Arthur de Faria
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Depois de muito tempo tentando marcar um encontro para bater um papo, o MusicaTri finalmente conseguiu entrevistar o grande "músico-jornalista-comunicador" Arthur de Faria. Divirta-se!
Por Angela Pinto
Fotos: Rafael Spuldar


Tu declaraste certa vez que se sentiu surpreso de descobrir uma série de músicas e culturas diferentes quando participou do Projeto do Itaú Cultural. Surpreso de ver como um gaúcho, com uma carga cultural tão diferente, poderia deglutir todas aquelas informações e ao mesmo tempo que a nossa música, também poderia ser decodificada em outras regiões. Decodificada e apreciada. Afinal, se é assim, por que o trabalho que é feito aqui entra com tanta dificuldade no centro do Brasil?
Arthur:
Eu tinha uma opinião bem diferente sobre essa relação, antes de participar desse projeto do Itaú. A gente passou um ano e meio convivendo. Gente de todo o Brasil. Todo mundo com um perfil muito parecido com o meu. A imensa maioria das pessoas era músico e produtor, de alguma forma.

E eu fiquei muito impressionado porque a situação de todo mundo é muito parecida. Essas queixas que a gente tem aqui, de não ter penetração e tal, elas são comuns a todo o Brasil. Não ao Rio de Janeiro, que inequivocamente É o centro para a difusão da grande mídia e não a Pernambuco, porque foi decidido que Pernambuco é o "Estado da hora". Assim como teve antes o pessoal do Ceará, depois teve uma época que eram os baianos e depois os mineiros. Nunca teve essa época do Rio Grande do Sul, assim como nunca teve a época do Pará, ou do Paraná, ou ...os paulistas alguma época tiveram na mídia, no início dos anos 80, mas até mesmo em São Paulo tem uma reação parecida. Isso me deixa muito impressionado. Por exemplo, o Luiz Tati, que é um cara bastante conhecido aqui, que vem muito pro Rio Grande do Sul, ele é praticamente desconhecido no Rio de Janeiro. Algumas pessoas lembram do grupo Rumo, mas o grupo Rumo foi muito mais conhecido aqui em Porto Alegre do que no Rio de Janeiro. Então não é uma situação nossa. É uma situação de todo o Brasil que está para o centro. Mas eu acho que isso cada vez mais é relativo. Eu acho que cada vez mais as pessoas estão montando pontes e vão por fora disso. Que vão se conectando entre si. A própria história do disco agora ("Música pra Gente Grande", lançado por Arthur de Faria em 1997), está sendo relançado por uma gravadora de São Paulo, independente, hoje talvez seja a segunda gravadora independente mais importante, depois da Quarup, que é a Núcleo Contemporâneo. E isso já são conexões que a gente tá fazendo, né? Porto Alegre ->São Paulo. Daí tem o cara do Pará que fez um trabalho com o cara do Paraná. E a rede ajuda muito nisso. A Internet é muito pródiga nisso, que é a coisa de democratizar a informação. Tornar possível cada vez mais o cara não precisar sair da sua cidade para tentar o sucesso nacional. Porque cada vez menos importa a grande mídia. Cada vez mais importam as mídias alternativas, pelo menos pro tipo de trabalho que a gente faz.

É que as vezes o Brasil fica parecendo meio hostil ao RS, como no caso do Luis Antônio Giron (crítico nascido no RS e que já declarou que o Estado é uma "caatinga cultural") . Então não é culpa da estética do frio(Estética do Frio: Tese formulada por Vitor Ramil, sobre a distância do centro do Brasil sentida pelos gaúchos)? Risos
Arthur: Eu acho que é muito bem formulada aquela tese do Vitor. Me identifico muito. Eu já presenciei alguns momentos de forma muito impressionante, essa conexão Buenos Aires -> Montevidéu. Que é um dos lados que o Vitor fala. Porque a gente acaba tendo sempre uma relação complicada com o Rio de Janeiro, e a gente confunde muito o Rio de Janeiro com o Brasil. A gente começa a achar que não nos amam e que a gente não ama eles, aquela coisa. E se volta pro outro lado. E a gente fez show em Buenos Aires e em Montevidéu e em ambos os casos foi muito impressionante. Teatro lotado, sem saber quem a gente era. Os caras iam porque sabiam que era do Brasil e que era legal e tal. E a gente presenciou muito fortemente isso, de como é uma mesma cultura. Eu vou muito pra Buenos Aires, desde sempre. Sempre me senti muito em casa em Buenos Aires. Montevidéu é igual a Porto Alegre, parece a mesma cidade. E tem muito essa cultura do Mercosul. Então a gente tá numa posição... e o próprio Vitor coloca isso muito bem, a gente aqui no Rio Grande do Sul não é periférico. A gente é o centro de uma coisa muito bacana que é a conexão do Brasil com o Mercosul. A gente está exatamente colocado no centro e isso é uma coisa que ainda tem muito o que render e as pessoas tem muito o que se dar conta em relação a isso. Mas essa história da música carioca ser confundida com a música brasileira, isso não foi por acaso. Esse foi um processo que aconteceu ao longo do final dos anos 30 e depois ao longo dos anos 40 com o governo do Getúlio Vargas, que era um governo absolutamente nacionalista. Uma das primeiras medidas que o Getúlio tomou foi queimar as bandeiras dos Estados, anular os hinos regionais. E como ele estava no Rio de Janeiro e ali era o centro do poder, ele utilizou a indústria cultural e a música. Fomentou muito para que essas áreas crescessem, incentivou muito o rádio, incentivou muito a produção musical como um todo. E estabeleceu como fator de união nacional também a música. E daí era a música carioca, que era a música da hora. E na época já era o centro, porque era a capital federal. Então todo mundo que queria se dar bem de alguma forma ia pro Rio de Janeiro. O Ari Barroso era mineiro mas foi pro Rio. O Assis Valente era baiano mas foi pro Rio. E a música que se fazia lá, que era o samba, era uma música de absoluta qualidade, e foi colocada como música do Brasil. E isso aconteceu em muitos lugares do país. Essa cultura que na verdade é "estrangeira" pra nós, porque até então, aqui no Rio Grande do Sul, não se ouvia muito samba e maxixe. Isso era considerado música de negros, no sentido pejorativo. Essa coisa européia que a gente tinha aqui era muito mais forte e tinha uma cultura própria na época bem mais impressionante. E depois foi muito difícil retomar. A gente começa a fazer música no Rio Grande do Sul de novo, com intensidade, no final da década de 60. São 30 anos de cultura musical e é complicado tu te estabelecer como gerador.

Uma vez eu li uma entrevista tua que dizia que existe um "corporativismo baiano" e que baiano só fala bem de baiano. Será que se o gaúcho tivesse a mesma união, nossa música não estaria mais difundida e mais forte em outros locais?
Arthur: Isso tem dois lados. Tem esse lado corporativo dos baianos, mas por outro lado esse projeto do Itaú foi muito...todos nós ficamos muito chocados com o que nos relatavam as pessoas da Bahia. Que a situação deles era terrível

 

para quem não fazia Axé. Todos os músicos que não fazem Axé, e que são muitos, eles não tem espaço nenhum. Tem um espaço muito menor do que tem aqui no Rio Grande do Sul. Por exemplo, o Rio Grande do Sul tem várias gravadoras independentes. Lá na Bahia não tem NENHUMA gravadora que não seja ligada ao Axé. Assim, o cara não tem nenhuma possibilidade de lançar um disco independente que não seja de Axé! A não ser que seja independente mesmo. Do cara, e ele não tem nenhuma gravadora. Daí vai ter todos os problemas de distribuição. E tem ainda a tentação da indústria, que é muito forte e complica mais ainda a vida deles. O curador da Bahia, que é o Juatan do Nascimento (trompetista), toca com a Daniela Mercury, ele mesmo ao longo do processo, conversando com a gente, resolveu retomar a carreira dele. Que era uma coisa que ele tinha abandonado porque era muito fácil pra os bons músicos baianos ganharem muito dinheiro tocando Axé. Que eles não gostam, mas dá muito dinheiro. E eles têm muito dinheiro e são de alguma forma infelizes por causa da tentação da indústria. A mesma coisa de alguma forma acontece no Rio de Janeiro. Difícil surgir alguma coisa realmente nova no Rio de Janeiro porque a tentação de fazer uma coisa padronizada é muito grande, porque a indústria tá ali do lado. O cara tá indo no mesmo bar que o diretor da gravadora, tá freqüentando os mesmos lugares. Essa distância que a gente tem, que é saudável e que durante muito tempo Pernambuco teve e que Minas tem. Isso te faz gerar trabalhos criativos. Porque é aquela coisa: Não adianta tu fazer uma coisa bastante comercial porque não tem nenhuma PUTA gravadora aqui, entendeu? Essa tentação é mais distante até geograficamente. Os caras não vêm aqui pra caçar talentos. Então foda-se, entendeu? Vamos fazer uma música que a gente está a fim de fazer. E isso acaba gerando uma cultura própria. Mas essa coisa do falar bem, é algo que se reverteu muito nos anos 90 aqui no RS.

Eu fiz uma entrevista com o Kleiton Ramil, onde ele dizia "seria tão bom se os gaúchos falássem bem uns dos outros...", mas não acontece.
Arthur: Eu acho que nos anos 80 isso era bem mais grave. Tinha uma polarização muito grande. Quem era do Rock não gostava de quem era MPB e quem era MPB não gostava do Rock e os dois ignoravam o Choro e o Samba. Polarizações muito fortes. Isso era um campo de batalha. E as fronteiras eram muito definidas. Eu acho que isso se diluiu muito nos anos 90. Eu vejo um espírito muito mais corporativo, muito mais solidário, muito mais as pessoas se aproximando de pessoas diferentes e tendo interesse nelas. É uma época de diluição de fronteiras. De repente os caras da Ultramen estão com o Gilberto Monteiro, gravando uma milonga. Esse tipo de coisa seria impensável nos anos 80.

Inclusive criaram uma corporativa, o pessoal do Garagem Hermética, Zé do Belo...
Arthur: Ou outras bandas lá, tipo Relógios de Frederico, Chumbo Grosso. Eu nunca acreditei nessa coisa de fronteiras. Eu nunca fui roqueiro, ou mpbista, ou erudito, ou popular. Eu sempre me interessei por muitos trabalhos em muitas áreas diferentes. Porque eu acho que é a única forma pro cara crescer como músico. Senão ele vai ficar pra sempre como um "bluesman" porto-alegrense querendo soar como um bluesman americano pelos próximos 60 anos! Eu me constranjo e me encabulo quando eu vejo isso. Fico encabulado pelo cara. Enfim, eu acho que essa diminuição de fronteiras é saudável e é corporativa. E eu acho que de alguma forma sempre vai ter aquelas pessoas que se fecham nos guetos e que vão falar mal de todo mundo que não é do seu gueto. E tem as pessoas que vão tentar transcender essa coisa dos guetos. Hoje eu vejo as pessoas se ajudando muito mais, se interessando muito mais umas pelas outras.

Qual é o problema do Brasil em aceitar a música feita nos países vizinhos, cantada em espanhol? A música brasileira tem boa aceitação em países como a Argentina, vide Porto Alegre em Buenos Aires.
Arthur: Essa coisa me intriga muito. Essa coisa dos países do Prata e da América Latina como um todo. E intriga muito os caras lá também. Porque a mão inversa lá é muito verdadeira. Eu participei do "Porto Alegre em Buenos Aires" e do "Porto Alegre em Montevidéu" e eu dou um curso de história da mpb, junto com o Luis Augusto Fischer, durante o Porto Alegre em Buenos Aires. A gente já fez isso duas vezes. E é um sucesso! Lotado! Vem gente de Tucuman, que viaja 800 quilômetros pra fazer o curso. Ou seja, há esse interesse.. Tu fica pensando: se trouxesse uns argentinos pra fazer um curso de história da música argentina aqui, certamente não teria o interesse que tem lá. O Brasil sempre teve muito de costas pra América Latina. Em algum momento da década de 70, não. Com um caminho lá do Milton Nascimento, do Chico Buarque. Eles tentaram uma aproximação com a América Latina e tocaram bastante no fim da década de 70, começo da década de 80. Eram mais conhecidos os artistas. E mesmo essa coisa de que no Rio Grande do Sul é mais forte, e é mais forte...Aqui as pessoas conhecem o Fito Paez e o Charlie Garcia. Na média, a quantidade de pessoas que conhecem o Charlie Garcia, o Fito Paez, a Mercedes Sosa e o Astor Piazzolla, que é uma parcela mínima da música argentina, por exemplo, é muito maior do que se tu perguntar no Rio de Janeiro. Mas, por exemplo, a MTV teve aquela iniciativa do Tordesilhas, e que foi feito aqui no Gigantinho, com um monte de bandas bacanas da América Latina, e resolveram fazer aqui por causa de toda essa mística e tal, e foi um fracasso retumbante de público. É uma coisa curiosa.

Eu falo até de coisa de rock, como o Almendra ou o Soda Stereo. Coisas que podem tranqüilamente tocar em FM e as pessoas não se interessam porque é em espanhol.
Arthur: Aqui no RS algumas pessoas sabem que isso existe. Mas fora daqui, ninguém. E na verdade essa foi uma ponte que foi abortada dentro desse processo lá de 30, 40, do Getúlio. A nossa unificação com os países do prata, com a Argentina principalmente, é muito forte. O Tango em Porto Alegre era muito forte. Muito forte! Muito mais forte que no resto do Brasil. Todas as casas onde se ouvia música, que eram os cabarés e os cafés, todas tocavam Tango. Todo mundo sabia dançar Tango. Pelo menos os passos básicos. E isso foi se perdendo. Inclusive tem um jovem pesquisador argentino, que é da ala jovem da Academia Nacional de Tango, o Pedro Uchoa, que é um cara que me ajudou muito nesse livro que eu escrevi, sobre a música do RS no séc. XX. O Pedro está pesquisando há anos e anos, pra escrever um livro sobre o Tango em Porto Alegre. Eu acho que é uma função que a gente tem que exercer mais. O Fito lotou absolutamente os dois shows que fez aqui no RS. Agora ia vir de novo e cancelaram. E nunca teve esse sucesso de público em outros lugares do Brasil.

Quem ainda não é revelação, mas vai ser, dentro da mpb atual?
Arthur: Eu acredito muito em alguns caras aqui do Rio Grande do Sul. Tem essas 3 bandas que eu falei: Relógios de Frederico, Chumbo Grosso e a Faskner. Eu acredito especialmente na Chumbo Grosso. Agora eles vão se fundir, a Chumbo Grosso e a Relógios de Frederico. Que eles propõem realmente uma coisa muito nova. Na tradição da Aristóteles de Ananias Jr, trabalho do Marcelo Birk. Inclusive a banda é encabeçada pelo Zanatta (Luciano Zanatta, saxofonista), que tocava com o Marcelo (Birk) na Aristóteles. Mas ele tem um conceito que me agrada mais, de capricho na execução. Não é aquela estética podre do Marcelo, que tem a sua lógica e tem a sua coerência, mas que eu discordo. A Chumbo Grosso tem essa estética de fazer as coisas muito elaboradas e arranjos usando politonalismos e poliritmias que a Aristóteles fazia, mas fazendo isso soar bem. Tem o DJ Dolores, lá de Pernambuco, que está pintando agora e foi mais uma das descobertas dessa história da Cartografia Musical Brasileira. É um cara genial Genial! Ele já é um veterano lá da cena de Pernambuco, mas ninguém conhecia ele fora de lá. O cara se apresenta como DJ Dolores e Orquestra Santa Massa. É ele como DJ, em programações e tal, uma menina que canta e toca percussão, mais um percussionista, um sujeito que toca rabeca e um outro que toca pífano. Misturando aqueles ritmos lá com música eletrônica. Tem um grupo de Minas também muito legal, que é o pexbaA. Eles cantam numa língua inventada, escrevem sílabas, enfiam dentro de um saco e sorteiam. Aí vão montando as letras e decoram aquelas coisas absurdas. Eu acho que eles mentem. Eu acho que aquilo é islandês, pelo menos me soa como islandês (risos)...Mas é muito legal o grupo. E tem caras que já estão aí na luta há muito tempo e que não tiveram um reconhecimento grande. Eu acho que o dia que o dia que o Brasil descobrir o Nelson Coelho de Castro....
E eu acho que lentamente estão descobrindo o Vitor Ramil. O Nei (Lisboa), porque eu acho que são os três maiores compositores daqui do RS, o Nei Lisboa, o Vitor Ramil e o Nelson Coelho de Castro... O Nei eu não sei se é tão decodificável assim fora do Rio Grande do Sul. Eu tenho essa dúvida, apesar de achar ele maravilhoso e tão bom quanto os outros. O Vitor tá cavando o seu espaço lentamente e de uma forma muito sólida e muito perene. Acho que o Vitor vai ser uma referência nacional muito importante, assim como o Luiz Tati ou talvez até chegue a ser um Chico César, um Lenine, que são caras da geração dele. Eu acho que ele é muito melhor que o Chico César e que o Lenine. Já o Nelson é uma coisa impressionante, porque eu assisti a apresentação dele, tive o grande prazer de tocar duas músicas com ele lá nesse projeto do Itaú Cultural, e o impacto das pessoas era muito impressionante. Era uma coisa assim: "Como é que a gente não conhece isso?!?! Se isso é tão bom e isso é tão "brasileiro"?!?!"
Ele é um mpbista que poderia ter o tamanho de qualquer grande artista da MPB. Não deve nada a ninguém. Mas por uma circunstância qualquer de isolamento mesmo, de mídia, não teve essa visibilidade. Ele é um cara que se tiver essa visibilidade, certamente...Porque a música dele é muito fácil de ser "gostada". Outro cara que eu acho brilhante é o Maurício Pereira, que já lançou 2 discos e que era do Mulheres Negras. Depois que ele saiu do Mulheres Negras, perdeu muita visibilidade. Mas que tem um trabalho brilhante como compositor. Tem muita gente, é impressionante como essa coisa da cartografia foi assustadora. Ah! Tem o Luciano Maia, que é um gaiteiro de Pelotas, tem 20 anos de idade e se mudou pra Porto Alegre há pouco tempo. Já tá tocando com todo mundo. É um sujeito assombroso e tá indo pra Bahia agora pra um festival de World Music que vai ser a grande chance dele.

Tem influência do Tom Waits no teu trabalho ou é só impressão?
Arthur: Tem, claro! Eu gosto pra cacete do Tom Waits. Por sinal a gente fez uma música do Tom Waits nesse show com a Cida Moreyra, que o arranjo era meio "Time".

Trabalhar com músicos eruditos não limita o funcionamento geral, já que estão muito acostumados com a execução pura e simples? ou a idéia é essa, criar e ter músicos que reproduzem fielmente o que foi escrito?
Arthur: Não! De jeito nenhum! É porque é assim: metade da banda é composta por músicos eruditos, que tocam em orquestra. Mas têm dois tipos de músico erudito. O músico erudito que tem a vivência erudita de só tocar o que está escrito, e tem grandes gênios nisso... E tem o músico erudito que é o cara que tem vivência de música popular. E daí ele une o melhor dos dois músicos, porque ele tem disciplina de música erudita e é outro papo. Desde a coisa de leitura até disciplina mesmo. Na banda é basicamente o Júlio Rizzo (trombonista), que chegou de um ano de especialização lá na Alsácia, fronteira da França com a Alemanha. O Adolfo Almeida Jr (fagotista), que é primeiro fagote das OSPA. É um músico excepcional e até o Pavarotti se impressionou com ele. O Guenther Andreas (baterista e percussionista), é chefe do naipe de percussão da OSPA e o Clóvis Boca Freire, que é um coringão. Já tocou em tudo quanto é orquestra e também toca música popular. Todos esses 4 têm muita intimidade e improvisam muito. Eles são músicos populares e eruditos de grande qualidade. E esse tipo de músico é uma experiência riquíssima de trabalhar. Tem muitos músicos assim. Na própria OSPA tem gente com esse perfil, que é mais ou menos o que a gente faz. Nós gravamos um disco que deve sair em março, que é todo composto, ou 90% composto por mim pra essa formação: Banda + orquestra. Porque é exatamente na fronteira. Não é 100% erudito e ao mesmo tempo não é popular. É uma música de fronteira, que eu acredito muito. Foi o que o Radamés Gnatalli fez muitas vezes e que o Piazzola fez a vida inteira. Que o Arrigo Barnabé também fez.

Com quem gostaria de fazer uma grande jam, ou um disco tipo "basement tapes"?
Arthur: Tantas pessoas... Sobraram poucos vivos. Meus grandes heróis morreram todos, não faz tanto tempo. Tom Jobim, Piazzola, Frank Zappa. Sobrou de vivo o João Gilberto.
Tem um cara que é um violeiro muito legal. E é curioso que o RS é o único Estado do Brasil que não tem violeiros. De Santa Catarina pra cima todos têm, que é o Paulo Freire. Ele é filho do Roberto Freire, o escritor. O Paulo era concertista de música erudita e foi morar no sertão pra aprender a tocar viola. E é um sujeito que tem um pouco essa visão que eu tenho. De sonhos mais inatingíveis, o Tom Waits, a Björk, o Caetano, que apesar das suas idas e vindas e contradições, eu tenho uma afinidade de visão de mundo bem forte com ele. Porque é um cara que, apesar de todas as suas opiniões polêmicas, musicalmente não tem preconceito. Esse último disco dele ("Noites do Norte"), depois de fazer um monte de disco careta, é arrojado.. Se arriscou como ninguém mais se arrisca aos 60 anos de idade. E o Tom Zé, né? Que é o pai de todos os malucos. Mas eu não sei se eu conseguiria trabalhar com o Tom Zé, porque o raciocínio dele é muito caótico.

O maestro Julio Medaglia é um injustiçado, não sabe fazer seu marketing pessoal ou não merece mesmo nenhum reconhecimento?
Arthur: Não, o Medaglia é sensacional! E eu acho que ele sabe fazer muito bem o marketing pessoal dele! Porque essa história dela ficar falando mal... Bah! O caras que falam mal são os que mais se dão bem! Até o momento que param de se dar bem, né? (risos). O Medaglia não é o mais genial dos caras da Tropicália, mas é um dos mais geniais. E como maestro é um cara muito importante. Eu gosto dele. Acho que ele é uma figuraça! Sujeito difícil de tratar e tal. Mas eu nunca convivi com ele. Tem alguns amigos que já conviveram e que dizem que o cara "não é bolinho" (risos). Mas tudo bem, eu gosto do cara. Tem uma frase do Fernando Pessoa que diz assim: "Eu tenho imensa simpatia por essa gente que não merece simpatia nenhuma". E eu tenho um pouco isso. Eu gosto de gente que não faz a menor questão de ser simpático e de agradar e tal. Porque eu acho que essas pessoas são muito verdadeiras. O Medaglia é um cara assim. O Caetano é assim, sabe... Essa coisa do "Foda-se!", entendeu?
Eu acho saudável isso. Isso é uma coisa que falta um pouco, principalmente no mundo da mídia. Eu procuro Ter isso também, que é uma coisa de tu dizer realmente o que tu tá pensando. Porque é tão raro isso...é TÃO raro isso acontecer na mídia... que quando isso acontece, e deveria ser padrão, os caras começam a achar que é muito legal. Só que na verdade isso é o mínimo. E é raro.


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