Cachorro Grande
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Direto de uma mesa do Bambu's (lugar onde a Cachorro Grande gravou seu mais novo vídeo), o MusicaTri mostra pra galera esse papo sincero com Beto Bruno (vocal) e Marcelo Gross (guitarra). Música, atitude e muito som dos anos 60 estão em pauta.

Entrevista Angela Pinto
Fotos Angela Pinto e Márcia Dienstmann

Todo mundo comenta o fato de a Cachorro Grande “quebrar” os instrumentos no término dos shows. No fim, as pessoas parecem estar esperando por isso. Vocês não têm medo de se tornarem escravos dessa coisa de quebrar instrumentos? Essa era uma queixa do Pete Townshend e do Jimi Hendrix.

Beto:
Isso aconteceu no terceiro show da banda. A gente tava tocando muito mal. Não tinha equipamento e nós conseguimos equipamento alugado de um cara e era muito ruim. A coisa não saía e deu uma raiva e eu comecei a quebrar a bateria do boizinho (Gabriel Azambuja, baterista da Cachorro Grande). Daí naquele dia a galera pirou! Eles nunca tinham visto e nós quebramos mesmo. E daí a partir dali tiveram shows que se a gente não quebrasse, se a gente não fizesse isso, a galera ficaria meio de cara. “Bah, não vão quebrar”? Aí que ta! Por um tempo a gente ficou um pouco escravo disso, tipo “Puta, no final vamos ter que quebrar...” e aconteceu que teve shows que pareceu um pouco...um pouco não...até bastante artificial.
Até porque nós somos fãs de rock e sempre esperamos o possível e o impossível dos nossos ídolos. Se a gente vê um show do Who, a gente também espera que o Pete Townshend desmanche aquela guitarra. E eu respeitando ele como fã, eu espero que ele quebre a guitarra. E levando isso em consideração, a gente faz isso com o maior prazer.

Não é sempre no final do show. É muito fácil terminar um show e quebrar tudo porque tu não vai mais precisar das coisas. Tu joga a guitarra ali, joga aqui...Depois disso tu não pode ter certeza que tu vai poder usar nas músicas que vem depois. E tem acontecido muito no meio do show, a gente quebrar e continuar tocando. A música para, a gente monta as coisas e continua tocando. Ta ficando cada vez mais legal. E também pela coisa de respeitar o fã. Porque a gente tenta, em tudo que a gente faz, respeitar o fã. Quando a gente faz a nossa música e o nosso material gráfico e tudo mais, eu me olho como um fã!

A pergunta serve pra esclarecer uma coisa que acontece com vocês mas acontecia já com os ídolos. The Who, Jimi Hendrix, que se queixavam de essa coisa ser um problema porque muitas vezes eles ganhavam 300 libras de equipamento e quebravam 1500. Vocês não se sentem que nem eles então?
Beto: Não, porque os guris têm a manha de jogar os instrumentos e eles não quebrarem! Eu já quebrei vários pedestais. E os pedestais não são nossos.

A produção do clipe de “Debaixo do Chapéu” está sendo feita agora (fevereiro/março) para que ele possa sair no inverno? A letra tem um pouco desse tema, né? (Clique e confira a matéria sobre o vídeo)
Beto: A intenção é lançar ele até o final de março. Meia estação. Levando em conta que leva um tempinho pra se trabalhar em cima das idéias, vai acabar saindo próximo do inverno. Mas a intenção é fazer com que ele saia no final de março.

Uma banda com mais de um ano, mas ainda assim muito nova, foi uma surpresa no Planeta Atlântida. Vocês acham que estão resgatando um pouco do “bom nome” do rock feito aqui, participando de um festival com tantos nomes de outros lugares e em tão pouco tempo?
Beto: Duas coisas. Tocar no Planeta Atlântida, pra nós, até agora foi o principal evento em que a gente tocou. Isso não é novidade. É a maior vitrine que tu tem. Pra tu aparecer como músico e ser reconhecido. E realmente nós ficamos um pouco...Eu não diria um pouco...Bastante impressionados com esse lance de terem chamado a gente.  Porque a gente lançou o disco não fazem 4 meses. E tu ser reconhecido de estar tocando num festival desses com apenas um disco e ainda por cima lançado faz tão pouco tempo. Pra nós foi muito afudê, mas ao mesmo tempo um pouco pesado, porque é uma responsabilidade. Mas nesse caso a gente pensou: “Vamos lá, vamos fazer a mesma festa do que se a gente estivesse tocando praquelas 50 pessoas pra quem a gente tocava há um ano e meio atrás”. Tentar se sentir bem e a partir daí tentar passar alguma coisa pro público. Enquanto a gente estiver mostrando o que nós estamos fazendo, é indiferente se é no Garagem Hermética ou no Planeta Preview. Vamos tentar fazer a mesma coisa pela qual nos conhecem.
A segunda coisa. De maneira alguma nós sentimos esse peso de mostrar que o rock gaúcho está renascendo, que o rock gaúcho de novo está aí. Porque o nosso disco e as nossas influências não remetem nada ao rock gaúcho. Eu não considero o nosso disco na linha do que o rock gaúcho produz. Não é pretensão, não to dizendo que é melhor ou pior, mas as nossas coisas não são pensadas a partir do que acontece em Porto Alegre.

É inevitável o rótulo...
Beto: É inevitável a comparação porque eles têm que te botar um rótulo pra te colocar dentro do “supermercado”. “Tu é o que?”. Eles precisam te vender. E eles vêm com essa de retorno do rock gaúcho, mas eu não lembro de ter escutado nada deles e não acho que eles foram uma coisa forte. Não acho que tenha tido uma influência forte. Tanto que eu não morava aqui nessa época (anos 80). Pra mim o rock gaúcho passou despercebido. Eu tava até mais ligado nos discos do Ira!, os três primeiros discos. Bandas como Violeta de Outono, que remetiam a um som mais sessentista, o Ira! era bastante influenciado por The Who, Violeta de Outono por Beatles e

Stones da fase psicodélica, Syd Barret, Pink Floyd da primeira fase. Daí pra mim passou despercebido o rock gaúcho. Então não vejo ligação nenhuma com o que nós estamos fazendo. Se remete a alguma coisa, se as pessoas lembram, é porque eles também tem influências sessentistas no som deles. Eles também tinham essa coisa de querer ficar parecido com os Beatles. Mas de maneira alguma a gente tem alguma coisa a ver com o que aconteceu no rock gaúcho. Não é melhor nem pior, só não tem nada a ver com essa linguagem.

Eu estava reparando no fim do show de vocês, os músicos falavam com os moleques que estavam no público sobre som e diziam pra eles “Escutem Beatles, escutem Stones”.

Beto: Eu não conheço ninguém que entenda mais de Beatles, Stones e Who do que eu.
Gross: Eu conheço. Eu!
Beto: Tu não dá um ovo!

Mas isso é de família?
Beto: Isso vem do meu pai, na verdade. Eu cresci em volta de discos maravilhosos que o meu pai comprou nos anos 60, tive a sorte de ganhar um disco dos Beatles quando eu fiz 8 anos. Que era o A Hard Day’s Night. Que era o mesmo disco que o Gross ganhou quando tinha 8 anos.
Gross: É uma coincidência que os nossos primeiros discos... Meu segundo disco foi Magical Mystery Tour por causa da capa. Do Beto também. Terceiro foi o Let it Be, por que eu passei de ano. E o quarto foi o duplo Vermelho. Foi a mesma coisa com ele, mas a gente não se conhecia.

Vocês acham que ouvindo a Cachorro Grande esse pessoal mais novo que não se interessa pelos sons mais antigos vai começar a escutar Beatles e Stones por causa de vocês?
Gross: Uma coisa que eu notei foi um monte de gurizadinha que vai ao nosso show que gostam de Nirvana e Ramones. É o que mais tem por aí. Mas tem uma parte do nosso show que é punk rock. É Stooges, é uma coisa que a gente gosta e é da nossa influência. Mas tipo,eles gostarem da nossa banda, vai ser a coisa que vai levar eles a ter curiosidade... “Porra, que som esses merda ouvem pra fazerem o som que fazem?” É uma coisa positiva porque vai fazer os carinhas que gostam só de Ramones, ou só de Nirvana irem atrás do The Who, irem atrás dos Rolling Stones. Dos Beatles, saca?

Essa música nova que eu cheguei a escutar tem bastante influência de The Who. Vocês sentem a necessidade, como certas outras bandas, de inovar em todos os discos. Sempre fazer uma coisa diferente? Um disco de rock, depois um disco só de baladas.
Beto: Isso tem dois lados. Primeira coisa. Tu não ficar parado no teu som não quer dizer que tu vai evoluir fazendo isso. E fazer uma coisa diferente no teu som e tu não curtir e não ser uma coisa verdadeira tua. Vai fazer aquilo pra dizerem que no outro disco ta bem diferente? As vezes tu faz isso por gosto mas TU não estás gostando. E se tu não estás gostando as pessoas não vão gostar. Se tu não te ama, ninguém vai te amar. O outro lado disso é que esse lance de inovar já é velho!!!!
Gross: Dentro do tipo de som que a gente gosta, dentro da coisa Rock and Roll, anos 60 e 70, isso abrange muita coisa. A gente pode fazer 10 discos só com isso de tão rico que é esse som que foi feito no fim dos anos 60, saca? A gente pode fazer um som tipo Álbum Branco, um tipo o Abbey Road, um som tipo Small Faces, outro tipo Kinks. E dentro dessa coisa dos anos 60 tinha um negócio que eles faziam naquela época, tipo o próprio Sell Out do Who é uma coisa moderna. Era pra frente pra caralho! E a gente varia dentro daquela coisa que a gente gosta.
Beto:A gente podia muito bem pegar agora e fazer um disco tipo “Ah, vamos agora fazer uma coisa bem diferente e botar trombetas e violoncelos e uma melancia enfiada no cu” e não gostar daquilo, né? A gente não vai fazer o que a gente não gosta.
Mais eu e o Gross que nos ligamos na evolução dos anos 60 e a gente sempre conversa sobre esse assunto. A evolução que a música tomou desde quando apareceram os Beatles, quando cada disco eles lançavam uma coisa nova, uma coisa mais moderna, uma coisa mais pra frente, até chegar num ponto, tipo Helter Skelter, que depois eles foram voltando a  sonoridade deles. O Álbum Branco é um resgate a sonoridade deles. É um ciclo.Esse ciclo acontece com todos os artistas. Nos anos 60 os Beatles puxaram isso e todos os artistas foram atrás. Os Stones...Quando chegou em 67 todas as bandas tavam fazendo uma coisa mais “pra frente”, com os arranjos mais sofisticados e em 68 todas essas bandas retornaram pro seu som cru que eles faziam em 64.

Ninguém nunca vai escutar um disco de Forró da Cachorro Grande, só porque vocês inovariam o trabalho desse jeito?  (risos)
Gross: Eu acho que não. Eu acho que vai mudar, mas dentro daquela essência do rock, pode surgir um monte de coisas aí.

Mas alguma vez, nem que no início da banda, vocês compuseram alguma coisa pensando em ser intencionalmente parecido com esses grupos? Tipo, agora eu vou escrever uam coisa no estilo do The Who, por exemplo?
Gross: Na verdade, sai naturalmente. Quando a gente vai botar com a banda. No The Who, no caso, é o que fica mais a vista. A gente sempre tem umas músicas que pedem uns arranjos mais...Rubber Soul, ou mais Who, mas é uma coisa que vem natural na gente.
Beto: É bem natural, mas tem aquele lance de se dar conta e dizer “Bah, isso aqui ta meio Álbum Branco”, daí tem uma aceitação geral. Agora se alguém falar, “Hum, isso ta meio blábláblá”, já não é tão...Não existe um processo de composição tão racional. As vezes a música aparece antes da letra, as vezes a letra aparece e tu faz a música em cima dela. Então às vezes no meio desse processo, quando tu ainda ta trabalhando, tu pode optar se pode fazer “aquela batidinha Keith Richards ou o batidão Pete Townshend”. Ou acontece de a gente remeter as músicas ao Supergrass. E se ta tipo Supergrass ta legal! As pessoas gostam.
Gross: O que não pode é estar tipo alguma coisa xaropona.
Beto: Resumindo todas as perguntas. Não é em inovar. É claro que a gente quer trazer coisas novas, mas elas vêm naturalmente. Por enquanto a gente ta fazendo o que a gente gosta. E não vamos deixar de fazer o que a gente gosta com essa pretensão de “inovar”, porque a gente pretende fazer muito som e lançar muito disco. O novo disco, que já está quase pronto. Quase todo calculado e tem umas 10 músicas prontas. Tem alguma coisa nova ali.
Gross: Durante esse ano a gente vai seguir o trabalho, nesse ritmo. A gente vai gravar outro clipe agora. Vamos subir lá pra Goiânia em maio, vamos fazer nosso primeiro show de caráter nacional, que é no Festival Bananada. Ta previsto alguma coisa no eixo Rio-São Paulo, pra eles conhecerem lá...A gente não tem a intenção de se mudar pra lá.
Beto: Na verdade a gente ta tirando tudo que puder desse disco, porque a gente acredita muito nele e a gente acredita que ele é como se fosse uma coletânea, porque qualquer música se a gente for trabalhar a gente acredita nela como single. Escolhemos Sexperienced muito “a dedo”. Então a gente acha que tem muita coisa pra tirar desse disco ainda. Mas isso não impede do nosso processo de composição, enquanto a gente ta ensaiando pra tocar a tourne, de a gente vir com músicas novas e não deixar de fazer música. Porque o processo das bandas hoje, diferencia muito do processo das bandas nos anos 60, em que não tinha descanso. E uma banda puxava a outra.
Gross: Por exemplo, hoje o processo de uma banda é “grava um disco, excursiona, dois anos e meio, três anos grava outro disco”.
Beto: Param, tiram umas férias e depois gravam outro...A gente pretende começar a gravar um disco novo em outubro, pra sair no início de novembro. Periga o “CachorroMania” (título provisório) sair no início de novembro e manter esse ritmo de composição enquanto a gente estiver excursionando. Nós vamos trabalhar nas coisas novas. Pra ter um ritmo de a cada ano lançar um disco.
Gross: E a gente quer fazer logo o segundo disco pra embalar também...não ficar aquela lacuna...fazer uma história legal.


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