Elis Regina
voltar  
 

O temperamento explosivo e o fato de dizer tudo o que lhe vinha à cabeça renderam à gaúcha Elis Regina Carvalho Costa o apelido de Pimentinha. A pimenta, condimento picante usado como tempero, era considerada tesouro pelos europeus na época das grandes cruzadas marítimas. A voz de Elis Regina também pode ser considerada um tesouro. Intérprete de rara qualidade, as músicas por ela cantadas ganharam roupagem ímpar, muitas imortalizadas como "aquela canção da Elis". Exemplos marcantes são "Romaria", "O Bêbado e o Equilibrista", "Águas de Março" (essa com o acompanhamento do compositor, o gênio Tom Jobim), "Como Nossos Pais", "Fascinação", "Casa no Campo", "Saudosa Maloca", entre tantos outros sucessos.

Por Márcia Costa Dienstmann

Nascida em Porto Alegre no bairro IAPI (reduto trabalhador da cidade e que acabou ficando conhecido como o "celeiro musical portoalegrense") no dia 17 de março de 1945, Elis Regina se tornou, como ela mesma admitia, "paulista por opção". Tal fato gera choradeira até hoje por parte da crítica especializada gaúcha. Para quem a criticava por não cantar em prosa e verso o Rio Grande do Sul país a fora, a Pimentinha sempre rebatia dizendo que jamais ganhou o merecido reconhecimento dentro do Estado. "Saí do Rio Grande do Sul para cantar Música Popular Brasileira, não para cantarolar Prenda Minha".

Em 1965, o mito começa a nascer quando Elis ganha o I Festival de Música Popular Brasileira com Arrastão (Edu Lobo e Vinícius de Moraes), no palco da TV Excelsior de São Paulo. "Pimentinha, fica com o Berimbau de Ouro que você merece." Foi o que disse Vinícius de Moraes. No mesmo ano, lança seu primeiro disco, Samba Eu Canto Assim, pela Philips. Ainda em 1965, a cantora é contratada pela TV Record para apresentar o programa O Fino da Bossa, primeiro de todos os musicais da TV, líder em audiência e o determinante para a eclosão dos grandes festivais da Música Popular Brasileira. O Fino da Bossa ficou no ar até 1967, ano em que Elis se casa com Ronaldo Boscoli e vai morar no Rio de Janeiro. Mas, durante o longo de sua carreira, Elis comandou diversos programas musicais para a TV, lançando nomes como o de Gonzaguinha. Se separa de seu marido em 1972. O que acabou, no entanto, não foi apenas o matrimônio: a fase da carreira de Elis dirigida por Miele e Boscoli também tem o seu final decretado com o fato. Elis se casa depois com o maestro César Camargo Mariano, de quem também se separa, tanto na vida quanto na profissão.

Alguns dos discos de Elis são "Elis Como e Porquê", "Elis em Pleno Verão", "Ela", "Elis e Tom", "Saudade de Brasil", entre outros. Nelson Motta e Aloisio de Oliveira foram uns dos produtores da Pimentinha.

Teve relativo sucesso na Europa sem apelar para sucessos e adaptações internacionais. Cantando o novo que surgia no Brasil, deixou críticos italianos embasbacados com a sua performance, na turnê européia realizada em 1978. Nada de Tom e Vinícius: ela apareceu cantando composições de jovens desconhecidos. "Carmen Miranda morreu nos anos 50. A Europa precisa entender que não somos um povo apenas de carnaval. Temos a nossa tristeza. E não vim aqui para fazer concessões. Vou cantar exatamente o que canto em meu país." Elis Regina também gravou discos com músicos europeus.

Elis Regina também era, por assim dizer, uma "atriz" no palco. Além da voz inconfundível, contrariava a estética "tocando violão sentando em um banquinho no canto do palco" da bossa-nova. Era espalhafatosa. Descabelada, agressiva com gestos rápidos e fortes, berrava e caminhava muito quando estava sob os holofotes.

Elis morreu em janeiro de 1982, com apenas 36 anos. Uma parada cardíaca provocada por uma mistura de bebida alcoólica com comprimidos deixava o Brasil sem uma de suas maiores cantoras. A guria de gênio difícil, admiradora de João Gilberto, Gilberto Gil, Billy Holiday e Aretha Franklin, deixou muitos fãs órfãos. E, gostando ou não, ela foi e é importantíssima no contexto musical brasileiro, uma referência até hoje. E ninguém nos tira o gostinho de poder dizer "sim, a Elis Regina era gaúcha". Nem a própria Elis.

Site melhor visualizado com Internet Explorer 5 ou superior
Todos os direitos reservados © 2001-
MúsicaTri - Expediente