Bandaliera
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A Bandaliera é uma dos maiores grupos de Rock and Roll "de raiz" do Rio Grande do Sul. O Musicatri teve a satisfação de poder conversar com um dos fundadores da banda, Alemão Ronaldo, sobre a atual cena do rock gaúcho, projetos futuros e sobre o preconceito sofrido pela galera da banda nos anos 80. Confira:

Angela Pinto
No show de lançamento do Bye Flowers na Reitoria da UFRGS, era surpreendente o número de jovens na platéia, na primeira fila. Tem uma gurizada que não era nem nascida quando vocês começaram a tocar e adora o som da Bandaliera. Como vocês vêem essa mudança de público depois de tanto tempo tocando?
Alemão: Isso ai, cara, eu acho que tá acontecendo com essas bandas dos anos 80, né? Que tão ainda continuando ou estão voltando. A bandaliera nunca parou nesses 20 anos. A gente é uma banda assim, mais outmedia. Mas a gente sempre tocou, viajou. Não é assim que nem o Capital Inicial, que parou e agora voltou. Claro que é uma banda assim, totalmente da mídia e de uma boa gravadora também, né? Então pra nós isso é muito legal.

Eu acho que os pais levam os filhos, as tias levam sobrinhos e pra nós é muito legal. Essa gurizada de hoje em dia, ela é mais interessada em saber coisas da nossa história, do Rock Gaúcho, porque agora o Rock sopra o vento mais favorável ao nosso Rock Gaúcho. Eu sei muito bem disso, porque a gente começou fazem 20 anos, ano que vem vai fazer 20 anos. Era muito difícil tocar, e as rádios se convencerem a tocar. Então hoje em dia, a rádio que não tocar o rock gaúcho quebra., isso é uma coisa certa.

Isso me leva a uma outra pergunta que eu ia fazer mais adiante e aproveito pra fazer agora. Nesses 20 anos o mercado de música aqui no Rio Grande do Sul teve mudanças radicais ou tá praticamente na mesma?
Alemão: Não. Mudou quase que radicalmente. Uma coisa que antes a gente ir numa rádio mostrar o trabalho gravado, tava mal gravado, e não era dos padrões da rádio e não tava muito bem gravado porque aqui não tinha estúdios bons...Agora o estúdio que tem em Nova Iorque tem aqui. Agora é tudo a mesma coisa. O próprio computador e a própria globalização de tudo, como nos próprios estúdios. O que tem lá tem aqui. Mas é sempre legal querer resgatar um som, que nem essa gurizada nova que quer conhecer a Bandaliera. Quem são esses caras que já tem 20 anos de estrada e a gente não...Porque hoje em dia é tudo mais fácil, mas acessível, né?


A Bandaliera já teve diversas formações. Nunca acabou, mas já teve várias formações. Vocês nunca pensaram em fazer um show juntando essas várias formações?

Alemão: Vamos fazer. Ano que vem, com os 20 anos, o projeto é esse. Chamar a maioria do pessoal que tocou na banda. O Duca, o próprio Edinho Espíndola, que é baterista. O Marcelo Truda, que tocava comigo no Taranatiriça, quem mais tocou na banda....O Fughetti, o Maecelo Fornasier, O Luis Henrique, que era do TNT, o Dante Jr, que era guitarrista, esse pessoal...A gente tá com esse projeto de 20 anos para o ano que vem, vamos gravar coisas antigas, coisas novas e chamar esse pessoal que participou.


A Bandaliera sempre teve uma relação muito direta com o Fughetti, por gostar do som que ele fazia...
Alemão:
A gente gostava do Bixo da Seda e era do mesmo bairro..

Essa relação se esvaiu com o tempo ou vocês continuam a se falar?
Alemão: Não. A gente fez um trabalho de 5 anos junto com ele, assim...a gente também meio que resgatou o fughetti. Ele tava meio parado, quando terminou o Bixo da Seda. Eu como era amigo dele ali do bairro fui visitá-lo e tal e daí a gente começou a fazer uma parceria. Ele compunha as músicas cruas e a bandaliera fazia o arranjo, colocava o nosso molho. Foi um trabalho que durou uns 5, 6 anos. E depois, com o tempo a gente se separou. Foi cada um pro seu rumo, como o Duca Lendecker, foi lá pro Cidadão. Aquelas coisas de banda...Mas a gente sempre manteve a nossa base, que sou eu e o João Guedes, que toca baixo comigo desde que começou a Bandaliera.


E o que, no som do Fughetti, chamava mais a atenção de vocês?
Alemão: As próprias letras dele. Era um rock mais cabeça, até eu diria. Não é essa coisa de hoje em dia, tipo Ultraje a Rigor, essas bandas mais rock humor. Então o Fughetti tinha muito mais conscistência. Muita poesia. Então chamava a atenção da gente. A gente era um pouco mais velho e não queria cantar aquelas coisas tipo assim...”Mim quer tocar/ Mim quer ganhar dinheiro” (letra de uma música do Ultraje), ou “Mas eu morro de ciúmes”, como um exemplo. A gente seguia mais pra esse lado poético, né?


Esse disco de 20 anos, do ano que vem, vão fazer shows? Aquele show no Araújo Vianna, ano passado, com o Solon Fishbone e o Bebeco...Vocês vão reunir esse pessoal pra shows?

Alemão: A gente vai reunir o pessoal pra fazer um show...talvez saia um disco ao vivo, não sei...porque num disco ao vivo a gente vai poder usar mais coisas, uma miniorquestra, um cello e coisa e tal. Vai ser uma coisa legal ser ao vivo.


A Bandaliera agora estreiou o seu site oficial na Internet. A banda pretende alcançar um novo público através de uma nova mídia ou é mais para manter os velhos fãs informados do que está rolando.
Alemão: A gente não chega a ser assim, uma coisa direcionada. Tipo, “Vamos fazer isso para alcançar aquele público”. A gente faz as coisas assim, com a maior honestidade. Se o pessoal gostou, gostou. Se a gurizadinha nova gostou e quer saber como é que são as nossas músicas, pode ir no site. Então a gente lançou esse site que tem a nossa história, muita MP3 antiga, a própria discografia, desde a nossa primeira coletânea e coisa e tal. É claro que a gente quer renovar o público. Mas eu acho que o público se renova pelo trabalho, então é uma coisa automática. Agora a banda tá tendo mais acesso a grande mídia, a gente tá conquistando o publico naturalmente.


Existe ainda um espaço considerável pra rock? Tem espaço pra todo o tipo de música? Tem gente que diz, Pô, agora a Ipanema só tá tocando Reggae.
Alemão: Pois é...tá uma onda de reggae ultimamente. Eu acho que o pessoal do reggae tá mais unido que o pessoal do rock and roll. Agora tá saindo muita coletânea de reggae tá num bom momento. Acho que tem espaço pra todo mundo.


Tem gente que diz que a música do Rio Grande do Sul só não dá certo no centro do país porque o pessoal não se une o bastante.

Alemão: O povo aqui é muito assim...sempre foi, né? Nos anos 80 então era muito pior, muito pior. O pessoal das bandas nem se olhava...Agora dos anos 90 pra cá é que tá mais essa união, com essas bandas novas, a Comunidade, a própria Acústicos e Valvulados, Tequila Baby, tudo rapaziada que tem outra mentalidade e são mais unidos. Essas bandas dos anos 80, nós, Replicantes, a gente viajava junto no mesmo ônibus mas ninguém se olhava na cara, não batia papo. Eles achavam a gente ripongas. A gente achava eles uns bunda-mole cineasta, entendeu? Que eles são até hoje! Que eu acho que eles são uns bunda-mole até hoje, curtindo esse negócio de punk e que não se flagraram que esse som aí deles passou. Nunca foram músicos. Eles não gostam de mim e eu não gosto deles! (Clique aqui e veja a resposta de Carlos Gerbase aos comentários de Alemão Ronaldo) As bandas não tinham essa união por causa desse disse-me-disse. Essas picuinhas são coisas ridículas, porque o que prevalece pra mim é sempre a música. Eu acho que a música sempre vence isso aí. Então era Replicantes, Bandaliera, TNT era o Dfalla, eles eram tudo new wave e falavam da gente, que a gente era hippie e tinha que cortar o cabelo...aquelas coisas que não levam a nada...O próprio Gordo Miranda, produtor aí, com esse preconceito com a Bandaliera. E a gente continua até hoje. A gente nunca parou, a gente toca poraí, pelo interior. A gente sempre foi uma banda independente, a gente nunca foi atrás de gravadora, mostrar trabalho, fazer release, mandar fotinho pra uma gravadora e coisa e tal. Acho que as coisas acontecem. Tudo rola! Agora tá favorecendo mais a gente, de fazer um trabalho honesto, que é o que a gente sempre fez. Nunca foi de a gente Ter um trabalho, tipo um ser cineasta, o outro ser professor e essas coisas. A gente sempre foi músico, a vida inteira! A gente já teve maus momentos, teve grandes momentos, né? A gente já passou por uma grande perda, que foi querido Marcinho Ramos em 1994, já com um disco pronto, Estação de Pedro, e aconteceu isso...Então a Bandaliera é uma aqui do Rock, sobrevivente do Rock and Roll.


Mas mesmo na guerrilha, depois de tudo isso, é uma banda que não deixou inimigos...tem bandas daqui que até hoje não se suportam.

Alemão: A gente sempre soube contornar isso aí, sabe? A minha única bronca era desses caras cineastas que tavam metidos num outro ramo que não era o deles, ali. Eu não tinha porque ficar contra, na real. Era porque eles mandavam muito contra nós porque eles tinham todo o favorecimento da própria mídia, então se aproveitavam um pouco disso. A gente não tinha disso então foi a única bronca que a gente teve na época. A gente viajou com eles várias vezes e descobriu que quem era punk era a Bandaliera! Porque eles eram tudo metido a punk de butique, e na real eles são professores e cineastas. Bons professores e bons cineastas. Não tirando o mérito de todo mundo...


É melhor deixar a música pra quem é músico?

Alemão: É. Os anos 80 foram muito conturbados musicalmente. Justamente porque o mercado era muito difícil e tinha essas pessoas ainda te colocando pra trás. Tu ficava dando soco em ponta de faca. A gente sobreviveu...


Então quer dizer que muitos desses movimentos, tipo punk, new wave, essas coisas, atrapalham quem está de fora?

Alemão: Não é que atrapalham. É que os caras querem que, quando esses movimentos estão na moda, todo mundo faça a mesma coisa que eles. Que tu vire punk, que tu vire new wave, que tu vire pagode. Até o Duda Calvin, da Tequila Baby, disse pra nós “pô cara, a
Bandaliera tá legal porque sempre foi a mesma coisa” A gente nunca quis muda a tendência, então esses caras falavam mal porque a gente continuava na nossa, tocando violinha, gaitinha de boca, porque a gente era riponga pra eles. Mas tu vê que hoje, no ano 2001, voltou aquela “bichogrilagem”, aquela coisa. Por que? Porque era legal! Era uma coisa bacana...


O próprio nome do último disco de vocês é Bye Flowers, com uma referencia a isso?
Alemão: Adeus as flores! Exatamente! Porque hoje o que ficou foi só a moda! A música do Jimi Hendrix tá aí até hoje. A música do Doors tão aí até hoje, que são ícones dos anos 60, anos 70...e era a época do Flower Power. Então o que ficou essa moda. O pessoal tentou voltar a moda só...é uma coisa passageira.


Falta amor pra essa gente?
Alemão: Falta amor! É o que diz a nossa música! “Eles riam, se amavam e ouviam/ o coração do mundo/ que dizia que o que a gente precisa é amor/ flower power, drop out, pé na estrada/ encruzilhadas, guitarras e sons/festivais, aeroplanos, viagens/bye, bye, bye, bye”.


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