Bebeto Alves e Frank Jorge
voltar  

Esta matéria foi feita no final do ano passado, para a revista do Lobão. A idéia era chamar alguns músicos para conversar sobre o “ser independente”. Estava difícil de conciliar as agendas daqueles que imaginava interessantes para a reportagem. Então marquei com o Bebeto Alves e o Frank Jorge. Depois, pensava em inserir comentários da Ultramen e do Vitor Ramil. Tinha feito um contato com eles já a respeito, se mostraram dispostos a colaborar. Mas a revista optou por focar o Frank Jorge, e o bate-papo virou um perfil. Com a Ultramen e o Vitor, como ainda não tinha gravado nada, foi só avisar que tinha havido uma mudança na pauta. Chato foi avisar o Bebeto, que ficou puto – com razão. Mas demonstrou também maturidade e conhecimento de causa na resposta do e-mail que enviei relatando o acontecido. O perfil do Frank ficou bom, saiu na edição de janeiro da revista, a Outracoisa. O bate-papo dos dois segue abaixo. A conversa toda abordou outros assuntos, até de forma mais ampla. Tive que reduzir, esse foi o texto que enviei para a revista. Tentei manter o teor das opiniões deles. A conversa aconteceu numa tarde de sábado, agradável até para a época do ano, no estúdio onde o Bebeto ensaiava o show do Blackbagualnegovéio. Faria uma temporada de lançamento no Rio logo em seguida, se não me falha a memória. O Marcelo Corsetti, que produziu o disco, estava por lá também. Antes de começarem o ensaio, me mostraram as faixas gravadas.

Marcos Beck Bohn

Vai por ti que tu vai bem

Frank Jorge e Bebeto Alves conversaram por quase duas horas sobre a música independente e o mercado cultural, traçando um contundente panorama da cultura brasileira – observada de perto por estes dois gaudérios.
Bebeto está hoje envolvido com o selo próprio UPA!, que vem à tona com quatro títulos. Destaque para o seu Blackbagualnegovéio, que traz uma bela versão pampeana de Paint it Black. “Se a pessoa não tem referências, não vai ter vontade de ter memória”, diz.
Com Cascavelettes, Graforréia Xilarmônica e Cowboys Espirituais no currículo, Frank está há três anos em carreira solo. Em setembro último, lançou seu segundo disco. “Sou um cantor romântico, só que meio feio e de cabeça para baixo”, esclarece.

Durante o início da carreira a idéia já era ser independente?
Frank Jorge:
O caminho independente é muito natural, não uma bandeira que tu defendas de uma maneira quase heróica. O independente não está só vinculado à banda de rock de garagem, que não consegue gravadora... Timbre distorcido hoje se tornou até redundante. A cena aponta para outros caminhos, outros tipos de sons. Está além daquela coisa de guri roqueiro de pau sujo, clássica dos anos 80. “Ah, as gravadoras não me dão valor...” Já existe uma organização maior. Selos que não são de grandes gravadoras também estão dentro do comércio.

Bebeto Alves: A gente sabe hoje que o mercado independente corresponde a 50% das vendas de discos no país. A quantidade de selos se proliferou. O independente, que em determinado momento era uma coisa extremamente romântica, se torna um bom negócio. Passei pelas grandes gravadoras, mas sempre tive possibilidade de negociação. Meu primeiro disco realmente independente, que fui buscar dinheiro para produzir, foi o Milonga de Paus (lançado em 1990). Descolei um patrocínio com uma empresa de roupas e vendi o disco. Até chegar neste momento de conceber uma empresa. A idéia começou a surgir dois anos atrás. Não estava vendo nenhuma outra possibilidade, nem vontade de gravar eu tinha mais.

Foi um desejo teu? A configuração do mercado hoje? Ou as duas coisas juntas?
Bebeto:
O que me levou a configurar o Upa! foi um estímulo, não uma falta de estímulo. Apesar de estar desestimulado pessoalmente, quando vi grandes artistas emigrando das grandes gravadoras para selos pequenos, e que havia um processo de redimensionamento do mercado discográfico, foi um estímulo. ‘Sim, também posso interferir nesse mercado’. Da minha maneira, colocando os produtos que acho que devem ser colocados. O selo nasceu com a intenção de abrigar o meu próprio trabalho, de recuperar os discos que ainda estão presos em gravadoras. A Som Livre já liberou o meu terceiro disco. Estou em contato com a Sony, e ainda falta a Warner, que tem dois discos.

Mas nesse aumento do número de selos pequenos, o que veio antes, as grandes gravadoras querendo só lançar grandes sucessos, investindo pouco, ou a necessidade dos artistas de ficarem mais independentes?
Bebeto:
Acho que as coisas vêm mais ou menos juntas. Vem uma crise econômica antes, que se projeta em cima de um mercado que usurpa, de uma certa maneira...
Frank: É muito pela questão artística e pela convicção autoral que os artistas daqui têm, nos vários tipos de sons que há pelo estado. O Bebeto tem uma trajetória com uma cacetada de discos, um diferente do outro.

Bebeto: Estarmos em uma região um pouco afastada do centro possibilita uma postura assim... Interpreto o que o Frank falou desta maneira. Por estar afastado, a gente tem uma visão mais romântica do que significa trabalhar com o mercado discográfico. Acreditar num projeto artístico mais elaborado, pensado, da parte gráfica até o conteúdo do disco, as letras.

Frank: Há pouco tempo, fazendo uma entrevista com uma pessoa bacana dentro de uma agência de publicidade, para captação de recursos, o cara começou o diálogo assim: ‘O que é o produto Frank Jorge, que público tu atinges?’ A gente não trabalha assim. As gravadoras trabalham assim pra caramba. A conversa estava instigante, nunca parei para pensar muito nisso...

E conseguiste te definir como produto?
Frank:
É difícil dizer o que é o Bebeto, o que é Frank Jorge. Eu não sou o Roberto Carlos do Bom Fim. Outra pergunta dele: ‘A tua música é pra ti ou para os outros?’ Complicado responder. Mas, se tiver que confessar, confesso: faço a música que vou gostar de ouvir depois. Só que nessa trajetória toda, um monte de gente gostou da música que fiz em diferentes bandas. Então não é feita exclusivamente para mim, narciso, ficar ouvindo em casa.

E, Bebeto, como está o processo de liberação dos discos?
Bebeto:
A Warner nem se dignou a responder o e-mail. A Sony, dois dias depois começou a negociar comigo. Não querem me dar o disco de volta, mas licenciam, vamos dizer assim. Acho engraçado, porque para outros artistas eles deram os discos, e o meu eles não querem dar.

Disseram por quê?
Bebeto: Acho que eles acreditam em mim ainda, sabe? (risos)

Pensas em mais para a frente lançar discos de outras pessoas através do teu selo?
Bebeto:
A idéia é essa. Acho que o Upa! pode servir de abrigo para vários artistas. Mas não aconselho nenhum artista a entrar num selo independente. Aconselho o artista a criar seu próprio selo.

Então pergunto: vou virar músico, vou começar a tocar. O que eu faço?
Bebeto:
Faz teu selo.

Faço meu selo ou vou bater na porta das gravadoras?
Bebeto:
Tu podes tentar negociar. Mas o grande barato é dimensionar o alcance das tuas coisas, colocar os dois pés no chão. Essa meninada já nasce com camiseta, site, adesivo. Tem como se organizar e pensar ‘bom, eu posso atingir tal, tal e tal, posso ser o rei do mundo!’ A pessoa não pode deixar de pensar assim também, senão não vai dar dois passos para a frente. Degrau por degrau, pode ir alcançando as etapas. Para mim, serve lançar um selo, porque tenho uma interferência nesse espaço que me possibilita andar de diversas formas. Agora, isso pode ser um canal para um artista que começa, ‘ah, vou pegar a pegada do Bebeto e ir adiante’.

Frank: A gente volta ao assunto do quanto se exerce essa atividade musical artística por convicções estéticas. É gravar tuas músicas, dizer teus textos e tuas letras porque tu acreditas nisso.

Bebeto: Mas o complementar disso é ter uma visão profissional. Aquele teu disco (Vida de Verdade) em que teus pais estão dançando na capa é uma bela produção gráfica.

Frank: Por mais que tenha uma relação com o comércio, pra mim a música funciona como uma extensão. Não tenho expectativa a curto, médio ou longo prazo de sobreviver da música. Houve períodos bons, mas hoje vejo de outro modo. É quase um desrespeito eu não me ver como um cara que tenha mais discos a gravar. Então, em relação a quem vai começar, lógico que ele pode se espelhar no que um ou outro fez. Mas, às vezes, é muito peculiar a maneira como fulano conseguiu produzir um disco num estúdio bom, com um bom produtor, e ter a música tocada no rádio. O Bebeto falou e achei legal: a gurizada não pode perder a noção de que o cara pode ser o rei do mundo com o seu som. Por outro lado, vejo também uma coisa ultradimensionada de sucesso instantâneo. Lógico que o guri não está pensando em todas essas coisas que eu, com 37 anos, estou refletindo. Mas no mínimo tem que ter essa fome de fazer as coisas, e tentar ser um pouco criativo. Duvido que o cara, imitando uma dessas bandas que tocam pra caramba na MTV, vá chegar a esse estrelato. Muito do caminho independente tem a ver com autenticidade.

Bebeto: Muitas vezes, a identificação do público com o artista passa pelas referências regionais, que são extremamente importantes nessa interlocução e num suposto sucesso. Tu tens que despertar a atenção das pessoas para a possibilidade cultural nesses trabalhos. A gente tem que provocar coisas. O Frank falou nos 37 anos dele. Eu vou falar nos meus 50, que vou fazer ano que vem! Não me senti no direito de fazer o ‘ah, deixa aí...’

Que visão vocês têm do meio cultural como um todo?
Bebeto: Há uma ode à frescura, à celebridade esvaziada de significado. E isso existe há um bocado de tempo em Porto Alegre. A música no RS hoje perde um pouco de seu charme. E o cinema ganha um status desmesurado.

Frank: Por mais que siga existindo música bacana aqui, existe essa desglamourização da coisa autoral. Porto Alegre tem um puta festival de teatro (o Porto Alegre Em Cena), o Festival de Cinema de Gramado, tem a Bienal do Mercosul, mas não tem um festival de música.

Bebeto: Nós nos desglamourizamos num mundo extremamente glamourizado. Nego está preocupado com conteúdo, em passar alguma coisa? Neguinho foge! ‘Ih, lá vem aquele cara chato...’ (risos).

Querendo falar um troço complicado...
Bebeto: E o pior é que nem é tão complicado, a gente só quer fazer coisas de extremo bom gosto...


Site melhor visualizado com Internet Explorer 5 ou superior
Todos os direitos reservados © 2001-
MúsicaTri