arranjos com o produtor, ele me sugeriu coisas, ele foi atrás de equipamentos... Se a pergunta é, depois de todo esse histórico, objetivar, eu diria que a diferença de gravar com a Graforréia e sozinho é: a banda tinha um grande clima, um grande astral, de estar com grandes amigos. Hoje a noção é diferente, de usar o estúdio de uma maneira um pouco mais madura, fazer render as horas de estúdio... Gravar poucos takes que já sejam bons, na medida que tu domina bem os arranjos. Em termos de arranjo eu sou um cara exigente, que busca concretizar diferentes idéias pra cada música, e isso eu gosto de trazer muito, e às vezes por ironia. Pode parecer banal, mas muito do que se define de uma música inteira eu faço às vezes no violão. Posso definir uma linha de baixo no violão, uma linha de teclado... o violão é o instrumento básico de trabalho pra mim. E esse disco foi muito bom, teve clima bom de trabalho, com um técnico bacana lá do estúdio, que foi o Fernando di Menor, cara que trabalha muito com o Nenhum de Nós, o Marcelo Corsetti deu essas condições, o René Goya, da Estação Elétrica, deu condições também. Então eu pude colocar uma maior diversidade de referências, colocar coisas mais atuais, coloquei música cubana, que eu tava ouvindo na época. E dá pra dizer que teve um trabalho maior de compartilhar essas idéias com um produtor, o que na Graforréia nunca rolou muito. Mas o principal é dizer que teve um trabalho muito direcionado individualmente, uma exacerbação de artista, aquela coisa "meu disco", onde eu quero deixar claras as idéias, os arranjos. E isso tá presente. Eu gosto muito dos discos da Graforréia, mas com o disco solo eu tive uma satisfação elevada de ter gostado muito do resultado final.

Pergunta: Como tu vês a cena musical portoalegrense e gaúcha que vem surgindo nos últimos tempos?
Resposta:
Pra variar, é uma cena superfarta, como sempre tem coisa boa. A gente tá falando aqui agora e uma banda superlegal pode estar ensaiando agora no estúdio, uma banda que a gente nem sabe o nome. Nem eles mesmos podem fazer idéia do quanto já são criativos, ou que já tão prontos pra um mercado. Antes de falar de nomes, o principal a ser visto é que o rock gaúcho amadureceu muito a sua relação com as indústrias do show, do disco. Tu vê bandas - Acústicos e Valvulados, Ultramen, Comunidade Nin-Jitsu, Papas da Língua - que são hiperestabelecidas. Todas essas já fizeram muitas coisas importantes em outros Estados, mas seguem sofrendo muito daquela noção de serem bandas de Porto Alegre. Dessa linguagem, desse sotaque, seja ele como for... Mesmo sendo pop, ou rockabilly, são bandas que não conseguem emplacar com tranqüilidade no eixo Rio-São Paulo. Isso é o velho tema que cai de volta, e não é um problema das bandas. É uma questão de como funciona a indústria, de como as coisas acontecem... É um assunto vastíssimo. Mas acho que a Bidê ou Balde e a Videohits, por exemplo, têm muitas chances de furar esse bloqueio. Até diria isso pelo investimento das gravadoras nas bandas, tanto a Antídoto quanto a Abril. Isso eu acho que começa a ser um diferencial. As gravadoras tão mais conscientes de trabalhar o potencial dessas bandas. Mas eu não faço o exagero de dizer que o que existe aqui é melhor, embora o que tenha aqui seja hiperbacana. Acho isso de uma relatividade tremenda, porque tem banda boa em todo o Brasil. Conheço muito bem por CD e por telefone o João Paulo, da banda Mofo, de Maceió, banda que eu toco uma música e já tinha tocado outra. É um exemplo de banda que tá em São Paulo batalhando, mas é de Alagoas, um lugar muito longe em relação a São Paulo e Porto Alegre. Não é uma banda estourada, mas tá criando seu público e seu prestígio em São Paulo. Outra coisa é tu analisar a relação de tudo isso com as bandas que tão aí estouradas. Cada uma tem uma razão por estar estourada e, ao mesmo tempo, tem uma indústria e um gosto médio que faz com que algumas bandas sejam melhor assimiladas pelo público e se tornem um produto mais fácil de ser consumido. Capital Inicial, goste ou não goste, é uma banda que batalhou muito, lançou alguns discos mais ou menos, outros tão ruins que a própria banda renega... E hoje é uma banda que tá superfalada. No Planeta Atlântida eu vi: dos dois dias, foi a banda que mais mobilizou o público, cantando... Foram capas da Bizz agora...

Pergunta: Se criou nos anos 80 um mito que Porto Alegre era uma cidade rock and roll, ou talvez a cidade mais rock do Brasil... Isso já chegou a ser verdade e, se chegou, continua sendo?
Resposta:
Por mais que eu não consiga explicar com todos os porquês, isso eu sou obrigado a dizer que é verdade.

Pergunta: que é a mais rock and roll?
Resposta:
Não, não vou dizer que é a mais, porque tu vai encontrar pelo interior do Rio Grande do Sul ou de São Paulo grandes nichos roqueiros. Mas em Porto Alegre, quando tem um show de blues, ou de um cara antigo da história do rock, sempre lota. Acho que é uma cidade que tem essa tradição. E também é difícil estabelecer os porquês. Na real, eu acho que isso é assim desde a época em que o rock no Brasil começou a ganhar uma força, um pouquinho antes da Jovem Guarda, quando o pessoal imitava Elvis e Bill Haley. Na Jovem Guarda teve muita banda aqui também. No final dos anos 60 tinha o Liverpool, que veio a ser o Bicho da Seda... E sempre teve uma cena local forte. Mas isso é um assunto talvez pra caras um pouco mais velhos, para buscar os porquês de Porto Alegre ser vista como uma cidade roqueira. Mas com isso eu concordo plenamente. Acho que nos anos 80, quando surgiu ali Replicantes, TNT, Cascavelletes, De Falla, eram todas bandas com linguagens muito próprias, bem diferentes uma da outra, mas todas com uma linguagem hiper rock and roll.

Pergunta: mas tu acha que a linguagem comum dessas bandas permanece com as bandas de hoje?
Resposta:
Sim, mas cada uma no seu estilo. Acho que o Aristóteles de Ananias Jr., a banda que o Marcelo Birck fez depois da Graforréia, é tão rock and roll como Arrigo Barnabé foi rock and roll pra música brasileira. Só que, lógico, rock não se tratando daquela coisa de três acordes, mas em termos de postura - embora o Birck seja mais rock and roll do que o Arrigo em certos ângulos. Mas é uma cidade com uma tradição roqueira, de música ao vivo em bares de noite. Isso tem, por mais que, pra cena local, nunca seja suficiente o número de bares com condições legais pra shows. Tu tem como fazer show na Cidade Baixa, no Dr. Jekyll, no Zelig, no próprio Opinião, no Teatro de Elis, no Ocidente, tem um monte de lugares...

Pergunta: Tu estás estabelecido em Porto Alegre, com um filho pequeno e tal, este é o teu local de trabalho. Como é que tu vê Porto Alegre como um mercado ou um local de trabalho onde tu possa evoluir?
Resposta:
Daí eu sou obrigado a entrar de sola, assim como eu tive naturalidade pra dizer que Porto Alegre é uma cidade rock pra caramba. Agora, lidando com a prática disso, se ela é boa o suficiente pra quem trabalha com música, daí a questão é um pouco difícil. Caras que tocam em Rio e São Paulo, bandas não estabelecidas com gravadora, vão reclamar que lá também não tem espaço. Eu tenho amigos em bandas que estão nesse meio, digamos, alternativo - é um termo meio em desuso, mas... - que também não têm como tocar seguido, tem que batalhar seu show volta e meia. E nisso, Porto Alegre tem opções de trabalho, mas não que isso seja algo tranqüilo... É limitador ao mesmo tempo. O que tem é insuficiente, a banda tem que estabelecer metas de trabalho e tentar tocar em outros lugares do Rio Grande do Sul e do Brasil. Tocar em Porto Alegre é uma condição ao mesmo tempo bacana, porque tem público, mas imaginar que a cidade se autosustenta é uma condição hiperlimitadora. No meu caso, eu não tenho uma prioridade de vida com o trabalho artístico. Eu vejo o trabalho musical e literário, por mais diversificado, como extensões meio óbvias da minha personalidade. São coisas que eu gosto de fazer, mas não vejo como meu sustento. E isso demorou a acontecer, foi há pouco tempo que eu vi que era inviável imaginar uma carreira de artista, querendo viver dessa arte. E cada artista leva seu tempo pra perceber isso. Alguns conseguem viver sua vida em função de sua arte, mas eu fui vendo o caráter limitador de morar em Porto Alegre e querer ser só músico e escritor. Hoje eu até trabalho mais como escritor, redator, o que gera um sustento, mas eu tenho que batalhar outros trabalhos freelancer nessa área. O que há é que Porto Alegre ainda é uma das capitais bacanas de se elogiar, por várias razões. Pelo tipo de governo... Mas é uma cidade que segue com uma violência brutal... Agora, voltando pra questão do músico e do artista, tu vai ver casos e casos. Gente que já morou em outros Estados e voltou pra morar em Porto Alegre, e diz que isso aqui é muito bom. Tem gente que vai ter o estigma que São Paulo é violenta... a violência urbana, a violência das gravadoras... Cada um vai ter uma história, uma maneira de ver. Eu já venho de uma noção de estar morando há muito tempo em Porto Alegre, meus 34 anos aqui. Já conheci outros Estados, e tive a melhor impressão possível da viabilidade da vida em outros lugares, e principalmente como artista. Mas acho que hoje tenho um direcionamento de vida. Estou em Porto Alegre, acho que tenho que ficar aqui, mas ainda é bacana a possibilidade de tu se imaginar trabalhando e se divulgando pra outras pessoas, sem que isso dependa direta ou indiretamente de tu ter ou não gravadora. A representatividade de um artista se deve pela convicção pessoal de querer mostrar isso. Eu vejo como uma ponte futura: não saberia precisar quanto tempo vai levar pra eu tentar me estabelecer noutra cidade, com uma profissão que eu já venho desenvolvendo aqui. Digamos que eu venha a morar em São Paulo como redator de algum jornal ou revista. Isso vai ser ponte pra eu seguir adiante com trabalho musical e divulgar em uma cidade onde há muito mais canais de divulgação, onde tem circulação de pessoas do mundo muito maior... E isso é inegável quanto a São Paulo, por exemplo. Tu paga um preço caríssimo pela "concretude exagerada" - até usei esse termo num poema, era "concretude exacerbada". Eu vejo que Porto Alegre tem um caráter limitador, mas ao mesmo tempo é um desafio tu quebrar esse provincianismo que ela tem. Acho que qualquer cidade tem seu ângulo, seu escaninho onde tem um provincianismo. É um desafio tu seguir produzindo coisas legais aqui, as pessoas te ligarem de Rio e São Paulo e ficarem achando muito bacana que tu segue em Porto Alegre - teoricamente uma cidade que não dá todas as condições pra um artista desenvolver um trabalho -, mas tu segue adiante, ao invés de ficar se lamuriando, reclamando. Eu tive um momento "x" de falar mal de Porto Alegre, de escrever baixando o pau em Porto Alegre, por isso e por aquilo... Mas isso foi um ranço, uma recaída adolescente, no ano passado. No Sarau eu escrevi algumas coisas que não entraram no meu livro. Momentos de extrema tristeza pessoal com as faltas de perspectivas já rolaram, vontade de não tocar mais, de fazer só uma coisa que não seja música... E isso com o tempo foi se esclarecendo, que tu tem que buscar condições de... (pausa) É que muito desse depoimento não é só do cara como artista, é muito pessoal, é muito "roda viva"... A minha experiência é essa, é diferente de qualquer guri de banda que ta excursionando pelo Interior - que é uma coisa que eu vivi, principalmente com os Cascavelletes - e é uma cara que não vai te fornecer uma análise, um retrato de uma realidade artística que o cara não viveu ainda. Eu passo esse ponto de vista: Porto Alegre é bacana, mas tem limitações. Se tu acha que aqui esgotou, tem que buscar outros lugares.

Pergunta: Antes a gente tava falando das bandas que estão começando. E as bandas e artistas que já estão há mais tempo trabalhando? Tu tens acompanhado o trabalho deles?
Resposta:
Olha, tem muitos casos, é difícil... Não exagerando, mas eu sempre me dei bem com caras de todas as gerações de música na cidade. Desde Bebeto Alves, Nei Lisboa, Nelson Coelho de Castro, Zé Caradípia... Até as bandas novas. Alguns caras das bandas novas nem são tão novos assim... a Tom Bloch tem o Pedro Veríssimo, o Iuri Freiberger... Agora me fogem exemplos, mas eu vejo gente que desiste de música e toca a vida pra outros lados. Os exemplos mais identificáveis de quem tá na roda e se mantém é Nenhum de Nós, Engenheiros do Hawaii, Replicantes, e parou por aí. Mas cada um também com um tipo de trajetória diferente. Acho que agora tem uma geração que tá se estabelecendo, que é Comunidade, Acústicos, Ultramen e Tequila Baby. Videohits e Bidê ou Balde são de uma geração posterior, junto com Tom Bloch, Winston, Superphones e muitas outras bandas. Cada caso é muito especifico do quanto conseguiu conquistar coisas no nível local e nacional. A tendência é a gente analisar do ponto de vista do mercado, se tão se dando bem ou não. Eu sou relativamente bem informado, mas é ao mesmo tempo difícil saber em que pé está uma banda como Engenheiros, que mudou toda a formação de novo, Bandaliera, que está com disco novo, que não sei se está fazendo show... É difícil de saber, é muita banda. O que dá pra se perceber com maior força agora, até pelo interesse da mídia, é o que vem acontecendo com a Bidê ou Balde e com a Videohits, que são novas.A Sombrero Luminoso também é uma banda nova, mas que tem gente tarimbada, que tem uma perspectiva de acontecer coisas legais. O Bebeco Garcia é um cara que era do Garotos da Rua e hoje ta com toda força. Quem tem uma convicção de seu trabalho taí, vivo. Eu modestamente me incluo entre os que tão aí, graças a Deus com um trabalho renovado, não só fazendo referência ao passado. Não tentei imitar a Graforréia, nem ser totalmente Jovem Guarda. Até a valorização do meu nome se deve meio a isso, pela busca de um trabalho inédito, novo.

Pergunta: E como estão os teus projetos literários? No ano passado, tu lançaste um livro na Feira do Livro, e tem ainda o Sarau Elétrico...
Resposta:
O livro não vendeu muito mais do que eu imaginava, mas repercutiu bem no meio musical: muitos amigos de bandas e o público que me acompanha, e algumas pessoas foram simpáticas. O meio literário, independente de ter escritores jovens, é teoricamente meio rançoso... Tem aquela coisa, "escritor consagrado" e "escritor novato"... Eu, embora tenha escrito a vida inteira, nunca publiquei, fora um conto ou outro perdido por aí. Esse livro ainda é um primeiro livro, uma coisa rápida, de 130 paginas, ainda não consta. Daí vem aquele momento de lançar o outro livro e ver "oh, o cara é ou não escritor"... Eu sempre tive uma relação muito intensa com palavras. A biblioteca da minha casa não me deixa mentir, (apontando para as prateleiras), tem bastante coisa na frente e atrás também... Tem outra estante na sala, e outra no outro quarto... Eu sou um fominha. Acho que muitos escritórios e bibliotecas bagunçados que eu vi pelo mundo, em casas de pessoas importantes, demonstram essa mesma obsessão pela leitura. Já vi bibliotecas lindas e muito bagunçadas, que mostram no mínimo a obsessão do cara, preocupado em ler e não tão preocupado em arrumar. Eu, como virginiano, gosto de ter as coisas arrumadas, mas não dou conta, tamanho é o volume de coisas por fazer. Esse negócio do livro foi bacana... Teve o João Gilberto Noll, que falou muito bem, fiquei feliz pra caramba. Ele é um autor que eu li muito na faculdade, tenho muitos livros dele (mostra alguns exemplares). A Cíntia Moscovich foi muito querida, uma pessoa que já publicou uns três ou quatro livros de contos e é a atual diretora do Instituto Estadual do Livro...

Pergunta: Tu tens algum projeto literário pra agora?
Resposta:
O que existe é que o meu livro saiu numa espécie de coleção, junto com o do (Carlos) Gerbase e do Paulo Ribeiro. Era um formato, 130 paginas. Mas se fosse possível, teria publicado um de 260. Se eu fosse por uma via só do comodismo, eu teria um livro pronto pra colocar na roda agora. Só que essa escrita é nervosa, ela segue rolando, tem dias em que eu não escrevo. A minha perspectiva é lançar um livro um pouquinho maior, porque é diferente. Tem pessoas que disseram - não que eu tenha me ofendido - "eu li o teu livro numa manhã". Eu fico feliz, mas ao mesmo tempo eu tenho muito mais coisa pra mostrar.

Pergunta: E a tua próxima obra vai por um caminho parecido da primeira?
Resposta:
É semelhante... poemas meio caóticos, mas misturando muita informação. Faço todo um liquidificador, e com uma escolha de palavras que torne a coisa musical de se ler. É um bom teste pra quem tem o meu livro é ler em voz alta, porque as palavras adquirem uma "crocância" maior na medida em que elas são lidas. Eu diria que 50% do livro eu escrevi pro Sarau, os outros 50% são inéditos, poemas ou contos com maiores pretensões literárias... Mas justamente o meu barato é eu não ter uma preocupação com o gênero literário que eu tou escrevendo, se é conto, se é crônica, se é poema. O estilo eu tenho, é o meu estilo, não é exagero nem falsa modéstia em dizer. Eu já tenho o meu estilo na maneira de escrever, de cantar, de tocar... Às vezes pode ser uma historia, às vezes pode ser um poema misturando coisas do dia a dia. Mas vai ter um traço muito pessoal, que me identifica pra caramba. O material que eu já tou escrevendo que eu poderia compilar e ter à disposição, certamente vem num volume maior. É até uma satisfação pessoal ver um livro maior. Pra mim é desafiador.

Pergunta: O projeto do Sarau Elétrico continua em 2001?
Resposta:
Continua, todas as terças no Ocidente. Hoje eu já escrevo alguma coisa pra amanhã. Coisas que eu não li na semana passada eu guardo e leio. A coisa é difícil de conciliar com dois filhos e trabalho, mas é viável, dá pra conciliar. Eu já não faço muito show mesmo... E o trabalho como escritor me instiga, acho bastante desafiador. Leio muito, no ônibus inclusive. Leio jornal quase sempre, mas rápido. Se eu começo a ler jornal em muitos momentos do dia, eu sei que tou perdendo tempo, jornal não é lá essas coisas. E agora estou lendo um livro do Edmund Wilson, o Castelo de Axel, que fala sobre simbolistas. Tem muito Erico Veríssimo. Tem os infantis na sala, pros filhos. Pra esse ano, o Sarau é um desafio, mas eu vou manter esse compromisso e fazer um show volta e meia. Tou mais preocupado em divulgar o disco em outros Estados. São amigos de outros lugares que ligam pedindo material, são jornalistas que não receberam e ouviram falar, não tem uma semana em que eu não receba dois, três telefonemas de pessoas que querem o disco. Mas por enquanto só São Paulo e Goiânia estão confirmados. Tem um pra confirmar em Carlos Barbosa, no inicio de maio, que é um lugar muito bom pra show, atende bem aquela região - Carlos Barbosa, Bento, Garibaldi. A gente tava falando de Porto Alegre como uma cidade rock and roll... Carlos Barbosa é uma cidade MUITO rock and roll. Tem muita banda lá...

Pergunta: Tu tens um disco novo já engatilhado...
Resposta:
Uma coisa que já sentia na época da Graforréia, dos Cascavelletes e dos Cowboys era aquela demora em sair os discos. Um disco era uma coisa que tu pensava lá, volta e meia, pensava em descolar grana... Hoje em dia isso está diferente. Naquela época, tu gravava uma música e tentava botar no rádio. Disco, tu ia pensar muito depois, tinha que ter todo um planejamento, um direcionamento de banda, independente de tu ter muitas músicas. Nesse período todo, com essas bandas que eu citei, Graforréia, Cascavelletes e Cowboys, eu já me ressentia de como era difícil lançar um disco, enquanto a gente poderia a cada ano lançar um disco, assim como os Beatles, como David Bowie, ou qualquer um... Foi fruto de esforço, não foi fácil, mas lancei meu primeiro disco, no fim do ano passado. Só que também, entrando o ano, a coisa ficou bem nítida que os interesses das gravadoras não se confirmaram... Daí eu percebi que eu tinha que correr atrás do segundo disco duma vez, no sentido de começar a se organizar. Eu já tenho uma idéia de nome - "Vida de Verdade" - tenho uma seleção de umas músicas... Na real, eu não vou falar desse disco, e sim fazer ele enquanto eu divulgo o primeiro. Eu nem temo que desgaste o nome, eu já comecei a falar pra outras pessoas. É que esse é o nome de uma música que eu já gravei em 1998 e tou tocando direto nos shows, uma música que tem a ver com Beatles, Beach Boys... Tem um arranjo que lembra o "Pet Sounds". Eu já listei essas músicas como se já fosse um disco, já passaram de 20, e tou compondo outras novas, quero compor uma outras latina... Como eu toco direto como guitarrista nos shows, eu estou compondo umas guitarras que lembrem The Who, The Jam, Beatles... No meu pensamento diário, estão a leitura, a música, o meu filho, embora eu me concentre na hora do trabalho. Meus filhos são a coisa mais importante a ser destacada, porque eles me motivam. Eles me instigam a viver, a produzir material, a correr atrás do leite pra eles. É um estimulo, não é bem uma satisfação pessoal. Acho que muito da arte lida com isso, com uma realização pessoal do artista, e no meu caso ela está vinculada a externar essa sensação de estar vivendo e ter que gerenciar idéias e filhos e múltiplas atribuições e responsabilidades. O meu depoimento de artista está muito vinculado à rotina de um cara que trabalha e tem filhos. Muito do que eu faço também é por eles. Ainda que leve um tempo, isso vai se valorizar mais ainda, até pela questão de direitos autorais, e como um testemunho eterno que fica de um disco. O Sean Lennon vai a vida inteira pegar o "Help!" e olhar seu pai cantando. Esse tipo de noção é uma coisa bacana que tu deixa pros filhos. Tem um tom emotivo, e é pra ter mesmo. Eu perdi o meu pai muito cedo, mas ele me deixou coisas, muito mais do que um sobrenome bacana. Ele deixou a noção de que vale a pena estudar. As pessoas que conviveram com ele eram pessoas que valorizaram a figura dele, disseram que ele tinha seus valores, era uma pessoa honesta...

Pergunta: Tu tens alguma parceria em vista para esse ano, com alguém de Porto Alegre ou de fora?
Resposta:
A parceria fundamental da minha vida é com o Marcelo Birck, que é meu amigo de infância e um puta compositor, um grande maestro que essa cidade vai conhecer. Ele estuda Composição e Regência e é professor de Música no Instituto de Artes da Ufrgs. Parcerias... rolaram poucas, uma com o Plato Dvorak, uma com o Flávio Basso, uma ou outra com o Julio Reny, mas eu não tenho muitos projetos... com o Iuri Freiberger rola uma sintonia muito grande hoje. Pra esse primeiro disco, rolou uma parceria com ele. Mas parceria de projeção nacional, não tem nada. E nem em Porto Alegre, até porque eu acho que ainda tenho muito a trabalhar e muito a colocar na roda de coisas pessoais que eu tenho vontade de ter um certo domínio. Mas não no sentido nefasto da palavra, mas uma certa autonomia de trabalho. Mas não sou fechado de maneira alguma a parcerias. O que aconteceu de inusitado foi eu compor uma música pros The Dárma Lovers, mas eu não tenho certeza se eles vão tocar, porque eu dei uma complicada nos acordes... Mas eles são outros amigos geniais que tão na mira também pra eu produzir o segundo disco.

 

 

 

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