E eu fiquei muito impressionado porque
a situação de todo mundo
é muito parecida. Essas queixas
que a gente tem aqui, de não
ter penetração e tal,
elas são comuns a todo o Brasil.
Não ao Rio de Janeiro, que inequivocamente
É o centro para a difusão
da grande mídia e não
a Pernambuco, porque foi decidido que
Pernambuco é o "Estado da
hora". Assim como teve antes o
pessoal do Ceará, depois teve
uma época que eram os baianos
e depois os mineiros. Nunca teve essa
época do Rio Grande do Sul, assim
como nunca teve a época do Pará,
ou do Paraná, ou ...os paulistas
alguma época tiveram na mídia,
no início dos anos 80, mas até
mesmo em São Paulo tem uma reação
parecida. Isso me deixa muito impressionado.
Por exemplo, o Luiz Tati, que é
um cara bastante conhecido aqui, que
vem muito pro Rio Grande do Sul, ele
é praticamente desconhecido no
Rio de Janeiro. Algumas pessoas lembram
do grupo Rumo, mas o grupo Rumo foi
muito mais conhecido aqui em Porto Alegre
do que no Rio de Janeiro. Então
não é uma situação
nossa. É uma situação
de todo o Brasil que está para
o centro. Mas eu acho que isso cada
vez mais é relativo. Eu acho
que cada vez mais as pessoas estão
montando pontes e vão por fora
disso. Que vão se conectando
entre si. A própria história
do disco agora ("Música
pra Gente Grande", lançado
por Arthur de Faria em 1997), está
sendo relançado por uma gravadora
de São Paulo, independente, hoje
talvez seja a segunda gravadora independente
mais importante, depois da Quarup, que
é a Núcleo Contemporâneo.
E isso já são conexões
que a gente tá fazendo, né?
Porto Alegre ->São Paulo.
Daí tem o cara do Pará
que fez um trabalho com o cara do Paraná.
E a rede ajuda muito nisso. A Internet
é muito pródiga nisso,
que é a coisa de democratizar
a informação. Tornar possível
cada vez mais o cara não precisar
sair da sua cidade para tentar o sucesso
nacional. Porque cada vez menos importa
a grande mídia. Cada vez mais
importam as mídias alternativas,
pelo menos pro tipo de trabalho que
a gente faz.
É que as vezes o Brasil fica
parecendo meio hostil ao RS, como no
caso do Luis Antônio Giron (crítico
nascido no RS e que já declarou
que o Estado é uma "caatinga
cultural") . Então não
é culpa da estética do
frio(Estética do Frio: Tese formulada
por Vitor Ramil, sobre a distância
do centro do Brasil sentida pelos gaúchos)?
Risos
Arthur:
Eu acho que é muito bem formulada
aquela tese do Vitor. Me identifico
muito. Eu já presenciei alguns
momentos de forma muito impressionante,
essa conexão Buenos Aires ->
Montevidéu. Que é um dos
lados que o Vitor fala. Porque a gente
acaba tendo sempre uma relação
complicada com o Rio de Janeiro, e a
gente confunde muito o Rio de Janeiro
com o Brasil. A gente começa
a achar que não nos amam e que
a gente não ama eles, aquela
coisa. E se volta pro outro lado. E
a gente fez show em Buenos Aires e em
Montevidéu e em ambos os casos
foi muito impressionante. Teatro lotado,
sem saber quem a gente era. Os caras
iam porque sabiam que era do Brasil
e que era legal e tal. E a gente presenciou
muito fortemente isso, de como é
uma mesma cultura. Eu vou muito pra
Buenos Aires, desde sempre. Sempre me
senti muito em casa em Buenos Aires.
Montevidéu é igual a Porto
Alegre, parece a mesma cidade. E tem
muito essa cultura do Mercosul. Então
a gente tá numa posição...
e o próprio Vitor coloca isso
muito bem, a gente aqui no Rio Grande
do Sul não é periférico.
A gente é o centro de uma coisa
muito bacana que é a conexão
do Brasil com o Mercosul. A gente está
exatamente colocado no centro e isso
é uma coisa que ainda tem muito
o que render e as pessoas tem muito
o que se dar conta em relação
a isso. Mas essa história da
música carioca ser confundida
com a música brasileira, isso
não foi por acaso. Esse foi um
processo que aconteceu ao longo do final
dos anos 30 e depois ao longo dos anos
40 com o governo do Getúlio Vargas,
que era um governo absolutamente nacionalista.
Uma das primeiras medidas que o Getúlio
tomou foi queimar as bandeiras dos Estados,
anular os hinos regionais. E como ele
estava no Rio de Janeiro e ali era o
centro do poder, ele utilizou a indústria
cultural e a música. Fomentou
muito para que essas áreas crescessem,
incentivou muito o rádio, incentivou
muito a produção musical
como um todo. E estabeleceu como fator
de união nacional também
a música. E daí era a
música carioca, que era a música
da hora. E na época já
era o centro, porque era a capital federal.
Então todo mundo que queria se
dar bem de alguma forma ia pro Rio de
Janeiro. O Ari Barroso era mineiro mas
foi pro Rio. O Assis Valente era baiano
mas foi pro Rio. E a música que
se fazia lá, que era o samba,
era uma música de absoluta qualidade,
e foi colocada como música do
Brasil. E isso aconteceu em muitos lugares
do país. Essa cultura que na
verdade é "estrangeira"
pra nós, porque até então,
aqui no Rio Grande do Sul, não
se ouvia muito samba e maxixe. Isso
era considerado música de negros,
no sentido pejorativo. Essa coisa européia
que a gente tinha aqui era muito mais
forte e tinha uma cultura própria
na época bem mais impressionante.
E depois foi muito difícil retomar.
A gente começa a fazer música
no Rio Grande do Sul de novo, com intensidade,
no final da década de 60. São
30 anos de cultura musical e é
complicado tu te estabelecer como gerador. |
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para quem não fazia Axé.
Todos os músicos que não
fazem Axé, e que são
muitos, eles não tem espaço
nenhum. Tem um espaço muito
menor do que tem aqui no Rio Grande
do Sul. Por exemplo, o Rio Grande
do Sul tem várias gravadoras
independentes. Lá na Bahia
não tem NENHUMA gravadora que
não seja ligada ao Axé.
Assim, o cara não tem nenhuma
possibilidade de lançar um
disco independente que não
seja de Axé! A não ser
que seja independente mesmo. Do cara,
e ele não tem nenhuma gravadora.
Daí vai ter todos os problemas
de distribuição. E tem
ainda a tentação da
indústria, que é muito
forte e complica mais ainda a vida
deles. O curador da Bahia, que é
o Juatan do Nascimento (trompetista),
toca com a Daniela Mercury, ele mesmo
ao longo do processo, conversando
com a gente, resolveu retomar a carreira
dele. Que era uma coisa que ele tinha
abandonado porque era muito fácil
pra os bons músicos baianos
ganharem muito dinheiro tocando Axé.
Que eles não gostam, mas dá
muito dinheiro. E eles têm muito
dinheiro e são de alguma forma
infelizes por causa da tentação
da indústria. A mesma coisa
de alguma forma acontece no Rio de
Janeiro. Difícil surgir alguma
coisa realmente nova no Rio de Janeiro
porque a tentação de
fazer uma coisa padronizada é
muito grande, porque a indústria
tá ali do lado. O cara tá
indo no mesmo bar que o diretor da
gravadora, tá freqüentando
os mesmos lugares. Essa distância
que a gente tem, que é saudável
e que durante muito tempo Pernambuco
teve e que Minas tem. Isso te faz
gerar trabalhos criativos. Porque
é aquela coisa: Não
adianta tu fazer uma coisa bastante
comercial porque não tem nenhuma
PUTA gravadora aqui, entendeu? Essa
tentação é mais
distante até geograficamente.
Os caras não vêm aqui
pra caçar talentos. Então
foda-se, entendeu? Vamos fazer uma
música que a gente está
a fim de fazer. E isso acaba gerando
uma cultura própria. Mas essa
coisa do falar bem, é algo
que se reverteu muito nos anos 90
aqui no RS.
Eu
fiz uma entrevista com o Kleiton Ramil,
onde ele dizia "seria tão
bom se os gaúchos falássem
bem uns dos outros...", mas não
acontece.
Arthur:
Eu acho que nos anos 80 isso era
bem mais grave. Tinha uma polarização
muito grande. Quem era do Rock não
gostava de quem era MPB e quem era
MPB não gostava do Rock e os
dois ignoravam o Choro e o Samba.
Polarizações muito fortes.
Isso era um campo de batalha. E as
fronteiras eram muito definidas. Eu
acho que isso se diluiu muito nos
anos 90. Eu vejo um espírito
muito mais corporativo, muito mais
solidário, muito mais as pessoas
se aproximando de pessoas diferentes
e tendo interesse nelas. É
uma época de diluição
de fronteiras. De repente os caras
da Ultramen estão com o Gilberto
Monteiro, gravando uma milonga. Esse
tipo de coisa seria impensável
nos anos 80.
Inclusive
criaram uma corporativa, o pessoal
do Garagem Hermética, Zé
do Belo...
Arthur: Ou outras bandas lá,
tipo Relógios de Frederico,
Chumbo Grosso. Eu nunca acreditei
nessa coisa de fronteiras. Eu nunca
fui roqueiro, ou mpbista, ou erudito,
ou popular. Eu sempre me interessei
por muitos trabalhos em muitas áreas
diferentes. Porque eu acho que é
a única forma pro cara crescer
como músico. Senão ele
vai ficar pra sempre como um "bluesman"
porto-alegrense querendo soar como
um bluesman americano pelos próximos
60 anos! Eu me constranjo e me encabulo
quando eu vejo isso. Fico encabulado
pelo cara. Enfim, eu acho que essa
diminuição de fronteiras
é saudável e é
corporativa. E eu acho que de alguma
forma sempre vai ter aquelas pessoas
que se fecham nos guetos e que vão
falar mal de todo mundo que não
é do seu gueto. E tem as pessoas
que vão tentar transcender
essa coisa dos guetos. Hoje eu vejo
as pessoas se ajudando muito mais,
se interessando muito mais umas pelas
outras.
Qual
é o problema do Brasil em aceitar
a música feita nos países
vizinhos, cantada em espanhol? A música
brasileira tem boa aceitação
em países como a Argentina,
vide Porto Alegre em Buenos Aires.
Arthur:
Essa coisa me intriga muito. Essa
coisa dos países do Prata e
da América Latina como um todo.
E intriga muito os caras lá
também. Porque a mão
inversa lá é muito verdadeira.
Eu participei do "Porto Alegre
em Buenos Aires" e do "Porto
Alegre em Montevidéu"
e eu dou um curso de história
da mpb, junto com o Luis Augusto Fischer,
durante o Porto Alegre em Buenos Aires.
A gente já fez isso duas vezes.
E é um sucesso! Lotado! Vem
gente de Tucuman, que viaja 800 quilômetros
pra fazer o curso. Ou seja, há
esse interesse.. Tu fica pensando:
se trouxesse uns argentinos pra fazer
um curso de história da música
argentina aqui, certamente não
teria o interesse que tem lá.
O Brasil sempre teve muito de costas
pra América Latina. Em algum
momento da década de 70, não.
Com um caminho lá do Milton
Nascimento, do Chico Buarque. Eles
tentaram uma aproximação
com a América Latina e tocaram
bastante no fim da década de
70, começo da década
de 80. Eram mais conhecidos os artistas.
E mesmo essa coisa de que no Rio Grande
do Sul é mais forte, e é
mais forte...Aqui as pessoas conhecem
o Fito Paez e o Charlie Garcia. Na
média, a quantidade de pessoas
que conhecem o Charlie Garcia, o Fito
Paez, a Mercedes Sosa e o Astor Piazzolla,
que é uma parcela mínima
da música argentina, por exemplo,
é muito maior do que se tu
perguntar no Rio de Janeiro. Mas,
por exemplo, a MTV teve aquela iniciativa
do Tordesilhas, e que foi feito aqui
no Gigantinho, com um monte de bandas
bacanas da América Latina,
e resolveram fazer aqui por causa
de toda essa mística e tal,
e foi um fracasso retumbante de público.
É uma coisa curiosa.
Eu
falo até de coisa de rock,
como o Almendra ou o Soda Stereo.
Coisas que podem tranqüilamente
tocar em FM e as pessoas não
se interessam porque é em espanhol.
Arthur:
Aqui no RS algumas pessoas sabem
que isso existe. Mas fora daqui, ninguém.
E na verdade essa foi uma ponte que
foi abortada dentro desse processo
lá de 30, 40, do Getúlio.
A nossa unificação com
os países do prata, com a Argentina
principalmente, é muito forte.
O Tango em Porto Alegre era muito
forte. Muito forte! Muito mais forte
que no resto do Brasil. Todas as casas
onde se ouvia música, que eram
os cabarés e os cafés,
todas tocavam Tango. Todo mundo sabia
dançar Tango. Pelo menos os
passos básicos. E isso foi
se perdendo. Inclusive tem um jovem
pesquisador argentino, que é
da ala jovem da Academia Nacional
de Tango, o Pedro Uchoa, que é
um cara que me ajudou muito nesse
livro que eu escrevi, sobre a música
do RS no séc. XX. O Pedro está
pesquisando há anos e anos,
pra escrever um livro sobre o Tango
em Porto Alegre. Eu acho que é
uma função que a gente
tem que exercer mais. O Fito lotou
absolutamente os dois shows que fez
aqui no RS. Agora ia vir de novo e
cancelaram. E nunca teve esse sucesso
de público em outros lugares
do Brasil.
Quem
ainda não é revelação,
mas vai ser, dentro da mpb atual?
Arthur: Eu acredito muito em
alguns caras aqui do Rio Grande do
Sul. Tem essas 3 bandas que eu falei:
Relógios de Frederico, Chumbo
Grosso e a Faskner. Eu acredito especialmente
na Chumbo Grosso. Agora eles vão
se fundir, a Chumbo Grosso e a Relógios
de Frederico. Que eles propõem
realmente uma coisa muito nova. Na
tradição da Aristóteles
de Ananias Jr, trabalho do Marcelo
Birk. Inclusive a banda é encabeçada
pelo Zanatta (Luciano Zanatta, saxofonista),
que tocava com o Marcelo (Birk) na
Aristóteles. Mas ele tem um
conceito que me agrada mais, de capricho
na execução. Não
é aquela estética podre
do Marcelo, que tem a sua lógica
e tem a sua coerência, mas que
eu discordo. A Chumbo Grosso tem essa
estética de fazer as coisas
muito elaboradas e arranjos usando
politonalismos e poliritmias que a
Aristóteles fazia, mas fazendo
isso soar bem. Tem o DJ Dolores, lá
de Pernambuco, que está pintando
agora e foi mais uma das descobertas
dessa história da Cartografia
Musical Brasileira. É um cara
genial Genial! Ele já é
um veterano lá da cena de Pernambuco,
mas ninguém conhecia ele fora
de lá. O cara se apresenta
como DJ Dolores e Orquestra Santa
Massa. É ele como DJ, em programações
e tal, uma menina que canta e toca
percussão, mais um percussionista,
um sujeito que toca rabeca e um outro
que toca pífano. Misturando
aqueles ritmos lá com música
eletrônica. Tem um grupo de
Minas também muito legal, que
é o pexbaA. Eles cantam numa
língua inventada, escrevem
sílabas, enfiam dentro de um
saco e sorteiam. Aí vão
montando as letras e decoram aquelas
coisas absurdas. Eu acho que eles
mentem. Eu acho que aquilo é
islandês, pelo menos me soa
como islandês (risos)...Mas
é muito legal o grupo. E tem
caras que já estão aí
na luta há muito tempo e que
não tiveram um reconhecimento
grande. Eu acho que o dia que o dia
que o Brasil descobrir o Nelson Coelho
de Castro....
E eu acho que lentamente estão
descobrindo o Vitor Ramil. O Nei (Lisboa),
porque eu acho que são os três
maiores compositores daqui do RS,
o Nei Lisboa, o Vitor Ramil e o Nelson
Coelho de Castro... O Nei eu não
sei se é tão decodificável
assim fora do Rio Grande do Sul. Eu
tenho essa dúvida, apesar de
achar ele maravilhoso e tão
bom quanto os outros. O Vitor tá
cavando o seu espaço lentamente
e de uma forma muito sólida
e muito perene. Acho que o Vitor vai
ser uma referência nacional
muito importante, assim como o Luiz
Tati ou talvez até chegue a
ser um Chico César, um Lenine,
que são caras da geração
dele. Eu acho que ele é muito
melhor que o Chico César e
que o Lenine. Já o Nelson é
uma coisa impressionante, porque eu
assisti a apresentação
dele, tive o grande prazer de tocar
duas músicas com ele lá
nesse projeto do Itaú Cultural,
e o impacto das pessoas era muito
impressionante. Era uma coisa assim:
"Como é que a gente não
conhece isso?!?! Se isso é
tão bom e isso é tão
"brasileiro"?!?!"
Ele é um mpbista que poderia
ter o tamanho de qualquer grande artista
da MPB. Não deve nada a ninguém.
Mas por uma circunstância qualquer
de isolamento mesmo, de mídia,
não teve essa visibilidade.
Ele é um cara que se tiver
essa visibilidade, certamente...Porque
a música dele é muito
fácil de ser "gostada".
Outro cara que eu acho brilhante é
o Maurício Pereira, que já
lançou 2 discos e que era do
Mulheres Negras. Depois que ele saiu
do Mulheres Negras, perdeu muita visibilidade.
Mas que tem um trabalho brilhante
como compositor. Tem muita gente,
é impressionante como essa
coisa da cartografia foi assustadora.
Ah! Tem o Luciano Maia, que é
um gaiteiro de Pelotas, tem 20 anos
de idade e se mudou pra Porto Alegre
há pouco tempo. Já tá
tocando com todo mundo. É um
sujeito assombroso e tá indo
pra Bahia agora pra um festival de
World Music que vai ser a grande chance
dele.
Tem influência do Tom Waits
no teu trabalho ou é só
impressão?
Arthur: Tem, claro! Eu gosto
pra cacete do Tom Waits. Por sinal
a gente fez uma música do Tom
Waits nesse show com a Cida Moreyra,
que o arranjo era meio "Time".
Trabalhar com músicos eruditos
não limita o funcionamento
geral, já que estão
muito acostumados com a execução
pura e simples? ou a idéia
é essa, criar e ter músicos
que reproduzem fielmente o que foi
escrito?
Arthur:
Não! De jeito nenhum! É
porque é assim: metade da banda
é composta por músicos
eruditos, que tocam em orquestra.
Mas têm dois tipos de músico
erudito. O músico erudito que
tem a vivência erudita de só
tocar o que está escrito, e
tem grandes gênios nisso...
E tem o músico erudito que
é o cara que tem vivência
de música popular. E daí
ele une o melhor dos dois músicos,
porque ele tem disciplina de música
erudita e é outro papo. Desde
a coisa de leitura até disciplina
mesmo. Na banda é basicamente
o Júlio Rizzo (trombonista),
que chegou de um ano de especialização
lá na Alsácia, fronteira
da França com a Alemanha. O
Adolfo Almeida Jr (fagotista), que
é primeiro fagote das OSPA.
É um músico excepcional
e até o Pavarotti se impressionou
com ele. O Guenther Andreas (baterista
e percussionista), é chefe
do naipe de percussão da OSPA
e o Clóvis Boca Freire, que
é um coringão. Já
tocou em tudo quanto é orquestra
e também toca música
popular. Todos esses 4 têm muita
intimidade e improvisam muito. Eles
são músicos populares
e eruditos de grande qualidade. E
esse tipo de músico é
uma experiência riquíssima
de trabalhar. Tem muitos músicos
assim. Na própria OSPA tem
gente com esse perfil, que é
mais ou menos o que a gente faz. Nós
gravamos um disco que deve sair em
março, que é todo composto,
ou 90% composto por mim pra essa formação:
Banda + orquestra. Porque é
exatamente na fronteira. Não
é 100% erudito e ao mesmo tempo
não é popular. É
uma música de fronteira, que
eu acredito muito. Foi o que o Radamés
Gnatalli fez muitas vezes e que o
Piazzola fez a vida inteira. Que o
Arrigo Barnabé também
fez.
Com quem gostaria de fazer uma grande
jam, ou um disco tipo "basement
tapes"?
Arthur:
Tantas pessoas... Sobraram poucos
vivos. Meus grandes heróis
morreram todos, não faz tanto
tempo. Tom Jobim, Piazzola, Frank
Zappa. Sobrou de vivo o João
Gilberto.
Tem um cara que é um violeiro
muito legal. E é curioso que
o RS é o único Estado
do Brasil que não tem violeiros.
De Santa Catarina pra cima todos têm,
que é o Paulo Freire. Ele é
filho do Roberto Freire, o escritor.
O Paulo era concertista de música
erudita e foi morar no sertão
pra aprender a tocar viola. E é
um sujeito que tem um pouco essa visão
que eu tenho. De sonhos mais inatingíveis,
o Tom Waits, a Björk, o Caetano,
que apesar das suas idas e vindas
e contradições, eu tenho
uma afinidade de visão de mundo
bem forte com ele. Porque é
um cara que, apesar de todas as suas
opiniões polêmicas, musicalmente
não tem preconceito. Esse último
disco dele ("Noites do Norte"),
depois de fazer um monte de disco
careta, é arrojado.. Se arriscou
como ninguém mais se arrisca
aos 60 anos de idade. E o Tom Zé,
né? Que é o pai de todos
os malucos. Mas eu não sei
se eu conseguiria trabalhar com o
Tom Zé, porque o raciocínio
dele é muito caótico.
O
maestro Julio Medaglia é um
injustiçado, não sabe
fazer seu marketing pessoal ou não
merece mesmo nenhum reconhecimento?
Arthur:
Não, o Medaglia é
sensacional! E eu acho que ele sabe
fazer muito bem o marketing pessoal
dele! Porque essa história
dela ficar falando mal... Bah! O caras
que falam mal são os que mais
se dão bem! Até o momento
que param de se dar bem, né?
(risos). O Medaglia não é
o mais genial dos caras da Tropicália,
mas é um dos mais geniais.
E como maestro é um cara muito
importante. Eu gosto dele. Acho que
ele é uma figuraça!
Sujeito difícil de tratar e
tal. Mas eu nunca convivi com ele.
Tem alguns amigos que já conviveram
e que dizem que o cara "não
é bolinho" (risos). Mas
tudo bem, eu gosto do cara. Tem uma
frase do Fernando Pessoa que diz assim:
"Eu tenho imensa simpatia por
essa gente que não merece simpatia
nenhuma". E eu tenho um pouco
isso. Eu gosto de gente que não
faz a menor questão de ser
simpático e de agradar e tal.
Porque eu acho que essas pessoas são
muito verdadeiras. O Medaglia é
um cara assim. O Caetano é
assim, sabe... Essa coisa do "Foda-se!",
entendeu?
Eu acho saudável isso. Isso
é uma coisa que falta um pouco,
principalmente no mundo da mídia.
Eu procuro Ter isso também,
que é uma coisa de tu dizer
realmente o que tu tá pensando.
Porque é tão raro isso...é
TÃO raro isso acontecer na
mídia... que quando isso acontece,
e deveria ser padrão, os caras
começam a achar que é
muito legal. Só que na verdade
isso é o mínimo. E é
raro.
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